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Crítica | Astro Boy – 1X01: O Nascimento de Astro Boy (1963)

por Luiz Santiago
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 3
Número de episódios: 193
Período de exibição: 1963 – 1966
Há reboot?: Sim. Astro Boy (1980 – 1981) e Astro Boy (2003 – 2004).

É impressionante o quanto se pode conseguir com uma animação tecnicamente simples, mas feita com grande criatividade e sem temores maiores de convidar o público para pensar sobre questões sociais, familiares, institucionais… tudo isso em um único episódio. Ao contrário do que certos indivíduos imaginam, é perfeitamente possível divertir e “ser despreocupado” realizando algo que não seja a mais pura e completa alienação. E digo isso porque no momento em que escrevo esta crítica, no meio de uma pandemia, me parece que algumas pessoas aprenderam a hatear tudo o que seja minimamente não-alienativo, usando o acúmulo e variações nonsense da palavra lacrar para classificar certos tipos de abordagens na arte — o que quer que signifique essa expressão hoje em dia, dentro ou fora do curral. Pois é.

No Japão de 1963, o Mestre Osamu Tezuka adaptava para a TV um de seus mais famosos mangás, usando a oportunidade para falar de tecnologia, problemas familiares, justiça do Estado, ética, injustiças sociais e igualdade, contando a história desse simpático robozinho-garoto que é a recriação do filho do Dr. Boytonn que morreu em um trágico acidente. A sequência inicial do anime é chocante, mas não no sentido gore ou mesmo violento da coisa. Tezuka faz desenhos que nos gera uma grande simpatia pelos personagens, e os rostos cheios de espanto aparecendo em sequência na tela nos tiram o sossego e ressaltam, com bem pouco, o grande impacto desse momento.

Uma diferença de abordagem que temos entre essa série e sua versão de 1980 é a ligação entre Astro e seu pai, o Dr. Boytonn. Aqui, uma sensação de amor e preocupação de um para com o outro nos é transmitida, sem desvios, desde o início (ao contrário do piloto do reboot oitentista), mostrando o verdadeiro choque dessa morte no desafortunado pai, o que fortalece o impacto da tragédia. Aos poucos, porém, o orgulho e a plena vontade de controle do homem acaba por desumanizar o filho-robô, rejeitando então qualquer ligação sentimental com ele, uma vez que não tinha mais a obediência como pagamento.

Essa vontade de controle frustrado por aquele que deveria ser o controlado retira por completo a máscara do cientista. O amor, se é que houve algum dia, se dissipa e dá lugar ao ódio diante de uma questão impossível: Astro não se torna aquilo que o Dr. Boytonn queria que ele se tornasse. E claro, os que clamam no deserto por hiper-realismo num anime de ficção científica deverão gritar: “mas como é que um cientista queria que um robô crescesse?“, provando, com essa dócil pergunta, que não entenderam nada do que viram. A grande questão é que o Dr. Boytonn perdeu o filho e tentou sublimar a depressão, a dor, o abismo da alma substituindo o menino por uma grande invenção. Ele queria que Astro agisse como o filho, mas isso era impossível, por um motivo muito simples. A metáfora, todavia, não está no absurdo de um cientista pensar isso (até porque o espectador não pode, apenas por esse piloto, provar que os robôs desse Universo não crescem…), mas na cobrança que esse pensamento representa.

Notem que quando não serve aos propósitos sonhados pelo cientista, Astro é vendido para um showman do futuro, o dono de um Grande Circo de Robôs. Esse é um dos momentos mais criativos da animação, mostrando uma boa variedade de invenções metálicas dessa realidade e novamente trazendo à tona a discussão sobre ser descartado quando não se serve mais aos interesses alheios. Neste segundo ato, o drama familiar dá lugar a um drama de exploração do trabalho, e uma série de outras discussões morais, éticas e de referência histórica aparecem. A luta de Astro contra Golem é uma representação interessante do entendimento da vida e de como cada Ser, com suas particularidades, deve ou merece ser tratado, elemento do qual o roteiro faz perfeito uso no final.

Esse uso vem primeiro numa emergência que termina revelando a faceta heroica de Astro e seus amigos, salvando a vida de seu algoz e dos espectadores do circo. Depois, vem com uma decisão política que aquece o coração do espectador e que certamente bebe nas Leis da Robótica de Isaac Asimov. É uma pena que o final do episódio seja abrupto, carente de uma pequena cena antes do último corte, mas o trabalho de Tezuka junto ao diretor Noboru Ishiguro e sua equipe de animadores é simplesmente aplaudível. O Nascimento de Astro Boy não é só interessante e criativo visualmente. É o início de uma série com um personagem cativante, um texto profundamente sociológico, emotivo, reflexivo e uma mensagem geral que não parece vir de um programa infantil. Dá-lhe, Mestre Tezuka!

Astro Boy – 1X01: O Nascimento de Astroboy (The Birth of Astro Boy / アトム誕生) – Japão, 1º de janeiro de 1963
Criador: Osamu Tezuka
Direção: Noboru Ishiguro, Osamu Tezuka
Roteiro: Osamu Tezuka
Elenco: Mari Shimizu, Hisashi Katsuta, Yoko Mizugaki, Kiyoshi Komiyama, Masaaki Yajima , Hisashi Yokomori, Hisashi Yokomori, Shingo Kanemoto
Duração: 30 min.

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