Crítica | Assumindo a Direção

Mulher no trânsito? Ainda um tabu. É o que veremos como parte das discussões do esquema narrativa de Assumindo a Direção. A visão da mulher como condutora foi, durante bastante tempo, alvo de piadas machistas voltadas ao desempenho abaixo da média, associado, segundo as brincadeiras, ao comportamento supostamente atrapalhado e letárgico das motoristas femininas no volante de seus automóveis. O avanço das ideias em nossa sociedade ainda em processo de constante transformação comprova, por meio de pesquisas legitimadas, que estas falácias não passam de estereótipos já ultrapassados. Estudos realizados por instituições paulistas conectadas ao âmbito do trânsito e da mobilidade urbana apontaram quase 94% dos acidentes graves envolviam homens na condução, em contraponto aos 6,4% das mulheres nos registros.

Sabemos que existe a possibilidade do público masculino ser ainda uma possível maioria na posse de automóveis, mas a questão aqui vai além, num processo que descontrói a inabilidade feminina que há tempos foi apontada como biológica. O que se revela é a abordagem cultural dessa questão, afinal, há convenções estabelecidas em nossos costumes que pregam ao homem a necessidade de ser agressivo e intransigente em sua demonstração de poder e virilidade nas dinâmicas interativas em sociedade, algo que passa pelas reflexões do adorável Assumindo a Direção, um drama bastante humorado, embasado na discussão da condução de um automóvel pelas ruas da cidade como metáfora para a liberdade de uma mulher que se encontrava aprisionada dentro de uma relação degradada que alcançou o fim e a deixou despreparada para continuar a viver de maneira mais independente.

A protagonista da narrativa é dirigida por Isabel Coixet, cineasta guiada pelo roteiro de Sarah Kernochan, texto dramático que por sua vez, é inspirado no artigo feminista de Katha Pollit. Lançado em 2014, o drama apresenta, ao longo de seus 90 minutos, a trajetória da carismática e inicialmente insegura Wendy (Patricia Clarkson), uma mulher acima dos 50 que acreditava ter o seu casamento a tranquilidade para o seu cotidiano. Ao se tornar mais uma divorciada no cenário das relações contemporâneas, ela carrega consigo luto por se sentir trocada por uma mulher mais jovem, supostamente uma aluna de seu ex-marido Ted (Jake Weber), um homem que tal como várias narrativas da vida real, consegue escapar ileso da situação e se estabelecer logo numa relação nova e cheia de vida. Para Wendy resta a transformação, algo que vem na forma de desafio com o seu desejo em conquistar a carteira de habilitação.

A sua filha Tasha (Grace Gummer), também envolvida numa relação conflituosa com o companheiro, é uma das pessoas que lhe dá todo apoio, juntamente com a irreverente Debbie (Samantha Bee), amiga com quem Wendy compartilha poucas cenas, mas momentos suficientes para preencher o filme de graça. Elas riem, se divertem, comentam as falhas de Ted e dividem o status de mulheres solteiras depois de enraizadas em casamentos que aparentavam superar qualquer dificuldade e viver para a “eternidade”. Será nessa empreitada que a decidida divorciada conhecerá o seu instrutor Darwan (Ben Kingsley), um home pacato e competente, instrutor de condução para automóveis, pessoa que inicialmente lhe causa estranhamento pelos costumes, mas que depois lhe reservará os melhores momentos da sua atual condição enquanto ser social que precisa de novos caminhos para guiar a sua existência.

Acompanhados pela condução musical de Paul Hicks e Dhani Harrison, os personagens trafegam pelas ruas novaiorquinas, captadas pela direção de fotografia assinada por Manel Ruiz, sempre bem iluminada, excesso de luz que dialoga com as necessidades dramáticas dos personagens em transformação. A movimentação também é eficaz, sem grandes planos que tornem a estética de Assumindo a Direção algo muito além das regras dos manuais de cinema, convenções da imagem que, no entanto, fazem o filme ser ainda mais simpático e atraente. No design de produção, Dania Saragovia trabalha de maneira elegante e discreta o feixe de cores que em alguns momentos, dialogam com a duas cores do semáforo, isto é, o vermelho e o verde, carregados de significados que seriam óbvios demais caso não tivessem uma equipe técnica mais voltada ao eixo das sutilezas narrativas.

Enquanto ela segue novos caminhos, em busca de experimentações, o seu mentor precisa arregimentar as tradições de sua base, o que culmina na chega de sua esposa prometida, Jasleen (Sarita Choudhury), mulher que sequer domina o idioma de sua nova morada, tampouco os costumes culinários e outras regras sociais estabelecidas. Inicialmente submissa, ela transforma a vida do marido, mostrando-lhe que no contexto mais atual, o posicionamento feminino não precisa ser tão regido pela fixidez que ele, apesar de reconhecer isso na existência alheia ao domicilio, não pregava dentro de sua própria casa. É a tal da hipocrisia que nós todos precisamos combater ao nosso redor e, concomitantemente, em nosso interior que ainda guarda reflexos de manias e padrões estabelecidos desde as nossas bases.

Outro ponto interessante para o filme é a sua abordagem de choques culturais num cenário bastante diferente do que se tinha antes do 11/9, marco na geopolítica que se aproxima de duas décadas de ocorrido, mas que ainda lateja nas relações sociais na atual era política dos estadunidenses. O seu sobrinho que deseja viver sem a rigidez das regras culturais do país de origem, dentre outros conflitos. Ademais, as discussões sobre a habilitação ser um documento que passa a sensação de liberdade não é algo apenas dos debates femininos. Documentários e textos jornalísticos tem comprovado cada vez mais que a busca pela carteira de motorista funciona como uma espécie de ritual para a passagem da adolescência ao mundo dos adultos.

A sensação de liberdade, traz, junto a isso, os perigos do fascínio destes jovens pela condução veloz e furiosa, tão exaltada, inclusive, no cinema. Estamos tão certos disso que na cena de apresentação do personagem de Kingsley, há o treino de um adolescente feliz em ter sido aprovado na avaliação. Sabiamente, o mentor olha para o jovem e diz: “depois de tudo que eu lhe ensinei, você vai adquirir um carro veloz e esquecer todas as lições aprendidas aqui”. Cuidadoso, ele faz o mesmo com Wendy, numa costura inteligente de diálogos que expõem alegorias para o novo curso da vida da protagonista em busca de redenção, afinal, além do marido, ela traz em sua bagagem o abandono do pai no passado, algo que ajuda a amplificar as suas necessidades dramáticas.

Sem pressa e ansiedade, Assumindo a Direção parte dos primeiros passos, ao experimentar do tempero na direção, seguido das orientações do mentor que a levam para o caminho da libertação metafórica e real, afinal, ela agora pode conduzir a si mesma em seu próprio carro, sem depender mais de ninguém para a condução da sua própria vida.

Assumindo a Direção (Learning to Drive) — EUA, 2014
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Sarah Kernochan, Katha Pollit
Elenco: Patricia Clarkson, Ben Kingsley, Jake Weber, Sarita Choudhury, Grace Gummer, Samantha Bee, Matt Salinger, Avi Nash
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.