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Crítica | Atarrabi & Mikelats

por Michel Gutwilen
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O cinema de Eugène Green, desde quando vi a obra-prima O Mundo Vivente (2003), sempre me fascinou muito por ser a prova empírica de que na Arte menos pode ser mais. Naquela ocasião, o diretor franco-americano não precisou de muito mais do que um jogo de planos e contraplanos para trazer um lado mitológico e fantasioso ao seu filme. Não precisou de efeitos especiais, de maquiagem ou sequer de fantasias. Afinal, ele não fazia o sobrenatural se materializar em tela, mas ser uma presença intangível dentro e fora do plano. Lembro-me de que havia um cão acompanhando o protagonista, só que seu dono afirmava que ele era um leão e o rugido que ele emitia era de um. Existe algum cineasta que seja capaz de dar tanto poder ao espectador na criação de sua própria fantasia? Green não deseja o cinema como experiência passiva, mas como como um processo mental ativo, no qual nosso cérebro deve superar a barreira lógica imposta pela aparente contradição entre significado (a imagem de um cachorro) e significado (um leão), se deixando levar pela imaginação. 

Tudo isso que foi dito pode se encaixar de certa forma em Atarrabi & Mikelats, pois se trata de mais uma obra greeniana que têm como base todo esse pacto entre diretor e espectador para que se chegue a uma plena fabulação. Porém, algumas particularidades diferenciam o projeto de 2020 comparativamente ao de 2003. A mais evidente delas é que se trata de uma obra extremamente pautada numa dialética que explora o dualismo entre o Bem e Mal. Na história do longa, dois filhos de uma deusa com um humano são enviados ainda crianças para serem educados pelo Diabo. Quando chegam na fase adulta, um deles (Atarrabi) decide fugir e acaba virando discípulo em um monastério, enquanto o outro (Mikelats) fica como aprendiz no Inferno. Logo, o desenrolar da narrativa marcada pelo paralelismo entre as duas vidas (e mise-en-scènes) distintas evidenciam que Eugène está interessado neste aspecto da narrativa.

Se o que marca uma visão dualista de mundo é a simplificação gerada pelo antagonismo entre Luz e Escuridão, a mise-en-scène de Green, que já possui uma tendência primitiva, se adequa perfeitamente ao que a narrativa pede. Pega-se como exemplo o uso das cores para marcar esse antagonismo, com todo o figurino do núcleo de Mikelats sendo monocromaticamente vermelho e o de Atarrabi tendendo mais ao branco. O que poderia ser chamado de “obviedade” em algum filme, em Atarrabi & Mikelats, é a mais pura inocência do diretor ao reconhecer que não há outra forma de representar visualmente uma oposição milenar. O diretor respeita a convenção estabelecida pois se trata de uma narrativa que se baseia justamente em um eterno mito, então não há espaço para que uma intervenção autoral transgrida o eterno padrão artístico da representação visual do Bem contra o Mal. Curiosamente, ainda neste sentido de ode à tradição, mesmo ao estabelecer contrastes visuais entre os dois núcleos, há uma coisa que se faz presente em ambos, que são o ritual e a dança, que é mais uma forma de dizer que certos comportamentos são forças autônomas que estarão se manifestando de qualquer jeito.

De mesmo modo, pensemos na montagem, quase sempre pautada no plano e contraplano. Trata-se de um eterno jogo dialético que está presente no Cinema desde os primórdios, quando D.W. Griffith ajudou a transformá-lo em convenção narrativa ainda nos anos 1910s. É, ao mesmo tempo, simbólico, por ser mais um elemento que se adequa a noção de  dualidade, como também reforço desta vontade de Green em respeitar uma “força maior” mítica que é superior a ele. 

Um outro ponto diferencial de Atarrabi & Mikelats é o seu aparente anacronismo, pois Green faz questão de deixar claro que sua narrativa se passa no mundo contemporâneo (os créditos iniciais em uma estrada de carro; o computador no escritório do Diabo e a câmera de segurança; o casaco de Atarrabi; o diálogo sobre rap e estudo de gênero), mas, ainda assim, tais elementos do tempo presente não são mais do que meros “easter eggs” e toda a sensação passada pela mise-en-scène (seja pelos figurinos, pela ambientação medieval e pastoral, pela simplicidade da câmera ou) é a de um tempo pretérito. Assim, esta dualidade contribui para a construção de um espaço fértil à fabulação e a imaginação, elementos caros ao cinema do autor. Como diz a frase de Fernando Pessoa escolhida para abrir a narrativa, “O mito é o nada que é tudo”. Ele é atemporal, tanto passado quanto presente, rei do tempo.

No fim, essa fábula vai criando vida do jeito mais greeniano possível, com alguns preferindo afirmar que há um ar satírico no cinema desse diretor, mas eu penso ser mais adequado usar o termo pureza. Quando a câmera aponta para uma coruja ou uma pedra e escutamos uma voz sem aparente emissor, nosso cérebro acostumado aos CGIs que fazem bocas de seres irracionais se mexerem pode até achar graça, mas Green está realizando um exercício de levar o espectador ao seu estado mais infantil da crença cega. Similarmente, evidente que há um sentido humorístico quando três moças aparecem se banhando em um rio, a câmera corta para o protagonista olhando para elas e, quando volta, o que se vê são três anões. Mas o que está em jogo é mais do que uma piada de gênero: é um autor de Cinema acreditando que a própria montagem pode fazer mágica, uma aventura fantasiosa que não é construída só pela história em si, mas pela própria mise-en-scène

Atarrabi & Mikelats (2020) — França, Bélgica
Direção: Eugène Green
Roteiro: Eugène Green
Elenco: Saia Hiriart, Lukas Hiriart, Ainara Leemans, Thierry Biscary, Pablo Lasa
Duração: 122 mins

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