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Crítica | Avião Foguete X-15

por Ritter Fan
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Quando o diretor original de Avião Foguete X-15 abandonou a produção com ela já a pleno vapor, a salvação foi um então desconhecido Richard D. Donner (que, não muito tempo antes, assinava como R.D. Donner) que havia conseguido um trabalho de assistente de direção em obra cinematográfica, com um currículo composto, apenas, de trabalhos na televisão. Em três semanas de trabalho intenso, o jovem Donner, de então apenas 30 anos, completou as filmagens de um elenco composto por David McLean, Charles Bronson, Ralph Taeger, além de Mary Tyler Moore no primeiro longa em que foi creditada, no mesmo ano em que estouraria em The Dick Van Dyke Show.

Foi uma estreia no sufoco do cineasta que, 15 anos depois, traumatizaria o mundo com A Profecia e que, em 1978, provaria de uma vez por todas que o homem podia sim voar, em uma carreira que transitou com facilidade entre gêneros e entregou clássicos imortais da Sétimas Arte. Avião Foguete X-15 é, porém, um longa estranho, bem estranho, pois ele tem absolutamente todos os predicados de um documentário, mas acaba não sendo um, ainda que, talvez, se fosse, seria melhor. Em outras palavras, é um longa de ficção que gostaria muito de ser um documentário e, por ficar entre uma coisa e outra, acaba não conseguindo mostrar verdadeira qualidade em nenhuma das duas pontas.

Trata-se da história híbrida dos pilotos, das famílias dos pilotos e também do avião-foguete X-15 que, seis anos depois, em 1967, pilotado por William J. Knight, bateria o recorde de velocidade de um avião tripulado alcançando a velocidade de Mach 6,70 e que até hoje não foi batido. O roteiro, que originalmente era para ter sido sobre o avião Bell X-2, construído para lidar com velocidades entre Mach 2 e Mach 3, foi alterado por sugestão da própria NASA que apostava forte no protótipo X-15, resultando em um texto de James Warner Bellah e Tony Lazzarino, este último tentando colocar o filme na lata desde 1958 juntamente com ninguém menos do que Bob Hope, que mais parece uma peça de propaganda de 107 minutos do que verdadeiramente um filme.

E, justamente por isso, a NASA e a Força Aérea americana colaboraram muito com a produção, franqueando as portas da famosa base aérea Edwards onde Chuck Yeager quebrou a barreira do som pilotando o Bell X-1 em 1947, fornecendo a oportunidade de filmagens inéditas com os aviões disponíveis, inclusive, claro, o X-15, e também filmagens da própria agência. O lado positivo disso tudo é que, com a oportunidade e material em mãos, Donner conseguiu costurar um filme muito realista. O lado negativo desse realismo, porém, é que Avião Foguete X-15 mostra o quão a realidade pode ser chata e repetitiva. Entre comunicações da base com os aviões repleta de jargões e sequências de voo belíssimas, mas unicamente utilitárias, sem criar qualquer tipo de tensão a não ser nas filmagens reais em que vemos um acidente terrível, tudo o que o filme faz é provar mesmo que deveria ter sido um documentário, especialmente quando a razão de aspecto das filmagens oficiais, mais quadrada, é esticada para “caber” na razão de aspecto escolhida por Donner (ou, mais provavelmente, pelo diretor original), um widescreen Cinemascope avantajado.

A presença dos atores – James Stewart fazendo a narração em off era de longe o mais conhecido, seguido de Bronson em razão especialmente de seu papel em Sete Homens e um Destino – é quase que algo pensado como um detalhe para “decorar” o ambiente. O roteiro de Bellah e Lazzarino é mais do que completamente inábil em fazer o mínimo para dar estofo a seus personagens de forma que seja possível nos importamos por eles, até porque eles só começam mesmo a ter participação efetiva fora de aeronaves já com uma hora de projeção. Chega a ser impossível não comparar o trabalho da dupla aqui com o incrível roteiro de Os Eleitos, de 22 anos depois, que, em um mesmo ambiente e premissa semelhante, mostra como é que se faz para lidar com personagens desta natureza. Simplesmente não tinha como Donner ou qualquer outro diretor fazer desse limão uma limonada minimamente agradável no tocante a desenvolvimento de personagens, o que é mais prova ainda que esse filme seria melhor como um documentário, com os atores apenas reencenando determinadas situações-chave.

Aos muito aficionados por aviões e pela Corrida Espacial, há o que ser apreciado aqui em razão das sequências originais da NASA e também das que Donner capturou especialmente para o filme em voos especiais, sendo até possível perdoar quando há necessidade de se usar efeitos especiais, o que, aqui, significa literalmente desenhar o X-15 em sobreposição à película. Mas, como uma obra cinematográfica completa de ficção, Avião Foguete X-15 falha tremendamente e só tem mesmo como mérito ser o começo de uma grande carreira cinematográfica de um cineasta inesquecível.

Avião Foguete X-15 (X-15 – EUA, 1961)
Direção: Richard Donner
Roteiro: James Warner Bellah, Tony Lazzarino
Elenco: David McLean, Charles Bronson, Ralph Taeger, Brad Dexter, Kenneth Tobey, James Gregory, Mary Tyler Moore, Patricia Owens, Lisabeth Hush, Stanley Livingston, Lauren Gilbert, Phil Dean, Chuck Stanford, Patty McDonald, James Stewart
Duração: 107 min.

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