Crítica | Audazes e Malditos

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Um western sobre racismo. Um “filme de tribunal”. Um filme dirigido por John Ford. Se não bastasse apenas um, eis aí três bons motivos para assistir a este longa de 1960 que o próprio diretor considerava uma espécie de “pagamento de dívida que tinha para com os negros de sua nação“, levando em conta um certo tratamento secundário e/ou estereotipado que fizera dessa etnia ao longo dos anos, ou seja, tal qual basicamente toda Hollywood.

Os últimos filmes do diretor ambientados no Velho Oeste haviam sido Rastros de Ódio (1956) e um filme sobre a cavalaria durante a Guerra Civil Americana, às vezes classificado como um ‘western distanciado’ chamado, Marcha de Heróis (1959), duas abordagens muito diferentes entre si, mas que de certa forma prenunciavam Audazes e Malditos. A questão do preconceito em um e da abolição dos escravos no final do conflito que vemos em outro, tem uma consequência histórica neste longa, mostrando um cenário onde a 9ª Cavalaria, sediada no Forte Linton, é majoritariamente formada por negros e comandada por oficiais brancos. A obra se passa entre maio de agosto de 1881 e basicamente coloca frente a frente oficiais e civis bancos e negros cercados por uma atmosfera mista de racismo e tolerância.

Baseado em Shadow of the Noose (1955), de John e Ward Hawkins, o roteiro de Audazes e Malditos tem uma boa abordagem do que se espera de um filme de tribunal e de um western com uma temática delicada, desenvolvido com as devidas marcas históricas. Os roteiristas James Warner Bellah e Willis Goldbeck procuraram manter sempre um ponto de ameaça ativo; nos flashbacks muito bem colocados e no tempo presente, onde os depoimentos trazem os fatos à tona. Em torno deles, os autores adicionaram quebras, mudanças e avanços na narrativa, tropeçando apenas na reviravolta que é típica dos filmes de tribunal — mas que aqui parece abrupta e, apesar de ter um revés interessante, não recebe um tratamento cuidadoso por parte do roteiro, seja nos diálogos que antecedem a grande revelação ou no momento em que o julgamento é finalizado. A rapidez e falta de bons elementos textuais nesse final acabam atrapalhando o filme mais do que alguns pequenos tropeços durante o desenvolvimento da história.

Woody Strode está fenomenal como o 1º Sargento do 9º Regimento de Cavalaria, Braxton Rutledge. Ele é acusado de um crime horrendo e se comporta de tal forma quando o evento ocorre, que não há nenhuma outra possibilidade que não ligá-lo ao crime. Isso e o fato de haver uma óbvia manifestação racista local de que, se houve um crime contra uma mulher e um homem brancos, este crime só poderia ter sido cometido por uma pessoa negra. O advogado racista que guia a acusação é vivido por Carleton Young, que vai crescendo de maneira impressionante à medida que o filme avança, e tem como oponente o advogado de defesa vivido por Jeffrey Hunter (brilhante no final), um dos brancos não-racistas ligado aos Buffalo Soldiers. Além do senso de camaradagem de armas que esses personagens tem (e Ford era um exímio criador de laços entre irmãos de armas), há um forte fator humano, de real amizade, especialmente entre Rutledge e Cantrell que dá um contorno ainda mais interessante à fita.

A cena noturna em que os soldados cantam Captain Buffalo é bastante intensa e, mesmo tendo sido filmada em estúdio, transmite perfeitamente a dominação desses indivíduos pelo ambiente, exprimindo uma amigável forma de apoio entre os militares, algo que veremos se repetir em toda a jornada dos barrigas azuis contra os Apaches. À exceção de Juano Hernandez, não gosto muito da atuação dos coadjuvantes da cavalaria neste filme, especialmente durante a jornada de perseguição aos índios, mas por estarem cercados de ação e com um ritmo interno sempre bem administrado pelo diretor (algo que raramente a edição conseguia estragar — no máximo enfraquecia uma coisa ou outra), esses momentos são facilmente superados.

Com preciosos momentos cômicos envolvendo a organização das esposas dos militares (Billie Burke está preciosamente engraçada aqui) e pela postura do próprio responsável pelo julgamento, o Coronel Otis Fosgate (Willis Bouchey), Audazes e Malditos nos traz uma boa representação de diferentes facetas da sociedade americana nos anos 1880, abordadas de maneira dramática, sociológica, fraterna, legal, cômica, amorosa e moral. Além do tema sério, John Ford nos faz ver que, acima de tudo, a condução limpa da justiça, como deve ser, pode evitar que culpados saiam livres de seus crimes e que inocentes sejam condenados por coisas que não fizeram. Principalmente se, de saída, há uma construção histórica de preconceito contra o acusado.

Audazes e Malditos (Sergeant Rutledge) — EUA, 1960
Direção: John Ford
Roteiro: James Warner Bellah, Willis Goldbeck
Elenco: Jeffrey Hunter, Constance Towers, Billie Burke, Woody Strode, Juano Hernandez, Willis Bouchey, Carleton Young, Judson Pratt, Ruth Clifford, Chuck Hayward, William Henry, James Johnson, Rafer Johnson
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.