Crítica | Bad Boys Para Sempre

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Para uma franquia que ficou 17 anos congelada, seria estranho se Bad Boys Para Sempre não trouxesse o envelhecimento de seus protagonistas como eixo central de toda sua narrativa. Will Smith já não tem mais seus 27 anos — estando agora com 51 — e Martin Lawrence já não está mais com 30 — hoje, 54. Se as diferenças entre os detetives Mike e Marcus eram um tema recorrente nos dois filmes dirigidos por Michael Bay, ele parece voltar com muito mais força dessa vez. É um filme que dialoga constantemente entre passado e presente; jovialidade e velhice; responsabilidade e irresponsabilidade; entre o próprio cinema de Bay e um estilo de ação johnwickano.

Neste diálogo entre presente e passado, curioso notar até como os próprios estereótipos — que sempre estiveram presentes na franquia — sofrem uma atualização de acordo com o contexto político do presente. Não mais são os “vilões” cubanos de Os Bad Boys II, mas, obviamente, os mexicanos, pensando na era Trumpista, semelhantemente com o que aconteceu em Rambo: Até o Fim. Na trama, a fugitiva Isabel Aretas (Kate del Castillo) e seu filho, Armando (Jacob Scipio), buscam vingança contra todos aqueles que botaram o patriarca da família na cadeia, sendo Mike um deles. 

Todavia, as similaridades com Rambo acabam por aqui, porque, diferentemente deste, o longa é muito mais autoconsciente de sua caricatura, a ponto de abraçar totalmente todos os estereótipos que se pode esperar quando latinos são mostrados em filmes. Ele basicamente se assume como novela mexicana por conta do rumo que a história segue, mas que não me cabe aqui entrar em maiores detalhes para não dar spoilers. Inclusive, isso fica claro quando uma cena brinca com Marcus e sua família assistindo uma dessas novelas no celular. O diferencial aqui é justamente porque o roteiro acha uma função para a existência disso tudo, não apenas existindo apenas para reforçar paradigmas antigos. 

Por exemplo, há um subtexto envolvendo Isabel e o misticismo (seu apelido é Lá Bruja), já que a personagem possui uma forte ligação de louvor com a morte. E é justamente esse um dos principais temas de Bad Boys Para Sempre. O filme inteiro funciona como uma grande lição para o personagem de Will Smith, que cada vez mais vai entendendo que ele não é mais o policial sedutor e imortal de antes. Mais do que isso, pois Mike representa todo um estereótipo de policial que hoje já parece desatualizado. Representando o modelo “atire antes e pergunte depois”, seus métodos vão sendo o tempo todo questionados por Mike, que adota uma postura cada vez mais autocrítica durante o longa. 

Neste sentido, há até uma semelhança com Projeto Gemini, outro longa que Will Smith estrelou recentemente e também reflete sobre os mesmos tópicos. Afinal, aqui ele também é colocado para enfrentar um vilão que poderia ser um reflexo de si mesmo, quase que um espelho. Armando Aretas é tão brutal quanto Mike foi e, ao estabelecer um enfoque nosso, o filme cria uma direta ligação entre herói e vilão, que funcionam quase como dois lados de uma mesma moeda.

Sem perder a veia cômica que consagrou a dinâmica Smith e Lawrence, este talvez seja o episódio mais cômico da franquia, principalmente por Mike estar cada vez mais entregue ao ridículo, mas que encaixa perfeitamente com o que seu personagem pede. Contrariamente a sua dupla, Marcus já aceitou completamente sua condição de aposentado e de avô, literalmente. E não é só Marcus que vai criando tal antagonismo saudável, uma vez que Mike também precisa lidar com Rafe (Charles Melton) e Dorn (Alexander Ludwig), jovens policiais que ficam chamando ele de tiozão e representam tudo aquilo que ela era no passado.

Seguindo esse choque de gerações entre o elenco secundário e a dupla principal, percebe-se que a própria direção de Adil El Arbi e Bilall Fallah transitam entre uma identidade própria e diversas reverências ao cinema de Bay. Por isso, temos tanto a presença do absurdo (vilões com bazucas em helicópteros) quanto uma dinâmica de ação muita mais voltada para uma estética da coreografia dos movimentos e pontos de vistas que muitas vezes nos transportam para visões de câmeras embutidas em coletes ou drones.

Por fim, Bad Boys Para Sempre é uma grata tentativa de atualizar a franquia criada por Bay para os tempos modernos, questionando algumas tradições antigas e respeitando outras, principalmente o companheirismo de Mike e Marcus. No fundo, trata-se de uma grande tentativa de dizer que envelhecer e assumir responsabilidades não é algo negativo.  

Bad Boys Para Sempre (Bad Boys For Life) – EUA, 2020
Direção: Adil El Arbi, Bilall Fallah
Roteiro: Chris Bremner, Peter Craig, Joe Carnahan
Elenco: Will Smith, Martin Lawrence, Vanessa Hudgens, Alexander Ludwig, Charles Melton, Paola Nuñez, Kate del Castillo, Nicky Jam, Joe Pantoliano, Jacob Scipio, Theresa Randle, DJ Khaled, Happy Anderson, Bianca Bethune, Dennis McDonald, Michael Bay
Duração: 124min.

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.