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Crítica | Bang Bang (1971)

por César Barzine
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No ensaio Marienbad Année Zéro, escrito para a Cahiers du Cinéma, André S. Labarthe estabelece a distinção entre cinema clássico e cinema moderno, onde é apresentado a questão das “lacunas”, sendo elas o centro da separação entre esses dois tipos de abordagem. O cinema clássico possui uma narrativa transparente, que se apresenta de modo completo ao espectador, entregando a obra de bandeja. Ao público, resta apenas contemplar a história em seu desenvolvimento explícito, se mantendo na inércia do olhar. Já no cinema moderno há a presença do inexistente, o autor se comunica de maneira abstrata, criando espaços vagos na narrativa. Esse vazio é formado pela sugestão que o fenômeno fílmico produz, abrindo a possibilidade de um novo fenômeno. Porém, esse novo fenômeno não está dentro do filme, mas será criado pelo espectador que o acompanha, fazendo com que as lacunas sejam preenchidas. Desta forma, o espectador se desloca de sua posição passiva e preenche os fragmentos do filme com o seu subjetivismo. Aquilo que não é mostrado na obra em si é criado na mente do espectador. O diretor constitui um trabalho a partir do “não mostrar”, o filme é uma nova dimensão movida pela dialética que faz com que o sujeito contribua na construção do objeto.

Deste modo, o cinema passa a se desenvolver pela descontinuidade, criando em seus buracos uma ligação íntima com o espectador. E essas lacunas são algo onipresente em Bang Bang, a manifestação do inexistente é o motor do filme, radicalizando o cinema moderno num nível transcendental, e tornando o seu conteúdo plástico como um elemento abstrato. Bang Bang é um conjunto de fragmentos jogados de maneira “arbitrária” aos olhos do espectador. Tudo neste filme é imprevisível, não existindo qualquer desenvolvimento linear e lógico. As cenas sem sentido operam numa fusão que, em um primeiro estado, recusa uma ligação entre elas. Não há uma unidade dentro do microcosmo do filme, sendo a desconexão entre os pedaços do longa justamente aquilo que irá criar a unidade dele em seu macrocosmo.

E essa desconexão é a unidade formada pelo preenchimento das lacunas, seu hermetismo torna a experiência de assisti-lo num engajamento que busca explorar uma exposição do próprio cinema. É a noção da história desta arte que completa as lacunas de Bang Bang. O trabalho de Andrea Tonacci não é feito para o espectador comum, mas para o cinéfilo, pois ele acolhe uma consciência histórica do cinema. É um filme que reflete sobre a sua condição como filme, mas também dialoga com o restante do cinema – com os outros filmes.

Temos um estudo da arte ao qual a própria obra está imersa, esse diálogo com o cinema num panorama geral se dá, paradoxalmente, por uma abordagem de negação da história do cinema. Muito se diz que Bang Bang subverte os padrões estéticos do cinema, mas não é só isso. Bang Bang também acaba subvertendo a história do cinema por si própria, além de suas técnicas. Trata-se de discursar sobre os filmes em si, e não apenas fazer da técnica deles a sua antitécnica. Tonacci absorve a história do cinema para despirocar com ela, expondo diversos gêneros e elementos presentes na sétima arte de maneira enxuta, seca e, acima de tudo, como sátira. O noir, os filmes de gângster, o western e o musical; Bang Bang mexe com o cinema americano por excelência, criado num sistema industrial. E toma todo esse classicismo e padronização como razão da subversão a esses estilos. Tonacci representa todos eles, mas sem a construção plástica e narrativa que o cinema comercial fez com que esses estilos tomassem posse.

Um filme musical, pelo imaginário cinéfilo, não é apenas um filme em que os personagens cantam, mas todo um conjunto que forma isso. Bang Bang despedaça esses conjuntos e pega a matéria-prima deles. E Tonacci trabalha apenas com esse material básico, produzindo todos esses conceitos numa exposição isolada (sem a contextualização narrativa) e em um profundo minimalismo (sem a construção visual). Há uma negação profunda do desenvolvimento, da contextualização e da continuidade. A história do cinema se inverte, fazendo da junção de diversos elementos espalhados a lógica de uma unidade que trata das diversas outras unidades do cinema. E essa unidade só se forma pelo preenchimento das lacunas; tanto o espectador quanto a história do cinema fazem o sentido de Bang Bang.

O filme de Tonacci atinge um patamar de profundidade em sua metalinguagem que só foi alcançado em Um Homem Com Uma Câmera, de Dziga Vertov. Cinema, público e obra se conectam de forma intensa nesta obra soviética, construindo um ensaio monumental das relações extrafilmes que o filme possui. Há algo parecido em Bang Bang, a observação do filme sobre si próprio se dá pela desordem que ele constitui. Toda aquela balbúrdia é uma manifestação autoconsciente do longa. Tonacci ao confrontar os padrões do cinema acaba discursando não apenas sobre os demais filmes, mas também sobre si mesmo. E como já dito, o longa consegue estender essa abordagem além dos padrões do cinema como técnica, atacando (e dialogando) com todo o conteúdo que o cinema possui em nosso imaginário.

Bang Bang busca subverter as fabulações que o cinema naturalmente conquistou. A estranheza e a sujeira em sincronia com o minimalismo desconstrói os famosos maneirismos da sétima arte. Tudo isso sendo movido pela exposição abrupta, pelo choque da descontinuidade que é traçada. A música da Century Studios (antiga Fox), um dos sons mais icônicos do cinema; o sujeito que surge num passe de mágica remetendo ao ilusionismo de Méliès; o outro cantando do nada como se estivesse em um musical; os tiros e as corridas de carros aludindo a uma obra de ação; o terreno árido e isolado como se fosse um cenário de western. Tudo isso retratado por saltos inesperados, descontextualizados em espaço e tempo, reformulando os conceitos do cinema por uma certa inexpressividade na forma em que eles são apresentados.

Na primeira cena do filme, dois homens andam de carro pelas ruas sem saberem aonde querem chegar. “Vá andando por aí”, diz um dos passageiros. Tanto o personagem quanto o filme não sabem para onde ir, resta apenas o caminho arbitrário sem destino. Esse passageiro e o motorista começam a brigar, são eles o conflito entre duas tendências do cinema, ou dois espectros políticos do Brasil no auge da Ditadura Militar. Mas o que há, com clareza, é mais caos. Assim como é caótico o som do motor do carro, que impede a compreensão dos diálogos entre os personagens. Porém, o único diálogo que importa mesmo é daquele barulho insuportável com o espectador. O som domina a cena, sufoca os personagens e o público, e já deixa claro a “precariedade” do filme, sendo um convite para uma viagem intensa.

É difícil dizer o que é uma cena e o que é uma sequência em Bang Bang. Pode-se considerar que a maioria das cenas são sequências por si próprias, tamanha é a distância entre um momento e outro. O filme acaba desconstruindo até mesmo essa gramática básica do cinema, formando quase que uma antologia. E em meio a tamanho desajuste, a câmera permanece estática, não se movendo quase nada. A decupagem busca um olhar total daquele ambiente. É como se o diretor fornecesse aquele longo espaço como possibilidade dos personagens expandirem a sua excentricidade. A inércia da câmera abre um lugar aberto para ser terra de ninguém.

E a frieza desse aspecto dos planos entra em contradição com a transcrição das cenas, o filme pula de uma parte para outra utilizando-se de fade-in, fade-out e um círculo que se fecha (como nos desenhos animados). É a fabulação do filme que busca romper com a fabulação do cinema. Uma leveza para um trabalho seco e sujo que acaba sendo um complemento para todo aquele deboche.

Há duas cenas de dança em Bang Bang, essas tais danças são a representação da corporalidade do trabalho de Tonacci. É seguir um instinto, um movimento novo à frente do pensamento estático. É trabalhar com a superfície do corpo, sem subjetivismo, sem ações complexas e sem motivações. Faz da dança um momento fugaz, assim como cada cena que foge do resto do filme, não há desenvolvimento e nem coerência.

Diante dessa extensa gama de unidades, o longa projeta as lacunas entre elas; cria o vazio e realiza um convite ao espectador. Este sistema isolado precisa ser preenchido, e o filme se completa pela consciência sobre outros filmes; faz da recusa um complemento. Bang Bang acaba sendo a negação do cinema como história e a afirmação dele como arte.

Bang Bang — (Brasil, 1971)
Direção: Andrea Tonacci
Roteiro: Andrea Tonacci
Elenco: Ezequias Marques, Thales Penna, Milton Gontijo, Jura Otero, Abrahão Farc, Luís Otávio Madureira Horta, Antonio Naddeo, Paulo César Peréio, José Aurélio Vieira
Duração: 85 minutos

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