Home TVTemporadas Crítica | Avatar: A Lenda de Aang – Livro Três: Fogo

Crítica | Avatar: A Lenda de Aang – Livro Três: Fogo

por Kevin Rick
857 views (a partir de agosto de 2020)

A mente pura pode vencer todas as mentiras e ilusões sem se perder.

O coração puro pode resistir ao veneno do ódio sem ser envenenado.

Desde o começo dos tempos, a escuridão prospera no vácuo. Mas sempre cede à luz purificante.

Eu sempre tive essa ideia comigo de que a 2ª Temporada de Avatar: A Lenda de Aang era a melhor da animação, e, de certa forma, ainda vejo ela como a mais consistente e a mais divertida de revisitar pela maneira que a estrutura episódica ordinária foca inteiramente em seus personagens, e sem sombra de dúvidas mantenho minha opinião em relação à completa obra-prima que é o segundo livro, mas… a 3ª Temporada reivindicou meu pódio. Após a revisitação, todos os problemas que me lembrava, como o ritmo insosso ou o desfecho apressado, desapareceram completamente. Seria fácil eu declamar sobre as várias conclusões fenomenais de arcos, a redenção de Zuko, a superação de Aang e o fechamento de ciclo que o terceiro livro faz, só que minha abordagem será um tantinho diferente, pois, na minha concepção, o ano final da animação é sobre o fracasso.

O medo do fracasso sempre foi um assunto debatido no show em relação a todos os personagens, mas especialmente desenvolvido com Aang e Zuko, com o destino e a honra, respectivamente. E apesar dos vários deslizes e derrotas ao longo da jornada da dupla, o maior baque a seus temores acontece ao final da 2ª Temporada, com as consequências definindo o arco dos inimigos/amigos na narrativa do terceiro livro. Aang foi derrotado, ferido fisicamente e espiritualmente, e não está forte o bastante para enfrentar Ozai, enquanto Zuko destruiu a sua honra ao trair seu tio Iroh. Grande parte do medo que permeava os anos anteriores, e era mais transpassado simbolicamente, ganha o espaço definitivo em uma temporada completamente madura e objetiva em relação às inseguranças de seus personagens.

Isso é melhor visto na mudança de abordagem do roteiro com os diálogos, mais diretos e pragmáticos. A Praia, por exemplo, é um episódio inteiramente focado nas indecisões dos antagonistas da série, em uma sucessão de situações nas quais o grupo de Azula, Zuko, Ty Lee e Mai são postos em ambientes adolescentes normais, e falham miseravelmente em interações sociais, culminando na rígida e emocionante conversa da praia. Os Atores da Ilha Ember é outro episódio que busca o embate derrotista nos jovens, utilizando uma peça de teatro como exteriorização das falhas, vulnerabilidade e dúvidas dos personagens. O par de episódios da Rocha Fervente lida com o fracasso da liderança e inutilidade de Sokka; Pesadelos e Devaneios é um conto quase surreal na mente apavorada de Aang; A Manipuladora de Fantoches é uma fábula de horror às raízes de Katara; e, claro, O Dia do Eclipse é o fiasco épico do grupo na empreitada contra a Nação do Fogo.

Outra questão importante na temporada é a da moralidade. Isso é primeiramente desenvolvido com Katara em Os Atacantes do Sul, onde a personagem parte com Zuko à procura do soldado da Nação do Fogo que assassinou sua mãe, e é interessante como a personagem oferece misericórdia, mas não perdão. As coisas não são tão preto no branco como na atmosfera pueril de Aang, e o protagonista começa a “evoluir” seu medo de fracasso para a corrupção de seus princípios ao ser colocado em cheque na missão de assassinato do Senhor do Fogo Ozai. O dilema de Aang é simplesmente fantástico entre o seu eu-nômade do ar e o seu papel como Avatar.

Até aí, minha opinião em relação à terceira temporada estava no caminho esperado, e os meus (antigos) problemas com a trinca de episódios do Sozin’s Comet estavam chegando: o Deus Ex Machina da Tartaruga Leão e o final apressado. Ah, como estava errado. Todo o desenrolar filosófico com a Tartaruga Leão é completamente perfeito para o fechamento de arco de Aang, pois parte do Espiritual. Todas as questões intrínsecas da construção de mundo de Avatar que falo na crítica da 1ª Temporada são personificadas no discurso do início do texto e na dobra de energia do Aang. Ele não estava pronto para enfrentar Ozai, e mesmo se a série se estendesse para prover mais tempo de treinamento, o ponto-chave da vitória de Aang não é o físico, mas o de princípios.

Um final de temporada épico que puxa as temáticas espirituais desse Universo fantástico como resolução de um embate muito mais interessante no campo ideológico do que no corpo-a-corpo, como a animação sempre prezou. Uma temporada sobre os fracassos e inseguranças de uma classe de personagens em constante amadurecimento, ainda buscando respostas no finalzinho da série. Avatar: A Lenda de Aang marca uma geração e o gênero televisivo como umas das melhores obras sobre construção de mundo, caracterização e evolução temática. Uma obra-prima em todos os sentidos.

Avatar: A Lenda de Aang – Livro Três: Fogo (Avatar: The Last Airbender – Book Three: Fire, EUA, 2006)
Criado por: Michael Dante DiMartino, Bryan Konietzko
Direção: Lauren MacMullan, Giancarlo Volpe, Anthony Lioi, Ethan Spaulding
Roteiro: Michael Dante DiMartino, Bryan Konietzko, Nick Malis, Aaron Ehasz, Matthew Hubbard, John O’Bryan, Tim Hedrick, Ian Wilcox, Elizabeth Welch Ehasz, Joshua Hamilton
Elenco: Zach Tyler, Mae Whitman, Jack De Sena, Dee Bradley Baker, Dante Basco, Mako, André Sogliuzzo, Mark Hamill, Greg Baldwin, James Garrett, Michaela Jill Murphy, Grey Griffin, Cricket Leigh, Olivia Hack, Clancy Brown
Duração: 529 min. (21 episódios)

Você Também pode curtir

14 comentários

Fabio Dal'Osto 2 de maio de 2021 - 23:07

Minha série favorita. E a terceira temporada é a melhor de todas, pra mim. Dá muito palco ao Zuko, que é o melhor e mais complexo personagem da série.

Responder
Kevin Rick 3 de maio de 2021 - 01:46

Uma das minhas favoritas também!

Responder
Luan Sousa 2 de maio de 2021 - 00:37

Avatar é, de fato, muito bom. Eu tenho alguns problemas com a terceira temporada, em especial porque a primeira metade tem um ritmo lento, porém depois do episódio da invasão à Nação do Fogo tudo toma um ritmo muito veloz (inclusive interessante notar, depois desse episódio do dia do Sol Negro a Nickelodeon fez uma maratona Avatar e todo dia até o último teve episódio saindo).

Enfim, dá pra ter várias interpretações sobre o tema da série, mas pra mim fala muito sobre empatia. O tio Iroh ensinando que a dobra de raio teve a técnica inspirada por dobradores de água e o próprio Avatar (que tem que aprender a lutar como dobradores de outras nações) pra mim são a prova disso. Principalmente a relação Aang e Zuko e totalmente calcada na empatia.

Além disso vale atenção pra dois episódios muito bons. Aquele em que o Aang e o Zuko conhecem aquele pessoal que é ancestral dos dobradores de fogo (a cena da dança com dragões é linda). Além desse o episódio dos atores da Ilha Ember, que utiliza do conceito de episódio de recapitulação pra fazer piadas com muita coisa, é sensacional. A piada com a relação Katara-Zuko (que não existe oficialmente, mas muitos fãs torciam por eles) é hilária.

Enfim Avatar é muito bom, eu até comecei Korra recentemente, mas os primeiros episódios não me fisgaram. Vamos ver como vai ser o resto.

Responder
Kevin Rick 3 de maio de 2021 - 01:46

Como eu disse, eu tinha essa mesma impressão negativa sua, mas a revisitação mudou completamente minha opinião. E sobre as interpretações, não poderia concordar mais. Eu mesmo tenho várias visões da obra, mas decidi focar mais no fracasso aqui, por realmente ser o elemento que me conquistou ao rever a série. Um show com um leque gigantesco de temas! Sobre Korra, vou iniciar minha segunda jornada com a personagem. Vamos ver o que rola hehehe

Responder
Doc Zumbério 1 de maio de 2021 - 21:55

Eu engraçado a dublagem de avatar,na primeira e segunda temporada tinha vários dubladores que repetiam de voz. O falecido Pietro Mario dublou todos(Sqn) os personagens idosos nas duas primeiras temporadas,aí quando avatar na terceira temporada foi pro estúdio “Som de Vera Cruz”houve menos repetição de vozes.

Responder
Kevin Rick 3 de maio de 2021 - 01:42

Que interessante. Me lembro de ver dublado apenas quando era criança, então não sabia disso. Boa curiosidade!

Responder
Starr-Lord 1 de maio de 2021 - 20:52

Kevin, meu caro, eu quando abri o site e vi o Livro Três fiquei bastante feliz, mas também pensando que sentirei falta de fazer um textão falando do Zuko. Tecnicamente, foi a primeira conclusão de suas críticas envolvendo obras que gosto muito, algum dia vem a de Invencível e, tomara, de One Piece. Minha curiosidade para ver a sua visão do fracasso ao ler de primeira foi enorme, pois sempre vi essa parte da história como o ponto final para o crescimento dos personagens. Aang finalmente aceitando o título de Avatar, Katara superando a sua mãe, Sokka se consolidando como um líder, Toph em uma família que deixa ela agir como si mesma e não a julga nos raros momentos de vulnerabilidade dela e, claro, o príncipe finalmente entendendo a honra. Isso do fracasso faz muito sentido, como você mesmo colocou, o jovem Avatar e o jovem dobrador de fogo começam, talvez, em seus pontos mais baixos e acompanhar eles chegando no ponto alto é sensacional e, o mais importante, orgânico e real.

Alguns episódios acabam servindo mais como “filler”, mas vejo muitos como uma contribuição a algo do rico mundo. O da espada estabelece o quão importante é o Sokka para a gaang. Já os da escola e o dos atores mostram muito da doutrinação da Nação do Fogo. Eu tenho alguns amigos apaixonados pelo episódio da praia e, apesar de não morrer de amores, eu gosto e vejo sua importância em mostrar o quão disfuncional é a Azula em tudo o que não é relacionado a guerra e o quão forte está a angústia do irmão dela em ter tomado a decisão, pois, ao invés de resolver todos os seus problemas, o deixou caído.

Como essa parte fala diretamente de dois eventos importantes, tem dois fatores envolvendo o Aang espetaculares. O primeiro é com a revelação da fuga do Ozai, a qual faz total sentido, e realmente gosto de como o foco é mais na angústia dele por saber que terá que lidar com mais dias de nervosismo, pois o garoto só quer ser uma criança e a maior oportunidade dele de acabar com a guerra foi perdida. Por último, eu admiro como o roteiro se acomoda aos personagens e não o contrário. Seria muito fácil colocar o dobrador de ar como alguém que não quer matar, mas, na necessidade, acaba matando uma pessoa ruim. Não foi o caso, felizmente, a preocupação dele em neutralizar apenas o Senhor do Fogo é estabelecida, até porque o ato de matar iria contra toda a filosofia de vida dos monges e eu acho isso fenomenal.

Cara, com base nos meus comentários, você já deve imaginar. Eu tentei evitar, mas não consigo, é um dos meus personagens favoritos de todos os tempos e assumo a tarefa de declamar o Zuko, até porque o real desafio é ser objetivo sobre ele e, spoiler, não vou conseguir. Simplesmente perfeito. Já vi gente falando que esse parentesco do garoto com uma antiga encarnação do Avatar é uma conveniência e deveria ter sido dito antes, mas a questão é: não adiantaria, ele não estava em dúvida e, quando foi dito, ele estava. Faz sentido quando se olha que muito dos temas discutidos por meio do personagem abordam a dualidade. A animação tem vários momentos épicos, mas o Zuko jogando o raio do pai de volta é, pra mim, o momento mais épico e, também, o mais lindo. Diz tanto sobre o personagem, pois foi uma lição ensinada pelo tio Iroh, o real pai do príncipe, que salva a sua vida literalmente e metaforicamente, pois a angústia nele estava ainda maior que no começo e após esse simples momento, o garoto começa a se empenhar genuinamente para corrigir os seus erros com a gaang. E mesmo assim, ele ainda comete seus erros, como aconteceu com a Toph e gosto muito disso. A cena do seu perdão com o Iroh é belíssima, pois é o tio quem dava o amor incondicional necessário para ele e eu ainda não vi uma história que aquece tanto o meu coração quanto essa.

Ótima crítica, Kevin, tanto dessa temporada, ou melhor, desse livro, como dos outros dois. Muito obrigado mesmo por me lembrar de vários momentos quando assisti pela primeira vez. Foi uma jornada incrível!

Responder
Kevin Rick 3 de maio de 2021 - 01:40

Sempre incrível ein, meu amigo?! Concordo absolutamente com tudo o que você diz, e é bacana demais como nossa experiência com o show é parecida. Adoro suas visões do arco do Zuko, e fica bastante claro como é um personagem especial para ti. Também amo ele, e está no meu panteão pessoal de melhores arcos que já vi. E sobre o que você diz do Aang, é exatamente minha visão, sabe? Uma resolução a partir dos princípios do personagem e a filosofia de vida a qual cresceu. Lindo demais!!

P.S.: Estou super atrasado nos textos das HQ’s de Invencível e One Piece, mas vai rolar! Como sempre, um grande abraço e obrigado por sempre comentar sobre sua experiência nestes universos que ambos amamos.

Responder
Starr-Lord 3 de maio de 2021 - 13:51

Realmente, agora é ver se a experiência é parecida em Korra, pois essa já é mais controversa. Particularmente, tenho uma relação de amor e um “meh” para algumas decisões criativas, mas desenvolvo isso melhor quando saírem as críticas dos próximos livros. E te entendo no atraso, preciso terminar de ver a adaptação de Invencível. Por sinal, fiquei bem feliz que a animação foi renovada por mais duas temporadas. Até a próxima crítica!

Responder
Peter 1 de maio de 2021 - 17:06

Livro Três é maravilhoso com episódios bem épicos. A luta final é uma das melhores das animações.

Vou ficar no aguardo desse site sobre a crítica de Korra. Apesar de ter assistido, eu não sei se gostei ou não, gostaria de mais opiniões, em especial desse site.

Responder
Flavio Batista Dos Santos 2 de maio de 2021 - 02:03

Tenho a mesmissima opinião (ou nao tenho) sobre Korra rsrs
Se eu disse q não curti a jornada estarei mentindo. Mas acho q o roteiro perdeu tempo com coisas apenas para surfar em certas ondas e não pq realmente eram necessárias a trama ou até mesmo aos personagens.

Responder
Kevin Rick 3 de maio de 2021 - 01:31

Logo logo sai as de Korra, e de tudo mais nesse Universo maravilhoso. Preciso rever, mas minha experiência inicial é mais ou menos como você descreve, eu gostava mas com um sentimento estranho. Vamos ver o que sai da revisitação hehehe Obrigado pelo comentário!

Responder
Vitor Guerra 1 de maio de 2021 - 03:45

Minha temporada favorita, desde criança. Onde eleva ao podio de epico todos os arcos de personagens que estava construindo até aqui principalmente de Aang e Zuko como você bem apontou na critica.
E os pequenos arcos que ele constroi são impecaveis: dia do sol negro, as viagens de descobertas com Zuko e finalemnte da luta final contra Ozai uma luta que estavamos esperando desde o livro 1 e caraca e eu lembro que assistir isso foi um dos momentos mais catarticos da minha infancia.
Ótima critica Kevin foi legal revisistar essa serie com você.

Responder
Kevin Rick 3 de maio de 2021 - 01:29

Obrigado, meu caro! Revisitar esse Universo é sempre uma experiência sensacional. Também conheci Avatar quando era criança, então entendo perfeitamente esse carinho que você descreve. Uma série pra ficar no coração.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais