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Crítica | Audição

Kiri, kiri, kiri...

por Ritter Fan
416 views (a partir de agosto de 2020)

O cineasta Takashi Miike trabalha enlouquecidamente e não tem o menor preconceito com gêneros cinematográficos. Ele encara o que vem pela frente da melhor maneira que ele sabe fazer, ou seja, honestamente, sem freios e sem tentar dourar a pílula. Ele é sempre lembrado por obras extremamente violentas e raramente podemos realmente afirmar que determinada obra de sua autoria é uma obra-prima. Audição, filme baseado em romance de Ryû Murakami de dois anos antes e que lançou a carreira do cineasta para além do oriente, é, para mim, uma delas, talvez sua maior.

O maior “problema” do longa é justamente a expectativa que se convencionou construir sobre o diretor e que já mencionei acima, algo que se agrava sobremaneira porque Audição é um daqueles longas que se tornou famoso por sua meia hora final, por sua reviravolta, sobre a qual falarei apenas na seção com spoilers abaixo. No entanto, lembrar deste filme apenas pela sua inegavelmente memorável sequência final é um crime, pois toda a construção que o cineasta faz para chegar até lá é irretocável. Por outro lado, é compreensível que o final se destaque, pois diria que ele ressignifica o que veio antes e deveria levar o espectador a apreciar o longa uma segunda vez, agora já compreendendo mais do que vem pela frente.

A história é em tese prosaica, com Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi), viúvo há sete anos, depois de seu filho adolescente Shigehiko (Tetsu Sawaki) sugerir que ele case novamente, partindo para procurar uma nova esposa. O curioso é a forma como o processo é iniciado, já que Yasuhisa Yoshikawa (Jun Kunimura), um amigo produtor, sugere criar um processo de testes de atrizes para um filme que pode ou não ser produzido. E assim é feito, com Shigeharu, mesmo antes de ver Asami Yamazaki (Eihi Shiina) ao vivo, escolhe-a com base em seu currículo e em sua sombria redação introdutória. Mas essa é superfície do longa, apenas a maneira menos complexa de descreve-lo.

Na camada mais abaixo, temos que lembrar que a sociedade japonesa, apesar de extremamente evoluída em diversos outros quesitos (como tecnologia e educação), é eminentemente machista, com uma hierarquização explícita entre homens e mulheres. E não, isso não é de forma alguma exclusividade nipônica, pelo que essa premissa é perfeitamente aplicável a dezenas (centenas!) de outros países do mundo, pelo que Audição é, na verdade, universal. Mas meu ponto é que, debaixo do processo fraudulento de testes de atrizes para que o protagonista encontre seu par perfeito, a misoginia corre solta e ela é dolorosa, ainda que nunca explícita, nunca explicada em seus mínimos detalhes com, por exemplo acontece no recente Bela Vingança, que trata essencialmente do mesmo assunto.

Para começo de conversa, o jovem Shigehiko, que basicamente teme as mulheres, algo que pode ser visto ela forma como ele age perto de uma amiga que o visita, sugere que o pai encontre uma nova esposa da mesma forma que ele pediria ao pai que trouxesse rabanetes da feira. O pai, não vê nada errado nessa sugestão e, mais ainda, sinaliza ao filho, com sua amiga presente, mas sem que ela veja, sua aprovação pelo jovem tê-la trazida para casa (“vamos lá, garanhão”, só faltou ele dizer). Em seguida, todo o processo de audição que dá o título do filme é abordado de maneira jocosa apenas para esconder o quão absurdo o conceito é.

Ah, mas as atitudes de Shigeharu não são violentas e ele realmente parece gostar (amar?) de Asami! Sim, claro, sem dúvida. Mas o machismo e a misoginia não existem apenas quando o homem bate na mulher ou faz algo fisicamente pior. O lado psicológico das “pequenas atitudes” do cotidiano que ninguém – talvez nem mesmo as mulheres percebam (mas percebem sim!) – vai minando, vai criando um ambiente em que elas são a regra, são o status quo, são o establishment. Querem ir além? Que “tipo” de mulher Shigeharu quer, mesmo antes de se deparar com Asami? Bem mais jovem, esguia e bela, claro, mas sobretudo submissa e Asami é o exemplo máximo da submissão japonesa, com voz baixa, cabeça baixa, olhar que quase nunca se levanta para ver seu interlocutor.

É, aliás, em razão da perfeição de Asami – Eihi Shiina está impressionante em seu papel transformativo – que o espectador vai muito aos poucos, na queima muito lenta que este longa tem, desconfiando que há algo errado e que essa “história de amor” não parece algo que seguirá um caminho normal. E, realmente, não segue, mas quando chegamos finalmente ao clímax, lá na famosa meia hora final, reparamos – em retrospecto, como disse – o tamanho da importância do desenvolvimento compassado anterior. Era essencial que o espectador fosse exposto com a maior normalidade possível ao cotidiano de Shigeharu, o que inclui ser idolatrado, sem sequer notar, por sua assistente e ser tratado com um paxá por sua empregada doméstica e era essencial que Asami, alta, de cabelos longos pretos e muito lisos, nos mantivesse incomodados, exatamente o que Yasuhisa sente e avisa ao amigo.

Quando a sequência final vem, ela tira o tapete debaixo do espectador com sagacidade e com um bom grau de elementos gráficos, mas não tanto quanto talvez pudéssemos esperar de Miike exatamente porque, mesmo ele querendo chocar, ele não quer quebrar a atmosfera quase ritualística do que ele construiu antes. Inclusive, é de notar que venho dizendo que a sequência final tem 30 minutos, ou seja, não é algo instantâneo que existe quase que de maneira autossuficiente. Ao contrário, ele é construído com a mesma calma que todo o restante o é, com incrementos pequenos de estranheza.

SPOILERS!

A calma e tranquilidade com que Asami prepara seu ritual de tortura e mutilação, algo que começa bem antes do início da sequência propriamente dita, é o detalhe chocante que termina de prender a atenção do espectador até o ponto em que ele não mais consegue olhar para a tela tamanha é a sugestão do que a jovem está fazendo com sua vítima. Alguns podem arguir que Shigeharu não merecia esse tratamento, que ele não fez por onde. Mas Asami não está se vingando dele, mas sim dos homens, mas sim do que ela passou na vida, mesmo que muita coisa que ela tenha contado ao seu “amante” não seja 100% verdadeiro (há espaço para essa dúvida).

Só que o mais importante do momento é a ressignificação do que vimos na uma hora e meia anterior. Logo quando Shigeharu cai no chão em razão da droga em seu uísque, Miike nos leva ao que pode ser uma visão dele – e, portanto, subjetiva e, mais ainda, não exatamente verdadeira – em que vemos as mesmas cenas de antes, do flerte, da corte com jantares e hotel, só que com outros diálogos, momentos que ou foram “cortados” ou que foram substituídos pelo que Shigeharu queria ouvir. Em outras palavras, aquilo que primeiro vemos e ouvimos parece ser a versão higienizada do que aconteceu, a versão “aprovada pelo homem”, digamos assim, ao passo que, quando revisitamos as sequências, notamos que o buraco é mais embaixo. Neste momento, ou Shigeharu está mesmo relembrando daquilo que elegeu esquecer porque não se conformava com sua visão de mundo, ou ele finalmente compreende quem exatamente ele é e o que ele fez, incluindo aí imaginar as mulheres que vimos gravitar em sua vida – e perturbadoramente incluindo a amiga de seu filho – como objetos fungíveis de seu dia-a-dia, como “mulheres” e não como pessoas.

FIM DOS SPOILERS!

Audição é um filme perturbador. Mas não em razão de sua inesperada sequência final ou de todas as estranhezas que se amontoam na meia hora imediatamente anterior. Audição causa estranhamento porque ele desnuda um cotidiano infelizmente muito comum, que vivemos sem sequer perceber, sem conseguir olhar de fora para dentro e percebermos que criamos algo tão confortável para o sexo masculino que é impossível sequer imaginar outra estrutura. Miike nos ajuda nesse olhar externo e usa a violência para nos sacudir e nos fazer ver aquilo que evitamos ver ou que, pior ainda, sabemos que existe, mas que nos recusamos a reconhecer e, claro, a trabalha na direção da mudança. Em outras palavras, Audição é um bem dado soco no estômago mesmo que façamos de tudo para não acusar o golpe.

Audição (Ôdishon/Audition – Japão, 1999)
Direção: Takashi Miike
Roteiro: Daisuke Tengan (baseado em romance de Ryû Murakami)
Elenco: Eihi Shiina, Ryo Ishibashi, Jun Kunimura, Tetsu Sawaki, Miyuki Matsuda, Toshie Negishi, Shigeru Saiki, Ken Mitsuishi, Ren Ohsugi, Renji Ishibashi
Duração: 115 min.

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