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Crítica | Asterix e Cleópatra (1968)

por Ritter Fan
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Georges Dargaud teve a audácia de produzir uma adaptação animada de Asterix, o Gaulês sem o envolvimento de René Goscinny e Albert Uderzo, em 1967, fazendo com que os autores da série corressem para autorizar a primeira aparição de Asterix e Obelix no audiovisual no esquecido telefilme Dois Romanos na Gália como uma espécie de prêmio de consolação. O resultado desse imbróglio foi que Goscinny e Uderzo não só conseguiram paralisar a produção de A Foice de Ouro, que seria a segunda animação completa de Dargaud, como garantiram participação muito próxima do filme seguinte que eles não só escolheram o título, como dirigiram.

Essa escolha foi o sexto álbum da série, Asterix e Cleópatra, sem dúvida um dos melhores da coleção em que Asterix, Obelix, Ideiafix e Panoramix vão para Alexandria, no Egito, ajudar o incompetente arquiteto Numerobis a construir um palácio em homenagem a Júlio César em apenas três meses depois que o ditador romano, em conversa com sua amante Cleópatra, zomba da capacidade dos egípcios de construírem algo tão suntuoso. A fascinante e clássica premissa ganha uma animação à altura, com design muito mais próximo ao dos quadrinhos e com movimentações muito mais fluidas do que em Asterix, o Gaulês, além de um cuidado maior com detalhes de segundo plano e o uso mais proeminente de uma boa trilha sonora composta por Gérard Calvi.

Falando em música, ela é a mais inusitada característica desta animação que pode até mesmo ser classificado como musical considerando que há três números cantados com elementos surreais – como o leão de Cleópatra cantando junto com ela ou Obelix tendo um sonho todo rosa e muita música – que emprestam um sabor diferente à obra, mas sem que ela perca suas características mais importantes. Pessoalmente, não acho que os irredutíveis gauleses combinem com números musicais, mas esse é apenas meu gosto pessoal, já que os números em si são bem executados e não muito longos, apenas acrescentando toques diferentes ao já bastante conhecido material original (que, vale lembrar, ganharia uma segunda e muito bem sucedida adaptação cinematográfica, desta vez em live-action, em 2002).

Além dos números musicais, o roteiro de Jos Marissen, Eddie Lateste e Pierre Tchernia tem o cuidado de explicar, logo no início, como os egípcios falavam, “justificando” – sem realmente precisar, temos que convir – a razão pela qual os inesquecíveis balões com hieróglifos das HQs não são usados na animação, além de conseguir esticar organicamente todas as sabotagens empreendidas primeiro pelo arquiteto rival Timetamon (nunca me canso desse brilhante nome da tradução brasileira) e, depois, pelo próprio Júlio César, que se recusa a aceitar a chance de perder a aposta para sua amada. A sucessão de planos maléficos é abraçada pela direção de Goscinny e Uderzo que tiram o melhor proveito desses estratagemas com sequências dinâmicas e muito divertidas.

O lado negativo dessas escolhas, porém, é que a própria Cleópatra ganha pouco destaque na animação. Quem já leu o álbum – e, se você não leu, está fazendo o que aqui??? – perceberá que ela tem presença praticamente igual e não é esse o problema. A questão é que, se há alguém que merecia ter mais tempo de tela, ganhando sequências mais esticadas, é justamente a última faraó efetivamente ativa da Dinastia Ptolomaica, de forma a desenvolver melhor sua personalidade mimada que Goscinny construiu, além de salientar sua beleza incomparável (ah, mas que nariz!). Infelizmente, porém, Cleópatra fica razoavelmente relegada a terceiro plano em sua própria animação, razão pela qual elegi ilustrar a presente crítica com uma imagem só dela.

Asterix e Cleópatra, como apenas o segundo esforço audiovisual (completo, pois as aparições de Asterix e Obelix em Dois Romanos na Gália são mínimas), tira um pouco do gosto amargo da primeira e desapontadora adaptação e mostra o verdadeiro potencial dos gauleses nas telonas. É apenas uma tristeza lembrar que Goscinny só veria mais uma dessas versões animadas de sua incrível criação.

Asterix e Cleópatra (Astérix et Cléopâtre – França, 1968)
Direção: René Goscinny, Albert Uderzo
Roteiro: Jos Marissen, Eddie Lateste, Pierre Tchernia (baseado em obra de René Goscinny e Albert Uderzo)
Elenco: Roger Carel, Jacques Morel, Jacques Balutin, Bernard Lavalette, Jacques Jouanneau, Jean Parédès, Lucien Raimbourg, Pierre Tornade, Pierre Trabaud, Micheline Dax, René Goscinny
Duração: 72 min.

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