Crítica | Assédio Sexual

Michael Douglas bem que poderia ser a imagem central de um lançamento em DVD com a sua “Trilogia das Mulheres Opressoras”. Infiel, sofreu nas mãos da personagem instável de Glenn Close em Atração Fatal, em 1987. Alguns anos depois representou o arquétipo noir do homem derrotado, parte dos jogos psicológicos da sensual e ousada personagem de Sharon Stone em Instinto Selvagem, em 1992. Mais adiante, em Assédio Sexual, lançado em 1995, sob a direção de Barry Levinson, Michael Douglas se viu envolvido na trama de uma mulher demoníaca, interpretada por Demi Moore.

Desta vez, no entanto, o seu personagem foi forte e resistiu, mas as consequências desta postura esquiva tornam a sua vida pessoal e profissional tão inconstante quanto às jornadas anteriores. Douglas é Tom Sanders, um profissional competente que se encontra diante de um desconfortável jogo de poder na empresa em que trabalha. As coisas ficam instáveis depois que ele não recebe uma merecida promoção, pois a vaga na chefia é entregue para Meredith Johnson (Demi Moore), uma mulher visualmente construída pelos figurinos de Gloria Gresham, pela maquiagem de Ronnie Specter e pelo cabelereiro Alan D’Angerio para ser bela, lasciva e muito sensual.

O sexo feminino, mais uma vez, é a representação do mal na sociedade. Ao receber funções que denominam excesso de poder, Stephanie torna-se uma mulher perigosa e mortal. Numa postura condenável para qualquer profissional que tenha a mínima noção de Teoria da Administração, os acionistas da DIGICOM, espaço narrativo erguido de maneira eficiente pelo design de produção de Neil Spisak, acabam por dar muito poder para Meredith, o que torna o ambiente de trabalho um espaço hostil. Ela é a representação da autoridade administrativa (hierárquica), enquanto Sanders detém a autoridade do especialista (conhecimento).

Sem ter noção de alguns caminhos que devem ser seguidos, Meredith demonstra desconhecer a rotina do trabalho desenvolvida na empresa, mas conforme o roteiro avança, descobriremos que há “algo de podre no reino da DIGICOM”. O primeiro ponto que demonstra uma teoria conspiratória é a acusação que a moça faz: assedio sexual por parte de seu funcionário, um tema muito polêmico para os anos 1990, haja vista os acontecimentos registrados pela mídia sensacionalista com base na “vida real”. Ela coloca Tom Sanders numa situação complexa depois que ele a renega numa noite de trabalho. A moça faz de tudo. Rasga roupa, tenta fazer um sexo oral competente, age como uma felina, mas o bom moço sai pela tangente.

Diante do exposto, o filme nos faz acompanhar o processo judicial envolvendo a situação, numa trama que mescla o já citado assédio sexual, a realidade virtual e os impactos de um mundo a descobrir as possibilidades da internet. O celular também exerce uma função narrativa importante, pois será por meio deste instrumento comunicacional que a história terá o seu desfecho. Baseado no romance de Michael Crichton, o roteiro de Paul Attanasio contém um dos principais equívocos que podem acometer uma narrativa hollywoodiana: a ausência de conflitos.

São duas as linhas narrativas: a busca por salvar o seu posto na empresa e o relacionamento com a esposa Susan Hendler (Caroline Goodall), fragilizado diante das desconfianças oriundas das acusações. Para dar combustível dramático ao tráfego destas linhas dentro de apenas um filme, o roteiro dá algumas pinceladas de erotismo, mas é tudo tão artificial que o espectador fica vulnerável ao tédio que gravita em torno dos longos e desnecessários 128 minutos de projeção.

Quando o filme se dá conta do ritmo, muitos minutos já foram perdidos com diálogos e situações que não acrescentam muita coisa ao enredo. O “problema”, então, ficou mesmo por conta do roteiro. Visualmente, entretanto, Assédio Sexual não deixa a desejar, na verdade, nem deveria, tendo em vista o investimento e a alocação da produção dentro do sistema hollywoodiano de realização, geralmente impecável com seus estúdios e cenários. Sonoramente a trama aparentemente erótica também não deixa espaço para irregularidades, haja vista a trilha do sempre competente Ennio Morricone.

No que concerne ao processo de construção da imagem da mulher, Assédio Sexual nos apresenta o arquétipo demoníaco de uma mulher possuída pelo espírito da sexualidade, exageradamente algoz da vítima indefesa, isto é, um marido que desejar apenas fazer o seu trabalho e seguir para casa. Retrato ideal da ninfomaníaca louca e ensandecida, a garota de instinto selvagem interpretada por Demi Moore exagera na dose e torna insípida qualquer tentativa de “temperar” sexualmente o sabor da narrativa.

Assédio Sexual — (Disclosure) Estados Unidos, 1994.
Direção: Barry Levinson
Roteiro:  Paul Attanasio
Elenco:  Demi Moore, Michael Douglas, Allan Rich, Anne Flanagan, Anneliza Scott, Bernard Hocke, Caroline Goodall, Darina Chylik, David Drew Gallagher, Dennis Miller, Donal Logue, Donald Sutherland, Dylan Baker, Edward Power, Farrah Forke, Faryn Einhorn, Jack Shearer, Jacqueline Kim, Jesse Dizon, Joe Urla, Joseph Attanasio, Kate Williamson
Duração: 128 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.