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Crítica | Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou

por Rodrigo Pereira
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Sabe quando nos sentamos no sofá e alguma pessoa, geralmente um familiar mais velho, traz álbuns fotográficos de diversos tamanhos e lotados de fotos para contar a história de variadas pessoas? Amigos, conhecidos, colegas, gente que participou das mais distintas maneiras na vida de alguma pessoa? É como se fôssemos convidados para uma viagem ao passado, pulando de uma época para outra sem muita cerimônia e pouco importados com a cronologia dos acontecimentos. De certa forma, foi o que senti ao assistir Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou.

Dirigido por Bárbara Paz, o longa nos apresenta não só os detalhes da vida de Babenco, o cineasta, mas o íntimo de Hector, a pessoa, misturando as duas histórias justamente porque um não poderia existir sem o outro. Através de trechos de Pixote – A Lei do Mais Fraco, O Beijo da Mulher Aranha, Carandiru e outras de suas obras, adentramos os bastidores de suas filmagens e vemos a influência da profissão em sua vida pessoal. É de forma quase poética que percebemos como a relação do diretor com o cinema é o combustível maior de sua vida, o que junta seus acertos, erros, tristezas, alegrias, dúvidas, certezas e formavam quem era. Exemplo disso é a sequência sobre Brincando nos Campos do Senhor.

Enquanto vemos imagens das gravações do filme e da selva amazônica, Babenco narra como descobriu, no auge de seus 38 anos, um câncer em meio àquele momento. O diretor viaja para São Paulo na sexta-feira para operar e segunda-feira, com mais de 40 pontos na região da virilha, está de volta ao local da gravação. É a prova mais cabal do quanto ele precisava do cinema muito mais do que uma mera profissão, mas como o que lhe dava razão para continuar vivendo.

A construção da narrativa executada por Paz, que nos apresenta tão bem essa junção dos dois seres do protagonista, é magnífica não somente nesse momento. Ao mostrar a implosão de vários prédios, a diretora pontua como a descoberta da doença em uma idade que se julgava imbatível foi como se o mundo desmoronasse para Babenco. Assim como na sequência que o cineasta falava sobre não se sentir pertencente a lugar nenhum. Judeu, dizia que os brasileiros o consideravam argentino e os argentinos, brasileiro. Enquanto narra a dificuldade de lidar com o sentimento e o quanto isso o afetava, a câmera caminha por um parque completamente vazio, aparentemente sem nenhum tipo de atividade, marcando essa solidão presente em sua vida através tanto da nacionalidade quanto da religião.

Seu amor pelo cinema era tão forte que parece ter sido o responsável por chegar aos 70 anos, contrariando a medicina. As cenas em que o vemos debilitado e, mesmo assim, pensando e trabalhando com e pela arte são extremamente tocantes. É como se seu corpo, já velho e pronto para se entregar, seguisse em frente única e exclusivamente pelo amor e paixão do diretor, por não estar satisfeito e querer entregar mais e mais obras de arte. É ao final da película, inclusive, que Paz reforça essa vontade através de uma encenação da famosa sequência de Cantando  na Chuva, interpretada por ela mesma e dirigida por Babenco. O diálogo seguinte entre os dois, em que ela pergunta se era o que esperava como cena final de seu último filme e ele afirma que sim, é muito mais poderosa do que as palavras indicam.

É claro que é lindo ver a interação entre ambos após a cena, o carinho e o afeto visíveis e recíproco, não há como encarar tal sequência sem um sorriso de cumplicidade pela felicidade do casal. Percebam, porém, a força da cena. Babenco dirige a mulher que ama em uma reinterpretação de uma das mais famosas sequências da história do cinema. Paz é a atriz da aparente cena final do último filme do homem que ama. As mais diferentes formas de amor se juntam nesse momento e carregam um significado gigante, digno de uma carta de amor e despedida de alguém que amou e viveu muito, mas sabe que o final de sua jornada se aproxima.

Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou é uma belíssima viagem ao íntimo de um enorme diretor de cinema que, mesmo em meio a todos os percalços apresentados durante a vida, resistiu e seguiu em frente sempre guiado pelo amor. O cinema lhe deu sentido na vida e vivia por ele, assim como as pessoas que amava, pois lhe inspiravam a continuar construindo seu legado. Que bom seria se, como Babenco, todos nós pudéssemos partir sabendo que deixamos para trás amor e boas memórias para tantas pessoas.

Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou – Brasil, 2020
Direção: Bárbara Paz
Roteiro: Bárbara Paz, Maria Camargo
Elenco: Hector Babenco, Bárbara Paz, Willem Dafoe, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Regina Braga, Paulo José, Xuxa Lopes, Carmo Sodré, Fernanda Torres, Dráuzio Varella, Michael Wade
Duração: 75 min.

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