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Crítica | Ava (2020)

por Fernando JG
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Ainda que eu queira ser generoso com o filme, por geralmente gostar do propósito de tramas assim, não tem como sair em defesa de Ava (2020), mesmo que dirigido por Tate Taylor e protagonizado por Jessica Chastain (Grande Jogada, Histórias Cruzadas). Mais uma ação genérica no estilo norte-americano, o longa promete ser tudo aquilo que você provavelmente já deve ter assistido em enredos anteriores, como Kill Bill (2004) e Anna – O Perigo tem Nome (2019), mas de uma maneira preguiçosa. É muito evidente que o roteiro é uma versão ruim da tentativa de construir uma heroína, ou uma dessas mulheres fatais, cuja vida de espiã esconde uma vida pessoal dramática e problemática no pano de fundo. Mas o tiro saiu pela culatra, já que o filme tem o enredo arruinado pelo argumento, que não vale de muita coisa.

Ava é uma assassina profissional, ex militar, cuja rotina gira em torno de objetivos, que consistem em cumprir todas as missões dadas e ir atrás dos algozes, eliminando-os um por um. Depois de um erro em uma missão, Ava é considerada um perigo para o grupo, e então Simon (Collin Farrel), o chefe, decide apagá-la. A personagem, que atravessa uma dezena de peripécias na sua vida profissional, tem o outro lado da moeda, que é a sua vida pessoal. Enquanto isso, no drama escrito por Matthew Newton, ela tem de lutar contra o fantasma do alcoolismo, ao mesmo tempo em que busca se reconciliar com sua família, depois de sumir por oito anos sem dar notícias.

Com uma face mais humana, Tate Taylor tenta construir uma personagem que fosse fria e psicopata, mas também pela qual fôssemos cativados pelo seu lado mais humano. No entanto, o primeiro grande problema está aí: são dois enredos diferentes que precisam conversar entre si, o que não ocorre. A montagem do filme, bem como o argumento, não soube construir tramas que pudessem se cruzar de uma maneira verossimilhante. No filme, drama e ação estão completamente divididos, e as cenas de transição não existem, e, se existem, são problemáticas: ou só há ação ou só drama. Não há um meio termo, o que acaba dando um aspecto preguiçoso para o filme, que não se esforça em desenvolver os arcos narrativos de uma maneira menos rude e artificial. Um aluno de cinema não saber cruzar tramas e unidades estilísticas, e por isso falhar em cenas de transição, é aceitável. Um diretor não.

Ainda que o filme falhe por conta do artificialismo na mistura das tramas, ele contém uma série de erros básicos, que um simples conselho interno resolveria, e então fico pensando em quem está cometendo o erro: se o roteirista ou o diretor. O filme demonstra um certo cansaço no desenvolvimento quando decide trabalhar, com muita pressa, a vida dupla de uma mulher assassina, espiã. Os fatos são jogados. Por exemplo, na abertura dos créditos, a história já está sendo contada com as imagens, as mensagens, os documentos etc. Do mesmo modo, nos minutos seguintes, Ava desenvolve sua história num único momento: na reunião dos alcoólicos anônimos. O diretor utiliza os créditos e essa cena da reunião para contar a história da personagem e seus motivos. Assim, ele exclui qualquer possibilidade de construir essa história visual, com imagens, deixando apenas um relato em uma cena de poucos minutos. O que quero dizer é bastante simples: o roteiro é muito fraco para dar conta de uma história dupla. E acredito que ele teria se saído muito melhor ao focar ou só no drama, que parecia interessantíssimo, ou só na ação.

Já que os erros são muitos, não posso deixar de pensar na ação do filme, que também é um desacerto. Os primeiros 15 minutos parecem apontar para resoluções incríveis. A trilha faz a ambientação e casa muito bem com as cenas; Ava é uma personagem decidida, rápida e não hesita em atirar. Fria e calculista, a personagem aos poucos mostra suas camadas. Mas todo esse aspecto de agente secreta, espiã e assassina vai por água abaixo quando ela se torna a Mulher Maravilha. Ela, sozinha, enfrenta uma dezena de homens armados, com desvio de golpes e tiros à la Matrix (1999), gerando uma peripécia atrás da outra. Sua habilidade sobre-humana lembra um Michael Myers superpoderoso como um Nemesis, em Halloween 2 (2009), que foi a ruína do longa. Ela é um ser humano comum, mas aparenta ser uma máquina. E a justificativa de que ela treinou no exército não convence.

Ainda que seja um desses anti heróis, nada justifica os movimentos desmedidos, e a cena em que ela rouba as bombas dos policiais é totalmente inverossímil, sobretudo porque elas ficam encaixadas na roupa, e qualquer um perceberia um movimento brusco como foi o que se deu. A violência de Simon com ela é outro problema: Simon querer matar Ava por um motivo tão raso como esse, pela falha cometida, só demonstra que o roteiro não se compromete nem com a ação, nem com o público. Além disso, ao longo do filme, ela pouco se fere, já que consegue escapar absolutamente de tudo. O diretor abusa do conceito de Deus ex machina e fica tudo horroroso. É inacreditável que a protagonista de um filme de ação saia tantas vezes ilesa como se saiu. Se até a Beatrix Kiddo apanhou feito um saco de pancadas, por que Ava seria tão especial? 

Quando o filme acaba, fica um grande ponto de interrogação. A montagem é também problemática: O que acontece no final tem cara de começo. E quando o filme parece engrenar, ele acaba. Sem pé, nem cabeça. Certamente, seria muito melhor se uma série fosse produzida a partir desse material, mas ainda assim seria uma série ruim, caso os erros permanecessem. Salt (2010) e até mesmo Lucy (2014) conseguem ser superiores, e recomendo que vejam estes ao invés de Ava, que é uma perda de tempo, ou melhor, uma passagem de tempo para quem não tem nada melhor para fazer e assistir.  Mas caso queiram ver algo que realmente vale a pena, recomendo Nikita – Criada Para Matar (1990), dirigido pelo mestre Luc Besson, um nome sempre interessante dessa variação do noir

Ava é decepcionante. Com mania de grandeza na tentativa de construir uma super anti heroína, o longa de Tate Taylor falha em quase tudo, se salvando só pelo drama, que ainda dá uma discussão e ajuda o filme a não ganhar uma avaliação ainda pior. 

Ava (Estados Unidos, 2020)
Diretor: Tate Taylor
Roteiro: Matthew Joseph Newton
Elenco: Jessica Chastain, Colin Farrell, Geena Davis,Comum, John Malkovich, Christopher Domig, Joan Chen, Diana Silvers, Jess Weixler, Ioan Gruffudd, Joe Sobalo Jr,  Michel Muller
Duração: 97 min.

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