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Crítica | Atriz Milenar

por Kevin Rick
304 views (a partir de agosto de 2020)

Imagine se você pudesse entrevistar seu intérprete favorito para conhecer suas histórias pessoais e artísticas? É a partir dessa premissa que conhecemos Genya Tachibana (entrevistador) e Ida Kyoji (câmera), uma dupla de documentaristas encarregados por entrevistar Chyoko Fujiwara, uma ex-atriz extremamente famosa que decidiu se aposentar e entrar em reclusão há mais de 30 anos. A narração da nossa Atriz Milenar sobre sua vida e carreira oferece uma jornada reflexiva sobre memórias, a História do Japão e o Cinema japonês, e, claro, o cineasta Satoshi Kon utiliza a mesma abordagem de deturpação da realidade em Perfect Blue para conceber uma interessantíssima experiência sobre a Sétima Arte.

Quase que uma extensão de Perfect Blue no sentido de ser uma obra sobre os bastidores da fama, Atriz Milenar, apesar de ter injeções de análise pessimista do “por trás” do Cinema, utiliza a mesma metalinguagem sobre os processos da indústria cinematográfica, mas com uma abordagem bem mais otimista e simbólica. Tema este, sobre a fama e seu impacto, tão caro e importante na filmografia de Satoshi, novamente manuseado pelo toque surrealista do diretor, agora em uma perspectiva completamente diferente de seu primeiro filme. O pesadelo sai de cena para dar espaço ao amor. O amor pelo Cinema, e todo o seu vínculo com a audiência.

À medida que Chyoko conta sua história de vida para Genya, o cineasta brinca com a realidade na sua montagem ao misturar os eventos do passado da protagonista com suas obras fílmicas. Uma homenagem ao Cinema, especialmente à Sétima Arte japonesa, no qual Satoshi move a fábula romântica de Chyoko em busca de um artista e dissidente político que se opõe à Guerra Sino-Japonesa, o qual ela ajudou a escapar e recebeu uma chave como lembrança, através de gêneros e subgêneros do cinema japonês. Películas sobre cortesãs, samurais, ninjas e sci-fi futurista tomam turnos em uma belíssima animação noventista que transpassa imageticamente o clássico e o histórico cultural japonês, e desenvolve uma ode simbólica ao situar o nosso relacionamento com o Cinema, a forma que ele nos molda, ensina e emociona através da narração da atriz milenar sobre essa eterna forma de arte.

Aliás, o personagem de Genya, um ávido fã de Chyoko e sua filmografia, serve à trama como um espelho do espectador, sempre estarrecido, comovido e impressionado com as histórias em tela, fazendo algo que toda, ou pelo menos penso que toda, pessoa já se imaginou fazer: se inserir nas telonas, ajudar seus personagens preferidos e participar das aventuras desmedidas. Seria de se imaginar que as várias participações do personagem nos contos, muitas das vezes usado como Deus Ex Machina, romperiam com o quadro histórico, mas na verdade tem o efeito contrário, pois desenvolve a bela expressão da obra sobre as interações entre filmes e audiências, além de ser amável e humorística com o carisma admirador do entrevistador.

Outro aspecto interessante é como as interconexões das memórias de Chyoko com seus filmes servem como uma lição histórica japonesa, especialmente pautada em entrelinhas com diálogos políticos e vilões recorrentes em posição de autoridade e poder, indo do século XV, do Xogunato, o Feudalismo, a cultura samurai, até o século 20, manuseando a própria personagem feminina para discorrer sobre o papel da mulher na guerra, na sociedade bastante machista japonesa e como estrela do Cinema, com algumas ligações com Marilyn Monroe a respeito do ícone mistificado e a realidade pessoal. Um filme de simbologias culturais e artísticas do início ao fim, onde Satoshi tem zero cuidado com a explicação, e digo isso positivamente, mergulhando o espectador numa viagem pelo passado de Chyoko, do Japão e do Cinema.

Acho que o filme se perde um pouquinho em sua narrativa mais direta, que é a atípica história de romance obsessivo por parte de Chyoko, que sim, recebe suas doses de metáforas e simbologias – como a chave – para dialogar sobre propósito, insistência e o conhecido discurso sobre a importância da jornada, mas recebe um tratamento narrativo meio disperso e mal trabalhado/resolvido, funcionando muito mais como simbologia. Dito isso, é uma pequena derrapada em mais um belo filme de Satoshi Kon, utilizando o alcance ilimitado da animação para conceber uma jornada memorial sobre, entre outros temas, o poder do Cinema e como filmes são partes da nossa vida.

Atriz Milenar (Sennen Joyū, 千年女優) – Japão, 2001
Diretor: Satoshi Kon
Roteiro: Satoshi Kon, Sadayuki Murai
Elenco: Miyoko Shōji, Mami Koyama, Fumiko Orikasa, Shōzō Iizuka, Shōko Tsuda, Hirotaka Suzuoki, Hisako Kyōda, Kōichi Yamadera, Masane Tsukayama
Duração: 87 min.

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6 comentários

Victor Martins 27 de abril de 2021 - 00:41

Esse filme é muito bonito mesmo. Quase uma tragédia grega.

Responder
Kevin Rick 27 de abril de 2021 - 02:43

Bela descrição! Uma tragédia grega mesmo.

Responder
Luiz Santiago 26 de abril de 2021 - 20:18

Alguém ficou com inveja do Especial Estúdio Ghibli…

HAHAHHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHA

Abs,
Luiz.

Responder
planocritico 26 de abril de 2021 - 19:45

Alguém ficou com inveja do Especial Estúdio Ghibli…

HAHAHHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHA

Abs,
Ritter.

Responder
Kevin Rick 26 de abril de 2021 - 21:07

Nem fiquei… Só estou planejando tudo que vou usurpar de vocês dois…

Responder

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