Home TVTemporadas Crítica | Ataque dos Titãs (Attack on Titan) – 3ª Temporada

Crítica | Ataque dos Titãs (Attack on Titan) – 3ª Temporada

por Kevin Rick
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Attack on Titan

Mas, afinal, qual é a linguagem dos animes? Existem livros, estudos, cursos, e afins, sobre a linguagem cinematográfica, mas não me recordo de alguma vez ter visto um artigo sobre a linguagem dos animes. Falando superficialmente, bem superficialmente, a linguagem do cinema é o conjunto dos elementos fílmicos e como cada diretor os usa para comunicar-se com os espectadores. Essa ligação dos componentes do cinema resultam nas discussões e estudos da sétima arte. Ora, se anime é uma obra audiovisual, a linguagem não deveria ser a mesma, mas, claro, dentro dos conformes do gênero? Talvez sim, talvez não, mas independente disto, fica a questão de qual é o objetivo artístico dos elementos intrínsecos dos animes, e quais seriam esses elementos dentro do gênero que compõe sua linguagem própria.

Não irei me aprofundar tanto nestes questionamentos, pois iria me divergir totalmente da 3ª temporada de Shingeki no Kyojin, mas decidi tecer estes pontos para explanar como este terceiro ano de Attack on Titan é o melhor exemplo de como usar as características dos animes, sustentando todos os clichês que fãs do gênero se acostumaram e adoram, mas, ao mesmo tempo, continuamente desconstruindo as tendências desta forma de arte. Esta temporada é visivelmente dividida narrativamente, com a primeira metade dos episódios destacando a corrupção do governo e os mistérios em torno da família real. Eu continuo martelando na tecla do horror, mas é um elemento tão essencial da obra que é impossível não citar de forma contínua o seu uso na trama. Os Titãs são temporariamente esquecidos, e o inimigo do interior, que Hara constantemente deu indícios de seu desenvolvimento, são finalmente aprofundados na exibição do terror advindo de divergentes posicionamentos regenciais. A ação sempre esteve à serviço da história, e este arco inicial é sem dúvida um drama político onde os protagonistas disputam seu lugar na sociedade, buscam reinserir o verdadeiro herdeiro do trono e tentam resgatar Eren das garras de um vilão… pela enésima vez.

Antes de adentrar nos mistérios da monarquia, é interessante notar como o terror da corrupção humana é o verdadeiro foco desta primeira metade. Com a saída dos Titãs, criaturas facilmente vistas como antagonistas pela humanidade, vilões naturais que qualquer pessoa não sentiria remorso em assassinar, o autor coloca a moralidade em cheque ao digladiar humanos vs humanos. Ora, nosso pequeno grupo lutava por sobrevivência, não por arrependimento ético. À medida que os jovens atingem o limite de seus princípios, notamos como muitos começam a perder sua própria identidade. Certo ou errado não está mais à mesa, apenas visões contrárias, resultando em assassinatos, sequestros e torturas. Dentro deste sacrifício de caráter, meus dois membros favoritos da série, Erwin, e o personagem mais badass da década de animes, Levi,  finalmente ganham backstorys.

Apesar das personalidades distintas, e o background dessemelhante – ainda que ambos trágicos –, o objetivo da dupla se aglutina na busca sedenta por conhecimento, independente da abnegação necessária. Esta escolha dos dois, e também de Hange, de lentamente apagar qualquer resquício de humanidade própria em prol da informação é transmitida ao grupo de antigos cadetes, em especial Eren. O protagonista da série manteve a meta simplória de extermínio do inimigo fora das muralhas mesmo quando se tornou um deles, mas seu arco toma novos ares quando disposto de decisões dubiamente morais. Sua determinação é posta em cheque, e Eren responde a altura de um protagonista Shounen, enfrentando as adversidades em prol do seu sonho. A diferença é que por se tratar de Shingeki no Kyojin, as sequelas físicas são meros arranhões face às lesões psicológicas.

A segunda metade da temporada se desenvolve como uma longa sequência de batalha, à medida que os Titãs, liderados pelo terrível Bestial, chegam para tentar eliminá-los. São episódios emocionantes, tão intensos que mal se detém por um momento. Os scouts enfrentam probabilidades aparentemente intransponíveis em batalhas substancialmente dramáticas carregadas de desenvolvimentos narrativos anteriores, com a melhor ação vista na série desde a primeira temporada. A animação parece melhor do que nunca, com Wit Studio entregando um trabalho de excelente aparência. Apenas alguns CGI instáveis ​​decepcionam, mas longe de ser um obstáculo visual. Depois de deixar de lado seu trio central por grande parte do resto da temporada, Eren, Armin e Mikasa conseguem ter um papel central nos eventos mais uma vez.

É necessário falar sobre o ataque final de Erwin e seus soldados. Toda esta segunda parte contêm cenas espetaculares, mas esta em especial é o exemplo perfeito do motivo de assistirmos animes. Remetendo-se ao que disse sobre a linguagem de animes; o discurso, o ataque em direção à morte, as consequências do feito, expõem todas as características intrínsecas desta forma de arte em seu nível mais alto. A construção de mundo, o diálogo emocionalmente expositivo, o desenvolvimento temático de sacrifício e honra dispostos de uma forma que vai mantê-lo na ponta do seu assento durante toda a ação.  Obviamente que Isayama descontrói as convenções do gênero da forma trágica tão comum da série, sempre desmoralizando as decisões dos personagens, pois preto no branco é inexistente neste universo, permanecendo apenas perspectivas e decisões diversas, e suas repercussões.

A 3ª temporada de Attack on Titan destoa imensamente do estilo das duas anteriores, principalmente sua metade inicial, mas os horrores advindos da corrupção e das sequelas de escolhas angustiantes mantém a série em seu terreno de desconforto moral, adicionando um quadro político pouco desenvolvido até aqui. Os episódios finais exibem como nossos protagonistas se encontram numa posição parecida de Reiner, Annie e Betholdt, continuamente navegando em como visões diferentes resultam em catástrofes.

Attack on Titan – 3ª Temporada (進撃の巨人, Shingeki no Kyojin, Japão, 2018/2019)
Criado por: Hajime Isayama
Direção: Tetsurō Araki, Masashi Koizuka, Hiroyuki Tanaka, Yoshihide Ibata
Roteiro: Yasuko Kobayashi, Hiroshi Seko, Hajime Isayama
Elenco: Masumoto Takuya, Hashizume Tomohisa, Marina Inoue, Yûki Kaji, Yui Ishikawa, Hiro Shimono, Kishô Taniyama, Daisuke Ono, Hiroshi Kamiya, Yû Kobayashi, Romi Pak, Yoshimasa Hosoya, Shiori Mikami, Yû Shimamura
Duração: 526 min. (22 episódios)

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