Crítica | Avenue 5 – 1ª Temporada

O espaço é frio, capitão.

O escocês de pais italianos Armando Iannucci começou sua carreira no mundo do entretenimento na BBC, trabalhando em diversas produções televisivas e radiofônicas. Já com sua carreira bem fincada em solo firme, ele ganhou notoriedade com a sensacional sátira política The Thick of It, estrelando Peter Capaldi e que depois ganharia até um longa-metragem, Conversa Truncada, dirigido pelo próprio Iannucci. Atravessando o oceano, ele criou Veep para a HBO, ficando à frente do programa por cinco bem-sucedidas temporadas, além de co-escrever e dirigir o sensacional A Morte de Stalin em 2017, de volta à Inglaterra.

Esse breve resumo de sua carreira é apenas um indicador de que seu nome é suficiente para atrair a atenção dos espectadores e isso é particularmente verdadeiro no caso de Avenue 5, sua nova empreitada produzida pela HBO, já que a série é bem diferente daquilo que costumeiramente Iannucci faz. No lugar de sátiras políticas, sua grande especialidade, o showrunner partiu para a ficção científica como pano de fundo para ele abordar, com muito humor, um recorte da sociedade moderna.

A premissa é muito simples: um luxuoso cruzeiro espacial de algumas semanas sofre um acidente que o retira de seu curso normal, ampliando a estimativa de retorno para mais de três anos. Está instalado o completo caos em espaço confinado que coloca à prova a humanidade de todos ali. Mas Iannucci não se preocupa em criar personagens realistas ou colocar o lado sci-fi da história em primeiro plano. Ao contrário, o que vemos desfilar diante das telas poderia acontecer em qualquer outro lugar (um prédio em chamas como em Inferno na Torre, um navio afundando como em O Destino do Poseidon e assim por diante), mas as pessoas que populam a gigantesca nave cujo nome batiza a série são meramente arquétipos que somente funcionam de verdade porque a escolha do elenco foi inspiradíssima.

No comando da nave, temos o capitão Ryan Clark, vivido pelo eterno Dr. House, Hugh Laurie, que não passa de um fanfarrão empregado do magnata Herman Judd (Josh Gad), um completo incompetente ganancioso. Circulando ao redor dos dois, há a passageira encrenqueira Karen Kelly (Rebecca Front), o relações públicas niilista Matt Spencer (Zach Woods), a assistente caninamente obediente de Judd, Iris Kimura (Suzy Nakamura) e a inteligente engenheira Billie McEvoy (Lenora Crichlow), somente para citar os principais. Com exceção de Billie, todos os demais personagens, inclusive aqueles não citados aqui, tem uma importante característica em comum: são desagradáveis até a raiz do cabelo.

Iannucci nunca teve medo de colocar no centro dos holofotes personagens impossíveis de se conectarem com os espectadores, mas, aqui, ele coloca sua galeria inteira de personagens nessa categoria, cada um de seu próprio jeito, seja por um ser individualista, o outro esnobe e aquele outro simplesmente chato e cansativo. É como se Avenue 5 – a nave – fosse um repositório do pior que a humanidade tem a oferecer, com foco, claro, nas lideranças e o quanto elas estão desconectadas com seus liderados. Por isso eu mencionei que só a seleção eficiente do elenco torna a navegação pelos capítulos algo prazeroso de se ver, particularmente os trabalhos de Laurie, aqui uma versão light de seu clássico médico emburrado, e Gad em uma versão, digamos, malignamente inspirada de seu LeFou, em A Bela e a Fera.

Os momentos cômicos transitam entre ótimos e hilários acertos que são repetidos ad nauseam com pequenas variações como as gags envolvendo tudo aquilo que acaba orbitando a nave, o bom e o moderadamente bom, como a franqueza desconcertante de Matt, o completo descaso de Judd, a “bateção” de cabeça de Clark (com direito a olhos rolando o tempo todo por parte de Billie) e a encheção de saco de Karen, além do humorista sem graça Jordan Hatwal (Himesh Patel) e o que simplesmente não funciona, ou seja, basicamente todo o cansado núcleo na Terra que tem Rav Mulcair (Nikki Amuka-Bird), controladora da missão, na linha de frente e que só parece existir em razão do cliffhanger.

Mesmo com os problemas, o que não faltam são risadas se o espectador entrar no espírito dessa comédia que tem o egoísmo, o descaso, a ambição e a incompetência como seus elementos qualificadores no que certamente é uma visão pessimista de Iannucci, mas que está longe de ser irreal. Avenue 5 talvez incomode mais por desnudar justamente esses aspectos, fazendo-nos não exatamente nos conectarmos com seus personagens (pois não dá, vão por mim), mas sim – e muito pior – nos vermos neles de uma maneira ou de outra, como em um espelho que só mostra aquilo que não queremos ver.

Mas, mesmo quem não quiser mergulhar a essa profundidade encontrará divertimento nessa bolha de podridão que flutua no espaço sem poder voltar para a Terra. Avenue 5, já renovada para a segunda temporada, é mais um acerto de Iannucci, desta vez bem fora de sua zona de conforto.

Avenue 5 – 1ª Temporada (EUA, 19 de janeiro a 15 de março de 2020)
Criação e showrunner: Armando Iannucci
Direção: Armando Iannucci, Natalie Bailey, Annie Griffin, Peter Fellows, Becky Martin, David Schneider, William Stefan Smith
Roteiro: Armando Iannucci, Simon Blackwell, Tony Roche, Georgia Pritchett, Will Smith, Peter Fellows, Ian Martin, Peter Baynham, Jon Brown, Charlie Cooper, Daisy Cooper, Sean Gray
Elenco: Hugh Laurie, Josh Gad, Zach Woods, Rebecca Front, Suzy Nakamura, Lenora Crichlow, Nikki Amuka-Bird, Ethan Phillips, Himesh Patel
Duração: 267 min. (nove episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.