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Crítica | Ata-me!

por Rodrigo Pereira
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Após sair de uma clínica psiquiátrica, o jovem Ricky (Antonio Banderas), sozinho e com 50 mil pesetas (moeda espanhola utilizada até 2002), presente da diretora da clínica, resolve ir atrás de Marina (Victoria Abril), uma ex-atriz pornô viciada em drogas, com um único objetivo: convencê-la de que é o amor de sua vida e que será o pai de seus filhos. Para tanto, ele invade a casa e rapta a jovem atriz, mantendo-a amarrada à cama ou algemada à ele durante praticamente toda a obra. Essa é a premissa de Ata-me!, filme dirigido por Pedro Almodóvar e lançado em 1989.

Ao apresentar essa atitude extrema, o diretor deixa claro o foco do filme: vícios. As personagens, em maior ou menor grau, apresentam algum tipo de vício que acaba afetando suas vidas. Ricky, como citado anteriormente, é aficionado em Marina e também na idealização de uma grande família junto dela, reflexo de seu passado conturbado como órfão. Marina, por sua vez, é dependente química e usuária de diferentes tipos de entorpecentes (sua satisfação ao usar qualquer tóxico chega a assustar). Há também Máximo (Francisco Rabal), diretor de cinema que está gravando sua provável última obra, dono de uma perturbadora obsessão pela pornografia e que personifica isso em Marina ao ser mostrado sempre assistindo filmes antigos da atriz (quase unindo sua dependência pelo pornográfico à jovem).

De todas as formas de vício apresentadas e desenvolvidas, a de Marina é a mais interessante, ainda que imperfeita. Suas tentativas de sempre refugiar-se nas drogas a fazem digna de uma toxicômana, como bem define sua amiga médica após receita-la morfina em uma consulta que realiza logo após Ricky raptá-la. Sim, é verdade que ele a agride fisicamente e seria uma explicação para a morfina, isso, porém, não é o motivo que a faz procurar a droga. Ela reclama, mesmo antes da agressão, de uma dor de dente constante e por isso necessita do analgésico. A dor, entretanto, serve como uma justificativa dela para continuar a consumir entorpecentes, como se tentasse convencer a si mesma que seu vício é uma necessidade biológica pessoal.

Ao longo do filme, mais especificamente no terceiro ato, essa dependência química de Marina transforma-se numa dependência por Ricky. É justamente aí que vejo mais problema. Ainda que a intenção de Almodóvar fosse retratar os diferentes tipos de dependência e como uma situação pode parecer boa quando, na verdade, não o é (o que, no geral, o diretor fez muito bem), a transição da dependência química para amorosa de Marina é muito abrupta. A atriz passa o longa inteiro tentando livrar-se de seu cativeiro e sequestrador, sem jamais demonstrar qualquer tipo de afeto, e, de repente, vê-se apaixonada quando Ricky volta para casa machucado após levar uma surra. Do ponto de vista reflexivo, funciona; do narrativo, nem tanto.

Mesmo que esse detalhe tenha me causado certo incômodo, junto a algumas cenas que não acrescentam à narrativa e poderiam ter ficado de fora, como o diálogo de uma jornalista com um aparente ex-namorado logo ao início da projeção, Ata-me! cumpre muito bem sua proposta. É bastante interessante perceber como cada personagem lida com seu vício e tem sua vida afetada por ele, sendo quase uma análise dessas obsessões no comportamento humano (tudo magnificamente ambientado em Madrid e no colorido característico de Almodóvar).

Impossível também não comentar, mesmo que brevemente, sobre a trilha sonora. Afinal, é composta por ninguém mais ninguém menos que o essencial Ennio Morricone. Ainda que não seja tão marcante quanto em Três Homens em Conflito ou Era uma Vez no Oeste, por exemplo, Morricone faz jus a seu nome e apresenta um trabalho sólido, capaz de nos tocar seja em cenas de tensão ou românticas. Ainda que pontuais, as composições são lindas e ótimos acréscimos a película.

Ata-me! é uma obra que explora as relações humanas com o amor e o poder sob a ótica do vício e como isso pode mudar completamente a vida dessas pessoas. Outra bela contribuição de Almodóvar para a sétima arte.

Ata-me! (¡Átame!) — Espanha, 1989
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Victoria Abril, Antonio Banderas, Loles León, María Barranco, Rossy de Palma, Julieta Serrano, Francisco Rabal, Lola Cardona
Duração: 101 minutos

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