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Crítica | Através da Sombra (2015)

por Leonardo Campos
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Instalações assombradas, assassinos em série, pactos demoníacos, exorcismos assustadores, presenças alegóricas do mal diante de questões sociológicas importantes ao nosso extenso acervo cultural, dentre outras abordagens. Essa é a estrutura do cinema brasileiro e sua relação com o horror, um gênero que tal como já dito em análises anteriores, encontra-se em ascensão comercial, também conectado com as celeumas contextuais de um país mergulhado nas trevas da política escabrosa, do extermínio de populações tratadas como minoria, da misoginia nossa de cada dia, bem como outros tantos problemas que nos reforçam o quão o “Brasil é um horror”, zona de germinação para tantos filmes dentro desta perspectiva. No desenvolvimento de Através da Sombra, o foco é a criação de um clima fantasmagórico, traduzido da novela clássica de Henry James, A Outra Volta do Parafuso, material literária do século XIX que rendeu filmes, séries, peças teatrais e programas radiofônicas, tendo em Os Inocentes, de 1961, a sua maior referência no que concerne o amplo painel de traduções intersemióticas.

Sob a direção de Walter Lima Júnior, também responsável pelo roteiro, juntamente com Adriana Falcão, colaboradora nos diálogos, temos uma sombria narrativa que ao longo de seus 106 minutos, nos apresenta a trajetória de Laura (Virginia Covendish), uma mulher bastante retraída, indecisa se aceita ou não o pedido de Afonso (Domingos Montagner), o tio de duas crianças que habitam uma misteriosa mansão situada numa região de plantação de café, fazenda que atravessa a famosa crise da época, constantemente a ter cheio de fumaça dentro de casa, pano de fundo não aprofundado pela narrativa, mas que situa os personagens adequadamente no tempo e espaço. Ao pegar o trabalho, Laura adentra um espiral perigoso que mexe com a sua sanidade, nos levando, como espectadores, a ter dúvidas se o que ela está passando por tudo aquilo que acompanhamos em tela ou se as assombrações e outras nebulosidades de seu cotidiano são frutos de sua mente.

Com estrutura muito parecida com as adaptações, inclusive com Os Inocentes, filme que aqui, serve de referência para o desfecho, ambos não presentes no livro, ponto de partida, Através da Sombra flerta com o sobrenatural e nos apresenta a corrupção da inocência de duas crianças que parecem do bem, indicam malevolência, mas não podem ser classificadas, detidamente, como frutos da árvore genealógica maléfica da casa que também habita Dona Geraldina (Ana Lúcia Torre), responsável pelo gerenciamento do espaço, acompanhante das crianças, carinhosa com seu dom maternal, mas ciente em relação aos mistérios que habitam a residência grandiosa, cheia de corredores, passagens e histórico de medo e morte. Ao passo que a narrativa avança, começamos a duvidar de muita coisa, inclusive da identidade de Elisa (Mel Maia) e Antonio (Xande Valoís), crianças que podem ser tão vítimas quanto a incauta professora Laura.

Para a construção do clima gótico, o filme conta com a eficiente trilha sonora de Lui Coimbra e Marcos Suzano, textura percussiva que cria dá eficiência aos aspectos estéticos da produção, também adequada em sua sombria direção de fotografia, assinada por Pedro Farkas, setor que investe bem em profundidade de campo e movimentação para a circulação dos personagens do mundo físico e as presenças fantasmagóricas, ressaltadas pelo trabalho de finalização dos efeitos visuais de Tadeu Frede e dos efeitos especiais de Maurício Couto, ambos importantes para a inserção de elementos da linguagem do horror no desenvolvimento do filme. A concepção cenográfica e a direção artísticas, assinados por Alice Carvalho e João Russo, respectivamente, contribuem para o resultado formal da produção, pecaminosa apenas na dramaturgia letárgica.

Em sua mudança geográfica, Através da Sombra traz a ambientação de 1898 para 1932, estabelece um clima gótico que diferente das demais adaptações, foge do design de produção decrépito, dando aos espectadores, cenas formidáveis para contemplação, requisito que diminui o impacto visual de algo que deveria, ao menos em nossas expectativas, ser mais assustador. O mesmo podemos declarar das crianças, não dóceis, algo que as deixa sem a ambivalência esperada para um filme dentro de tais perspectivas, isto é, professora numa casa assombrada por figuras do passado, situações de medo, morte, luto, etc. Com uma narrativa nada confiável, a saga sombria dirigida por Walter Lima Júnior funciona como exercício estético de terror, entrega um produto diletante que também permitir algumas reflexões intelectuais, mas que falha, dramaticamente, na concepção de traços de seu contexto, bem como no ritmo da narrativa, letárgico, moroso até mesmo para os menos agitados e mais contemplativos. Pode ser uma falha de roteiro? Sim. De execução? Talvez. Nada que desabone, no entanto, a proposta de mapear melhor o campo deste gênero cinematográfico que cresce a cada dia no Brasil.

Através da Sombra — Brasil, 2020
Direção: Walter Lima Jr.
Roteiro: Walter Lima Jr., Adriana Falcão, Henry James
Elenco: Virginia Cavendish, Domingos Montagner, Mel Maia, Xande Valois
Duração: 106 min.

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