Crítica | Ataques de Tubarões no Recife, de Arnaud Mattoso

Em Ataques de Tubarões no Recife, Arnaud Mattoso oferta ao leitor a terceira incursão em sua trilogia sobre Tubarões, iniciada com o jornalístico Mitos e Verdades Sobre Ataques de Tubarões no Recife e na aventura de horror Mar de Sangue, versão ficcional com toques de Tubarão, do mestre das imagens Steven Spielberg e seus derivados. No desenvolvimento do terceiro livro, o autor emprega a linguagem acadêmica para abordar os temas tratados anteriormente, mas desta vez, com atualizações e crítica política nem um pouco discreta, dando “nomes” e apontando os problemas decorrentes do panorama decadente da política brasileira nos últimos anos, antagonista da ciência e dos investimentos em questões educacionais e sociais.

Confesso que a tomada do livro antes de seu lançamento oficial foi uma honra, pois se estabeleceu como um ato de confiança por parte do autor. Ao ceder o seu “original” ainda em estado puro, sem a versão das prateleiras, Mattoso me possibilitou uma leitura de contribuição, com dicas e apontamentos durante o deslizar de cada página. Por isso, a leitura, seguida da reflexão sobre o livro foi mais afetuosa que as trajetórias anteriores, realizadas num período de ciclo dos tubarões, sequência de críticas de filmes do estilo, na ocasião de lançamento do irregular Megatubarão. Envolvido com outros temas, aderi ao dispersivo exercício de retornar aos tubarões, afinal, trata-se de um tema sempre atual, haja vista a divulgação de Medo Profundo – O Segundo Ataque, sequência do filme dirigido por Johannes Roberts.

O projeto, organizado pela Vedas Edições, apresenta fotos do arquivo pessoal de Arnaud Mattoso, também editor, com montagem de capa assinada por Rodrigo Sales. Nas primeiras páginas, o autor criou um pequeno texto para falar sobre a necessidade da pesquisa científica. Breve e sucinto, aponta alguns caminhos que serão percorridos pela publicação: o apoio do falecido governador Eduardo Campos no projeto PROTUBA, cancelado por falta de investimento, alguns trabalhos atualizados sobre os incidentes com os tubarões no Recife (monografias e teses) e retoma alguns tópicos abordados mais profundamente em seu primeiro livro, de longe o melhor da trilogia, publicação simples e objetiva que nas duas edições, ofertou ao leitor bastante informação, sem perder o ritmo diante de seu aspecto textual pedagógico, numa escrita brilhantemente cativante, atraente e, por sua vez, envolvente.

Antes de adentrar em Ataques de Tubarões no Recife, Arnaud Mattoso traz dois prefácios. O primeiro é da reitora da UFRPE, Prof. Maria José de Sena, detalhista no que concerne apontar a importância do engajamento do autor diante do tema. O segundo prefácio é de João Stacichin de Queiroz, pesquisador que compreende bem do assunto, pois já foi morador do local e conhece as suas histórias, além de estar envolvido cientificamente com a temática. Ademais, os dois prefácios nos ambientam para o mergulho nas questões que serão abordadas adiante, sendo a história do barco Sinuelo uma das mais interessantes. É um capítulo que o autor emprega a linguagem jornalística em bom tom. São descritos detalhes estruturais da embarcação e o seu funcionamento e programação, descritos de maneira a nos fazer desejar uma experiência no empolgante estudo de espécie marinha tão enigmática.

A relação com os pescadores, o aperfeiçoamento dos estudos sobre o canal de Boa Viagem e a revisão sobre a construção do Porto de Suape, a proximidade do público insistente em nadar nas áreas de risco, bem como as vibrações positivas dos primeiros anos do projeto PROTUBA são delineados, antes do autor descrever o descaso governamental com a pesquisa acadêmica, algo que desceu ladeira abaixo com a morte de Eduardo Campos, representante político que investia nos projetos sobre o assunto e tinha os incidentes com tubarões como parte de sua agenda política.

Engraçado observar o subtexto crítico do autor, sem ser explícito, mas demonstrando, de maneira ácida, mas sutil, uma espécie de reflexão sobre os resultados dos problemas de ordem política que acometem o Brasil de 2014 pra cá. Parece uma versão Jaws de Democracia em Vertigem, salvas as suas devidas proporções. Conforme as suas observações, órgãos como o CEMIT, sempre corretos em suas contas e investimentos, começaram a sofrer retaliações oriundas de conflitos de interesses dos gestores de cargos importantes no bojo da política brasileira. Mesmo com o apoio de pesquisadores do mundo inteiro dedicados ao processo de valorização da pesquisa desenvolvida no Brasil, os conflitos internos, exibidos por meio de documentos que descrevem posturas de cunho persecutório nos fazem imaginar como a esfera pública brasileira está em paralelo com os fios de tensão oriundos da ficção, apresentados por cineastas como Kleber Mendonça Filho.

Duas pesquisas ganham destaque: a tese de doutorado de Jonas Rodrigues, intitulada “Habitats essenciais dos tubarões-tigre, cabeça-chata e galha-preta no litoral de Pernambuco com ênfase na interação homem-tubarão” e a monografia de Jéssika Tamara de Araújo Ferreira, “Descrição morfológica da córnea dos tubarões Charcarinus limbatus e Charcarinus leucas”. Neste trecho, Arnaud Mattoso passeia pela pesquisa de Rodrigues e destaca um espaço gigantesco na pesquisa de Ferreira, algo que considerei pouco necessário, pois ao trazer trechos comentados do trabalho desenvolvido pela pesquisadora, acaba por reiterar algo que deve ser lido em sua totalidade por meio da plataforma virtual da universidade de desenvolvimento da pesquisa.

Além disso, Ataques de Tubarões no Recife, traz um problema estrutural, nada prejudicial: o glossário no final do livro, algo que deveria acompanhar o corpo do texto. As indicações devem elucidar logo abaixo do tema, pois em tempos de dispersão e velocidade, ir ao final do livro, compreender o significado de algo talvez desconhecido, para depois voltar, torna-se uma missão do leitor investigador, engajado, pesquisador, mas infelizmente não promove a aderência de alguém leigo no assunto. Por ser um livro de cunho crítico e educativo, o material deveria ser pensado de maneira mais estratégia no envolvimento do formato físico do livro e de seu manuseador, isto é, nós, leitores. Ademais, as fotografias são instigantes, bem adequadas, mas o desenvolvimento gráfico do livro anterior era mais instigante. A diagramação era “arte”, não apenas um conjunto de imagens ilustrativas. Isso, pode ter certeza, faz bastante diferença, pois as comparações com os livros anteriores são inevitáveis, afinal, Ataques de Tubarões no Recife não é um material avulso, mas o desfecho de uma jornada que começou de maneira incrível. E, em seu fim, deveria terminar da mesma maneira.

Ataques de Tubarões no Recife (Brasil, 2019)
Autor: Arnaud Mattoso
Editora: Vedas Edições
Páginas: 154

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.