Crítica | Atlantique (2019)

atlantique- 2019 plano crítico

Ganhador do Grand Prix, o segundo troféu mais respeitado do Festival de Cannes, Atlantique é sustentado por um roteiro com pauta simples, que infelizmente é confuso, mas que ganha força na inovação e coragem da diretora Mati Diop. Na história, um grupo de construtores senegaleses que não recebem o salário há meses parte para a Espanha em busca de melhores condições de vida. Dentre eles, se encontra o jovem Souleiman (Traore), que está apaixonado por Ada (Mame Bineta Sane). A paixão é recíproca, no entanto a garota está prometida pelos pais a casar com o rico Omar (Babacar Sylla).

O roteiro notoriamente quis introduzir conceitos metafóricos em todos os diálogos. Claro que isso poderia ser um elemento positivo, visto que obras de baixo orçamento precisam se sustentar em algo interessante e a metáfora é uma boa saída. Contudo, o excesso desse recurso deixou o roteiro angustiante e completamente subjetivo. Destaco que subjetividade nunca é um defeito cinematográfico, porém a intenção inicial de Atlantique não suporta isso. Tanto que o primeiro ato é o mais objetivo de todos e realmente levanta o questionamento principal que a película queria abordar: a injustiça diante da liberdade humana, seja ela amorosa (como no caso da protagonista) ou capitalista (representada pelos trabalhadores). A partir do segundo ato, porém, essa ideia é enterrada pelas metáforas que parecem esconder a ideia inicial e encaminhar a história a uma reflexão pessoal do espectador. O filme, enfim, deixou de ser moralista para se tornar, desnecessariamente, individual, ou seja, baseada na experiência de cada um.

Além disso, a narrativa inexplicavelmente desenvolveu o arco do detetive que não parece conversar com o arco da protagonista. Durante a trama eles se encontram, porém é algo forçado e sem sentido. O detetive não acrescenta em quase nada na história, sendo sua influência baseada apenas em uma única informação. Apesar disso, ele rouba quase metade do filme. Seria mais interessante que reservassem esse tempo para as cenas com Ada pois, assim, aumentaria a chance de o roteiro ficar mais claro.

Mas essa subjetividade dá certo fora do roteiro. As cenas escolhidas não acompanham o tradicional: os enquadramentos não necessariamente focam em quem está falando e, vez ou outra, o visual se estabelece no mar enquanto o diálogo flui normalmente na parte sonora. Esse artifício poderia confundir o público porque eventualmente não é possível ao menos identificar quem está falando, porém, isso não acontece. As sequências, apesar de teoricamente confusas, funcionam eficientemente na técnica e trazem um clima único e inovador à obra. Além disso, levanta o ar subjetivo que os roteiristas quiseram trazer. A diferença é que, neste aspecto, funciona. Dessa forma, seria melhor que tentassem o “meio termo”, de modo que o roteiro fosse a parte objetiva; e o visual, a subjetiva.

Apesar das críticas negativas superarem as positivas, o filme ainda se mantém como mediano. A inovação na construção das imagens deixa o projeto interessante e todo “interessante” já é meio caminho andado. No entanto, um roteiro que se perde a partir do segundo ato e não cativa o espectador deixa o filme apenas assim: interessante. 

Atlantique é uma obra que ganha força apenas na direção. Infelizmente possui um roteiro fraquíssimo, com excesso desnecessário de metáforas que já seriam supridas suficientemente pela inovação na parte visual. Interessante de se assistir apenas pela coragem da diretora, a obra talvez não merecesse o segundo prêmio mais respeitado do Festival de Cannes.

Atlantique – França, Senegal, Bélgica, 2019
Direção: Mati Diop
Roteiro: Mati Diop, Olivier Demangel
Elenco: Mame Bineta Sane, Amadou Mbow, Traore, Nicole Sougou, Aminata Kane, Coumba Dieng, Ibrahima Mbaye, Diankou Sembene, Abdou Balde, Babacar Sylla, Arame Fall Faye, Ya Arame Mousse Sene, Babacar Samba, Astou N’Diaye, Khouda Fall
Duração: 106 minutos.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.