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Crítica | Ataque dos Titãs (Attack on Titan) – 4X01: Do Outro Lado do Oceano

por Kevin Rick
14610 views (a partir de agosto de 2020)
Do Outro Lado do Oceano

  •  spoilers. Leiam, aqui, a crítica dos episódios anteriores.

“Não me toque. Você vai me sujar. Diabo”. Estas são as palavras proferidas por um soldado à beira da morte ditas em direção a uma criança eldiana que tentava ajudá-lo. O ódio perpetuado por Marley contra os descendentes de Eldia começou a ser construído nos episódios finais da terceira temporada, mas neste retorno da série, eles são amplificados emocionalmente, alargados socialmente e desenvolvidos de uma forma ainda mais aterrorizante que retratada anteriormente. Qual é o limite humano – se sequer existe um – para a punição de crimes ancestrais? O fato é que não faz qualquer sentido os filhos sofrerem as consequências de transgressões realizadas por seus progenitores, muito menos tratando-se de crimes cometidos por gerações tão distantes quanto a História mundial. Do Outro Lado do Oceano

O universo fantástico e a trama fantasiosa de Shingeki no Kyojin não poderiam ser mais distantes da realidade, mas as temáticas da corrupção humana, a diferença de classes, o conflito de ideias resultando em violência, entre outras tribulações tão remanescentes do nosso mundo, sempre foram a substância que engrandeceu a obra. Mantendo esta linha narrativa, Hajime Isayama coloca em evidência o ódio cíclico, e como ações hediondas resultam em mais ações hediondas. Aliás, uma pequena observação – não uma crítica negativa, apenas uma observação –,  acredito que é a primeira vez que o autor destoa-se do teor realista que utiliza como pano de fundo da obra. Afinal, não me recordo de qualquer perpetrador mundial sofrer as consequências de seus atos da forma perpétua exposta aqui aos Eldianos. Note que quem sofre as complicações da escravidão até hoje são os descendentes dos povos que eram escravizados. Ainda assim, a repulsa contra o outro passada hereditariamente é um tópico que, infelizmente, é extremamente verídico dentro dos parâmetros mundiais.

O preconceito sempre permeou o enredo da série, mas é interessante notar que até a parte final da temporada passada, o preconceito racial não era um tema em evidência na trama. A discriminação relacionada à poder aquisitivo e posição social dentro da muralha sempre foi objeto de discussão do anime,  mas o racismo só começou a ser elaborado mais tarde na obra, e como este episódio dispara todas os horrores advindos do preconceito racial da forma mais horrenda possível no espectador, Isayama exibe a linha estrutural de toda sua crítica social no show. Os Eldianos são bucha de canhão, bombas suicidas ambulantes, experimentos cuidadosamente construídos para servidão mental. O preconceito racial como estopim de tudo que vimos na série é a perfeita forma de costurar narrativamente a temática de exibição do horror advindo das ações humanas. O anime prepara o terreno para uma temporada provavelmente cheia de surras emocionais provenientes do sofrimento por simplesmente nascer como minoria.

Percebam como Gabi é um paralelo do que Eren era nas primeiras temporadas. Uma criança consumida por raiva contra um inimigo que não entende, mas que é responsável por toda a infelicidade de sua curta existência. Sempre manifestei como o roteiro do anime continuamente elaborava dois diferentes inimigos para os protagonistas, mas acredito que o verdadeiro objetivo de Isayama é transpor a cruel realidade, principalmente em guerras, que o antagonismo é baseado em divergências ideológicas, e que “inimigo” não existe dentro do conceito da série. Vilões existem, obviamente, mas à medida que o anime avança, tem ficado cada vez mais difícil distinguir os heróis.  Gabi têm a mesma perspectiva do jovem Eren, enquanto ele, junto de nosso grupo principal, provavelmente começou a infiltrar-se em Marley, da mesma forma que Reiner, Annie e Bertholdt fizeram, e, possivelmente, não com as melhores intenções. O espectador pode se enganar dizendo que é retaliação, e que nossos protagonistas estão no lado correto da história; no entanto, Marley também não retaliou Eldia?

Todos estes pontos intricados estão diluídos dentro de um episódio frenético, que não dá brecha para desvio de atenção por um segundo sequer, com vinte minutos voando como cinco, deixando o espectador ansiando por mais. Existia muita dúvida por partes dos fãs em relação à qualidade da animação, consequente da troca do estúdio, e, sinceramente, eu adorei. É notável a diferença do trabalho, mas tudo continua lindo. O CGI tão fortemente exprimido nos Titãs causa maior estranheza, mas não tenho nada a reclamar. Hajime Isayama é um gênio, e sua magnum opus retorna em um episódio sem defeitos, navegando nas conotações sociopolíticas deste universo tão parecido com o nosso, mas sustentando o fantástico em um capítulo recheado de ação. Mal posso esperar para conferir o restante desta temporada final.

Attack on Titan – 4X01: Do Outro Lado do Oceano (進撃の巨人, Shingeki no Kyojin, Japão, 07 de Dezembro de 2020)
Criado por: Hajime Isayama
Direção: Yûchirô Hayashi, Jun Shishido
Roteiro: Hajime Isayama, Hiroshi Seko
Elenco:  Takehito Koyasu, Yoshimasa Hosoya, Marina Inoue, Noriaki Kanze, Shuhei Matsuda, Tôru Nara, Motoki Sakuma
Duração: 24 min.

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