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Crítica | Até a Última Gota

Quando o tema não sustenta a arte.

por Fernando Campos
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Um dos momentos chave na vivência da cinefilia é aprender a dissociar a mensagem de uma obra de sua execução artística. A história do cinema está repleta de filmes com ideologias questionáveis, mas com maestria técnica inegável, como as obras de Mel Gibson. Assim como há narrativas socialmente urgentes estruturadas em linguagens toscas. Até a Última Gota, de Tyler Perry, é um caso desse segundo grupo. O filme defende uma causa legítima, a luta de uma mãe negra contra a opressão sistêmica, mas a reduz a um panfleto maniqueísta e tecnicamente desleixado. Reconhecer essa falha não é rejeitar sua temática, mas exigir que pautas progressistas sejam tratadas com a complexidade que merecem.

Janiyah (Taraji P. Henson), mãe solo em um subúrbio marginalizado, enfrenta várias adversidades em um curto período de tempo. Seu aluguel está atrasado. O ambiente de trabalho é tóxico. A filha sofre bullying. Tudo isso para ainda se deparar com a indiferença de quem a conhece. Após ser demitida e perder seu apartamento, Janiyah entra em desespero e invade um banco armada, mas a situação resulta em um sequestro caótico. Cercada, a mulher precisa decidir seus próprios passos para garantir a própria segurança e da filha.

O roteiro de Perry opera no binarismo infantil. Os personagens dividem-se entre “opressores” (todos insensíveis, grotescamente egoístas) e “vítimas” (Janiyah, a detetive e a gerente do banco), sem nuances. Não há espaço ou sequer a intenção para entender que o gerente do mercado ou os policiais são tão vítimas do sistema quanto os outros. Muito menos que o assaltante negro assassinado poderia estar agindo também por desespero. A justificativa para o assassinato, “eu precisava do meu cheque”, sintetiza o vazio ético do filme. Janiyah é inquestionável, uma mártir cujos atos são absolvidos pela narrativa. Essa simplificação não só esvazia o discurso antirracista, como o transforma em um melodrama regressivo.

Perry substitui a profundidade pela repetição literal. Janiyah não vive seu drama; ela o anuncia em frases de efeito (“Mas a minha filha!”, “Preciso do dinheiro!”), repetidas vezes sem cenas que as potencializem. Ou seja, faltam camadas para o roteiro, seja no aspecto técnico ou temático. Não há acidez. Não existe uma mísera reflexão sobre a complexidade do mundo, do capitalismo ou qualquer outra coisa. A direção é igualmente preguiçosa: close-ups médios dominam a fotografia, mesmo em cenas de tensão como dentro do banco. A montagem também ignora ritmo ou claustrofobia, se mostrando totalmente protocolar. Já a trilha sonora é um desserviço, com violinos melosos tomando cenas que deveriam ser de conflito, dissipando qualquer impacto. A única exceção é a maquiagem, que usa olheiras e suor em Henson para traduzir o desgaste da protagonista. Aliás, chega a ser comovente o esforço da atriz diante de um texto tão pobre, mas o trabalho dela se resume a gritos e olhos esbugalhados, não acrescentando camada a uma protagonista porcamente escrita. 

Talvez consciente do esvaziamento do filme, Perry introduz um plot twist no final que tenta elevar a experiência a algo psicológico, mas só prejudica ainda mais a obra porque deixa de lado qualquer aspecto social abordado. Além de soar como um recurso aleatório, choque pelo choque sem nenhuma preparação narrativa. Portanto, Até a Última Gota falha em transformar urgência social em arte interessante. O realizador Tyler Perry acerta ao denunciar a violência estrutural contra mulheres negras, mas erra ao aprisioná-la num melodrama tecnicamente medíocre e intelectualmente vazio. A obra confunde repetição com ênfase, maniqueísmo com clareza política e lacração com empatia. O resultado é um filme que, apesar da nobreza temática, subestima sua própria audiência e, pior, sua causa. Pautas progressistas não merecem apenas boas intenções. Elas exigem rigor estético, complexidade e respeito à inteligência do espectador. Afinal, discursos necessários perecem quando embalados em pobreza criativa.

Até a Última Gota (Straw – EUA, 2025)
Direção: Tyler Perry
Roteiro: Tyler Perry
Elenco: Taraji P. Henson, Sherri Shepherd, Teyana Taylor, Sinbad, Rockmond Dunbar, Ashley Versher, Mike Merrill, Glynn Turman, Shalet Monique, Diva Tyler, Fracaswell Hyman, Derek Phillips
Duração: 105 min

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