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Crítica | Atômica: A Cidade Mais Fria

por Guilherme Coral
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estrelas 3,5

Ao pensar em histórias sobre espionagem é bastante comum que venham logo à mente os filmes de James Bond ou Missão: Impossível, franquias que ironicamente, estão tão distantes do assunto quanto Velozes e Furiosos, por exemplo. Ainda que o espião cinematográfico seja dominado por tais figuras, vez ou outra temos produções como O Espião que Sabia Demais ou O Homem Mais Procurado para colocar nossos pés de volta ao chão. Recentemente adaptado para o cinema, a graphic novel de Antony Johnston e Sam Hart, Atômica: a Cidade Mais Fria, é outra dessas obras que lidam com a espionagem de maneira mais realista.

atomica-a-cidade-mais-fria-capa-plano-criticoA trama se passa em 1989, poucos dias antes da queda do Muro de Berlim e tem início quando um agente britânico do MI6, portanto informações vitais das operações da agência de espionagem, é assassinado na Berlim Oriental. Com a tarefa de recuperar esses dados, Lorraine Broughton é enviada à Alemanha antes que as informações sobre todos os agentes britânicos ativos nesse país caiam em mãos inimigas. Sem poder confiar em ninguém, a espiã acaba entrando em uma aventura repleta de reviravoltas e incerteza.

O primeiro aspecto que nos chama a atenção em Atômica: A Cidade Mais Fria é a arte minimalista de Sam Hart. Pautada inteiramente no contraste do preto e branco, sem qualquer gradação de tons, o artista estabelece a forte identidade visual de sua obra, que muito bem dialoga com a própria essência dicotômica da Guerra Fria. Esse recurso visual, que acaba tornando os personagens muito próximos em aparência uns dos outros, ainda coloca na imagem a grande questão sobre a lealdade de cada um ali, ao ponto que jamais sabemos, de fato, de qual lado estão os personagens, fora a protagonista, claro.

Infelizmente, essa característica da arte funciona como uma faca de dois gumes, visto que prejudica nosso entendimento de cruciais trechos da narrativa, especialmente nos pontos de virada, praticamente nos forçando a reler certas páginas para que possamos entender o que está acontecendo na página. Isso, evidentemente, prejudica gravemente o ritmo da leitura, já que os twists dessa história não são poucos – eu diria, até, que aparecem em número exagerado, afetando diretamente nossa percepção do clímax, já que seu impacto é diminuído pelos eventos inesperados que vieram antes dele.

A confusão do leitor é ainda mais aumentada pela narrativa à la John le Carré, que propositalmente oferece poucas informações, muitas dessas de maneira críptica, a fim de forçar-nos a pensar mais sobre o que está acontecendo. Por si só o recurso narrativo funciona plenamente, instigando-nos a participar ativamente da trama desenvolvida diante de nós. Claro que, nas páginas iniciais a confusão é plena, mas ela vai diminuindo e o problema está em seu constante retorno em razão da arte minimalista da qual falei acima.

Mesmo com esses tropeços no meio do caminho, o texto de Antony Johnston consegue manter nosso interesse principalmente através da construção de sua protagonista. Lorraine Broughton é uma mulher forte, que não deve nada a nenhum dos melhores e mais famosos espiões fictícios. Desde cedo nos aproximamos dessa personagem, que funciona como o único porto seguro nesse mar de incertezas, repleto de indivíduos que, a qualquer momento, podem revelar-se como traidores. Dito isso, rapidamente somos colocados na mesma posição da protagonista, sempre pensando sobre aqueles à sua volta, indagando sobre o que irão fazer em seguida, jamais tendo plena certeza.

Atômica: A Cidade Mais Fria traz, portanto, a espionagem em sua essência, fugindo de sequências de ação e focando nas circunstâncias que envolvem seus personagens. Trata-se de uma obra curta e que pode ser aproveitada de uma vez só, ainda que o fluxo da leitura seja constantemente interrompido pela confusão gerada tanto pela arte quanto pelo excesso de plot-twists, esses que, ainda assim, não conseguem estragar a complexa trama criada por Antony Johnston, que afasta de nós a imagem da “espionagem” em filmes como os de James Bond e Missão: Impossível.

Atômica: A Cidade Mais Fria (The Coldest City) — Reino Unido, 2012
Roteiro:
Antony Johnston
Arte: Sam Hart
Editora original: Oni Press
Data original de publicação: 29 de maio de 2012
Editora no Brasil: Darkside Books
Data de publicação no Brasil: 29 de agosto de 2017
Páginas: 176

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1 comentário

Luiz Santiago 29 de agosto de 2017 - 23:22

Nossa, essa arte (ou pelo menos esse painel de destaque) parece um desenho meu, de tão… tão… tão…
Tão…
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