Crítica | Atypical – 3ª Temporada

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Atypical continua impressionando e emocionando pela forma honesta e cativante com que trabalha relacionamentos familiares, relacionamentos amorosos e fraternos ao mesmo tempo que mantém viva a interessante jornada de Sam (Keir Gilchrist), o jovem protagonista dentro do transtorno do espectro autista e que agora está na Universidade.

Pensando no lugar em que fomos deixados ao fim da 2ª Temporada, estava claro que alguns dilemas emocionais teria um grande peso nessa temporada e não demora nem um episódio para que tenhamos certeza disso. De pronto, os caminhos são reapresentados e reconhecemos todos os personagens mudados, embora certas coisas ainda reverberem em suas vidas e exijam, a longo prazo, uma maior atenção — este sendo o ponto em que os roteiros da temporada chegam para atacar. De fato, os problemas estão em um ponto que clamam por resolução urgente, mas muitas vezes não é possível fazer isso de forma imediata. E assim surge a trilha da temporada.

Nunca irei me cansar de aclamar Jennifer Jason Leigh pelo que ela faz nesse show. Elsa Gardner continua sendo uma das personagens mais interessantes, completas e complexas do programa. Sua vertente materna dominadora e extremamente cuidadora encontra aqui uma realidade ainda mais difícil do que na temporada passada. Os filhos já grandes e os problemas matrimoniais com Doug (que pra ser sincero parece um pouco arrastado na temporada, embora não a ponto de estragar o tempo de tela dos personagens) tiram de suas mãos a responsabilidade de cuidar. E isso a consome por dentro e se exprime por fora com uma tristeza que dá vontade de pular na tela e abraçá-la por muito tempo. Exatamente a sensação que tenho toda vez que vejo Evan (Graham Rogers) em cena.

Evan tem agora mais tempo de tela por conta de sua relação com Casey (Brigette Lundy-Paine) — outra personagem interessante, complexa e passando por problemas de identidade sexual com as descobertas da idade — e como isso também não é algo simples, o enredo o coloca contra a parede para tomar decisões importantes em relação à carreira e em relação ao próprio namoro, embora muita coisa nesse processo não dependa dele. Existem cenas belíssimas do rapaz ao lado de Casey e também ao lado de Doug (Michael Rapaport), todas com uma delicada abordagem fotográfica e dramatúrgica, seja para os raros momentos de raiva dele, seja para os muitos momentos melancólicos e tristes que tem pela frente. Com Izzy (Fivel Stewart) na jogada, há uma outra linha a ser abordada aqui, o que completa o enredo e o torna ainda mais humano, com mais complicações e dúvidas. Sabem como é… o normal da vida.

O centro das atenções, no entanto, está no acompanhamento do dia a dia de Sam na faculdade e, ao longo dos episódios, na briga que ele tem com Zahid (Nik Dodani). Eu gostei de pouca coisa em relação a Gretchen (Allie Rae Treharne), mas não consegui segurar a birra com o final do relacionamento dela com o melhor amigo de Sam. Os textos constroem muito bem todos os passos da dupla, mas no final temos uma quebra abrupta, estranhamente colocada num episódio de caráter road e sem aproveitar o tempo gasto com a personagem até ali. A mudança de Zahid no processo até que era compreensível, mas muitas vezes também me pareceram deslocadas as atitudes dele. O problema não foi a briga com Sam, mas a maneira como foi guiada. E talvez pudesse haver aí um encaminhamento mais interessante se não fosse por Gretchen no meio.

Humanos são seres complexos e quando existem pequenas condições adicionadas a essa complexidade natural, mais os relacionamentos e mais os incidentes e os acidentes da vida, a coisa fica difícil de enfrentar sozinho. É por isso que Atypical continua sendo uma grande série. O protagonista continua sendo um jovem dentro do espectro autista, mas em torno desse personagem também existe o jovem com uma família, amigos, uma namorada (Paige e a história do queijo explodiu meu cérebro), professores com diferentes abordagens e a vida em si, para se preocupar, sorrir e chorar. É uma série sobre adaptação, sobre comparações com o comportamento de outros animais em seu habitat, sobre explorar novos territórios, sobre odiar e amar e sobre viver junto. O melhor tipo de vivência possível.

Atypical – 3ª Temporada (EUA, 1º de novembro de 2019)
Direção: Ryan Case, Rebecca Asher, Victor Nelli Jr., Wendey Stanzler, Michael Medico, Annabel Oakes, Ken Whittingham, Robia Rashid,
Roteiro: Robia Rashid, Bob Smiley, Theresa Mulligan, Michael Oppenhuizen, D.J. Ryan, Lauren Moon, Nicole Betz
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Keir Gilchrist, Brigette Lundy-Paine, Michael Rapaport, Nik Dodani, Graham Rogers, Amy Okuda, Jenna Boyd, Fivel Stewart, Nina Ameri, Eric McCormack
Duração: 10 episódios entre 38 e 29 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.