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Crítica | Ausência de Malícia (1981)

por Fernando Campos
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O jornalismo bem praticado tem o poder de abrir os olhos da população e mudar a sociedade, ainda que essa visão soe cada vez mais romântica. O cinema em diversas oportunidades reproduziu trabalhos jornalísticos históricos, como em Spotlight, The Post e, no exemplo mais conhecido, Todos Os Homens do Presidente. Além disso, o cinema pode servir como ferramenta do próprio jornalismo, como ocorre no excelente Citizenfour

No entanto, seria ingênuo imaginar a área apenas como um instrumento positivo. A realidade mostra que a veiculação de notícias pode servir para a criação de fake news ou para reforçar narrativas de poderosos. O cinema também já abordou isso, como em Rede de Intrigas. Nessa linha, o diretor Sydney Pollack produziu Ausência de Malícia, funcionando como um lembrete de quais os resultados de um jornalismo ruim.

O filme foca na repórter Megan Carter (Sally Field), que ao se deparar com uma informação vazada pelo policial Elliot Rosen (Bob Balaban), vê uma oportunidade de crescer no jornal que trabalha, mesmo sem checar a veracidade das provas. A vítima do vazamento e da reportagem é o atacadista de bebida Michael Gallagher (Paul Newman), filho de um mafioso, que passa a ser acusado de homicídio. A partir daí, Gallagher traça um plano para provar sua inocência e denunciar a injustiça cometida contra ele pela imprensa e pelo FBI.

De cara, Pollack evidencia o tom crítico da obra. Nos créditos iniciais, vemos o processo de produção de um jornal de maneira fria, com takes dos maquinários que imprimem os impressos, criando a sensação de que a produção jornalística nada mais é do que um produto. Combinando com isso, o primeiro ato de Ausência de Malícia mostra como o jornalismo, pela demanda e modelo de atuação, age de forma a desumanizar quem retrata, como vemos na história de Gallhager, que recebe uma fama ruim injustamente, e de Teresa, que possui a privacidade invadida de forma covarde. 

Diante disso e da proposta inicial da película, é interessante a escolha de Pollack de colocar como condutora da narrativa a repórter Megan, visto que ela é a responsável por parte dessas injustiças, ainda que involuntariamente. Ao contrário de filmes citados anteriormente, aqui, assistir o trabalho da jornalista é revoltante pela falta de senso crítico da personagem, ou ausência de malícia, como o título do longa sugere. Além de não ouvir as fontes de sua reportagem com o devido respeito, criando rótulos antes mesmo de terminar sua pauta, Megan comete o erro grave, mas infelizmente comum no jornalismo atual, de confiar cegamente nas fontes oficiais, no caso, no policial Elliot Rosen. Como já vimos ocorrer na realidade, a força tarefa policial utiliza da boa vontade da mídia para construir uma narrativa que favoreça sua versão dos fatos, preferindo manipular a opinião pública e construir popularidade em vez de apurar fatos com a devida imparcialidade.

Quando se atém à temática jornalística, explorando as relações entre repórter e fontes, a obra se sustenta de forma interessante, provocando reflexões. Contudo, a partir da metade, o roteiro perde fôlego ao investir em um romance entre Megan e Gallagher. Um erro duplo, visto que a opção não era necessária para humanizar os protagonistas e, ainda por cima, pouco acrescenta dramaticamente ou tematicamente. A escolha atrapalha até Paul Newman e Sally Field, visto que qualquer dualidade dos personagens acabam ficando de lado, sobrando para Newman incorporar o mocinho com senso de justiça, algo fácil para um ator do porte dele, e para Field resta interpretar uma pessoa esforçada, mas ingênua, algo que a atriz também desenvolve com precisão. Outra decisão equivocada foi o descaso do texto com a amizade entre Michael e Teresa, uma vez que o longa investe no desfecho da garota como ponto alto dramático, mas que perde força justamente pela personagem não ser aproveitada. 

Já a direção de Pollack mostra-se burocrática, com uso de vários planos médios, investindo em um tom documental, que pouco acrescenta dramaticamente, servindo apenas para criar realismo. Ainda se destaca-se negativamente a trilha sonora, soando inoportuna em cenas em importantes, por exemplo, aliviando a tensão em momentos que deveriam justamente impactar o público. Em contrapartida, a montagem acerta no ritmo e torna a experiência dinâmica.

Ao final, é prazeroso testemunhar a força tarefa de Rosen sendo punida pela forma criminosa que atuou, com direito a uma ótima atuação de Wilford Brimley no desfecho. Contudo, as escolhas de Pollack a partir de metade da obra soaram como uma tentativa de aliviar uma narrativa que tinha potencial para ser mais dramática e intensa, resultando em um romance entre os protagonistas inútil para a proposta inicial da película. Ainda assim, Ausência de Malícia pode ser uma experiência educativa, mostrando as consequências de um jornalismo ruim e os perigos de se confiar em fontes oficiais de forma cega. Às vezes, os vilões estão do lado que deveria promover a justiça.

Ausência de Malícia (Absence of Malice) – EUA, 1981
Direção: Sydney Pollack
Roteiro: Kurt Luedtke
Elenco: Paul Newman, Sally Field, Bob Balaban, Melinda Dillon, Luther Adler, Barry Primus, Josef Sommer, John Harkins, Wilford Brimley
Duração: 116 min

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