Crítica | Assim é a Aurora

estrelas 3,5

SPOILERS!

Após o seu drama O Rio e a Morte, Luis Buñuel conseguiu emplacar um roteiro junto a alguns produtores franceses, o que antecipou em alguns anos aquela que seria considerada a sua “segunda fase francesa“, iniciada oficialmente com Diário de uma Camareira (1964), tendo apenas uma “interrupção” para a filmagem de Simão do Deserto, em 1965, o último filme que o diretor rodaria no México.

Assim é a Aurora é um drama em que não se percebe retalhos surrealistas ou caos narrativo. Todavia, longe de ser um drama acessível comum, o filme traz a sempre afiada crítica de Buñuel à burguesia, falando também da força quase indomável do desejo sexual, da omissão da Igreja frente aos problemas sociais e da luta de classes, aqui representada de maneira bastante emotiva, com a história de Sandro (Giani Esposito), o operário que é salvo por um médico da província em que mora, mas que em seguida se vê às voltas com a enfermidade mortal da esposa, a quem ama desmedidamente. E essa doença irá impulsionar as atitudes drásticas do operário na parte final do filme.

O roteiro é baseado no romance de Emmanuel Roblès, escrito em 1952. A ação se passa em Córsega, e o diálogo, desde o início, opõe a presença dos protagonistas na ilha e no continente, aludindo a oportunidades diversas (que vão do emprego até a oportunidade de esconder uma traição). Mesmo assim, o médico protagonista hesita em sair do arquipélago porque tem em alta conta a sua profissão e não tem intenção de deixar o povo do local, que o admira e respeita. A diferença entre exercer a profissão por amor ou unicamente por interesse financeiro é o tom com que os roteiristas marcam essa personagem, além, é claro, da problemática situação moral vinda do próprio médico. Mesmo que isso não seja um escândalo — o caso é inclusive sabido por um pequeno círculo de pessoas — contrasta com a persona solícita e dedicada que é o doutor.

Paralela a essa história, temos o drama de Sandro e sua esposa Magda (Brigitte Elloy), à beira da morte. É quase irônico o fato de ele ser amigo do Dr. Valerio (Georges Marchal) e ter uma vida tão devotada à esposa ao passo que o doutor não consegue se desvencilhar da tentação da traição, mesmo que aparentemente tenha um forte carinho por sua mulher. Ambas as relações são tratadas por Buñuel como pontos de exagero pessoal dos personagens, já que Sandro não vive sem a esposa — ele fica visivelmente desgostoso da vida depois que Magda morre –, e o Dr. Valerio tem um desapego imediato à sua vida de casado, basta encontrar a bela Clara (Lucia Bosè) pela primeira vez. Há atitudes desmedidas nos dois homens, mas cada um em situações e postos morais e éticos.

É uma pena que este seja um dos filmes escanteados de Luis Buñuel. A trama é forte, a história é bem contada e tem um desfecho interessantíssimo, com todos os protagonistas caminhando no cais do porto, após o suicídio de Sandro. Embora seja aparentemente conciliador ou até banal — no sentido de não elevar de maneira melodramática os sentimentos em relação à tragédia –, Assim é a Aurora trabalha com as consequências para uma série de situações e traz um retrato cru do cotidiano, onde existem poucas concessões, muitas acusações, surpresas e tristezas a cada esquina. Mais realista impossível.

  • Crítica originalmente publicada em 25 de maio de 2013. Revisada para republicação em 20/06/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do diretor e da elaboração da versão definitiva de seu Especial aqui no Plano Crítico.

Assim é a Aurora (Cela s’appelle l’aurore) – França, Itália, 1956
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Buñuel, Jean Ferry (baseado no romance de Emmanuel Roblès)
Elenco: Georges Marchal, Lucia Bosé, Julien Bertheau, Jean-Jacques Delbo, Simone Paris, Robert Le Fort, Brigitte Elloy, Pascal Mazzotti
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.