Crítica | Banquete de Gelo & Fogo, de Chelsea Monroe-Cassel e Sariann Lehrer

A relação entre culinária e literatura é um espaço de trocas culturais enriquecedoras. No Brasil, as narrativas de Jorge Amado promoveram estudos sobre a presença dos hábitos alimentares entre os personagens de suas obras. O francês Marcel Proust deixou seu legado sobre a relação da humanidade com a memória e alguns estudiosos da área às vezes gostam de debater o assunto tendo como ponto de partida algumas considerações do escritor. No universo de Game of Thrones, geograficamente amplo e cheio de personagens, a culinária é uma temática constantemente presente, o que permitiu a existência do livro em questão, oriundo do universo apetitoso do escritor George Martin.

Quem assina a produção das receitas e os detalhes relacionados ao conteúdo da série é a dupla Chelsea Monroe-Cassel e Sariann Lelvier, entusiastas de Game of Thrones e especializadas em “comida”. Enquanto a primeira se interessou por gastronomia durante uma longa estadia na Turquia, a segunda cresceu numa fazenda da Nova Inglaterra e durante a sua trajetória estudou com afinco a história cultural inglesa, curiosidade que a fez reinventar constantemente pratos tradicionais, além do interesse por resgatar receitas já esquecidas pelos contemporâneos, algo demonstrado nas abordagens entre itens culinários e personagens oriundos do universo de George Martin. As responsáveis pelo projeto começaram os primeiros esboços culinários de Westeros na administração do blog gastronômico Estalagem da Encruzilhada, um portal repleto de reflexões culturais sobre o artístico ato de comer, juntamente com elementos de cunho histórico.

O grande trunfo da publicação é a união entre forma e conteúdo. Podemos ler e recriar o universo gastronômico da série por meio da cibercultura? Sim, claro. Whatsapp, Youtube, Facebook, Instagram, etc. Sites e redes sociais podem tranquilamente veicular todo o conteúdo, mas nada substitui o suporte livro impresso na veiculação das receitas deste trabalho que teve a benção do responsável pelo universo, George Martin, autor das Crônicas de Gelo e Fogo. Sob o projeto editorial de David Stevenson, adaptado de maneira competente pela brasileira Paola Nogueira, Banquete de Gelo & Fogo traz em suas 234 páginas as imagens e textos em perfeita simbiose. Traduzido por Luís Henrique Fonseca, o livro lançado em 2016 no Brasil traz na imagem da capa a foto da publicação original, assinada por Kristin Teig, uma imagem elegante e bastante atmosférica.

No prefácio, George Martin alega que não sabe cozinhar. Isso, entretanto, não o impede de elaborar um esquema imaginário para a sua série, tendo em vista as pesquisas e o seu background como leitor. Em suas observações elogiosas ao trabalho das autoras, o criador de Daenerys, Jon Snow, Tyrion Lannister, dentre outros, reforça que seu traquejo mesmo é elaborar pratos feitos com palavras, isto é, o uso de substantivos suculentos, verbos crocantes, pitadas generosas de advérbios e adjetivos para compor o tempero da escrita. Metáfora melhor não há. Depois do breve prefácio, as autoras fazem uma introdução com ramificações culturais e agradece aos vikings pelo hidromel, aos mesopotâmios pela cerveja e aos celtas pela sidra.

Comida e cultura são elementos indissociáveis. Cientes disso, as autoras também dedicam algum trecho para dissertar sobre o ato de comer e a memória, permeando posteriormente o livro com citações proustianas e dicas ritualísticas para a execução do banquete ao estilo Game of Thrones, algo que ultrapassa a linha dos condimentos e preparos no forno, indo em direção à mesa e seus talheres, decoração, bebidas e outros elementos que ajudam na construção da atmosfera adequada para a pessoa adentrar no universo em questão, haja vista a importância da experiência sensorial. Os objetos temáticos complementam o clima e dão um toque de exclusividade para o café/almoço ou jantar.

Toalhas vermelhas? Combinam bem com as sedas e itens dourados ao estilo Lannister, os poderosos de Porto Real. O tecido rústico funciona bem para os aventureiros da Patrulha do Norte. O linho grosso é ideal para o Norte, sendo as toalhas de cor cinza o material ideal para uma refeição Stark.  Ademais, folhas de outono, chifres e as frutas exóticas fornecerão a autenticidade do jantar, principalmente se preparados com uso demasiado de velas, material ideal para compor a iluminação do local, juntamente com os talheres rústicos, canecas de estanho e vidro soprado à mão.

Dentre os primeiros trechos, elas selecionam que “o grande salão de Winterfell estava coberto por uma névoa, pois pairava no ar o cheiro de carne assada e pão fresco”, para mais adiante, apontar que “as mesas inferiores estavam abarrotadas de cavaleiros, arqueiros e capitães mercenários cortando pedaços de pão preto para mergulhar no cozido de peixe”. Assim, untam as receitas com trechos culinários dos livros da série, numa operação metalinguística bem sucedida. A sopa de feijão com bacon é uma opção adequada para os habitantes da Muralha, pois são pessoas que vivem uma rotina úmida e congelante, sendo assim, configuram-se como os necessitados por refeições nutritivas e fartas. Aos habitantes do norte, as autoras ofertam cebola com molho, sopa fria de frutas, maçãs assadas, frango com mel e beterrabas na manteiga.

No Sul, o pão preto, a sopa de alho-poró, os cozidos de coelho e as peras cozidas fazem parte do esquema culinário local, juntamente com o coelho, um prato considerado rústico e autêntico. O sabor das peras, ofertadas com boa textura graças ao vinho que as acompanham, lembra aos degustadores o sabor aquecido das especiarias, algo tipicamente medieval. Para um banquete conectado ao clima de Porto Real, as autoras indicam pão de aveia, peixe frito, bolinho de milho, cenoura na manteiga, torta medieval de queijo com cebola, carne escura de pombo, bolinhos de limão, javali assado, pêssego com mel, etc.

Em Dorne, as limonadas doces dão o tom refrescante, sendo o pão chato uma receita tradicional e indicada, muito comum entre os turcos e que poderia ser parte integrante da dieta do local em questão. O pato com limão é outra opção. Na seara da excentricidade temos a cobra dornesa ao molho picante, alimento que lembra a linguiça seca, haja vista a sua magreza e densidade, carne que também lembra o frango, segundo alguns que já experimentaram. Por falar em exotismo, os gafanhotos também fazem parte do cardápio do Banquete de Gelo & Fogo, mas direcionado aos costumes da região Além do Mar Estreito. Conforme as observações das autoras, a alimentação com gafanhotos requer um trabalho psicológico antecipado, tamanha a estranheza para muitas pessoas ocidentais. Na composição dos pratos desta localidade, pede-se ainda a combinação doce e refrescante da folha de hortelã, tendo em vista dar energia aos ânimos do clima quente local.

Creio que maiores inserções sobre a série deixariam ao livro ainda mais interessante. Como apontado, há menções constantes ao universo dos personagens que ao longo de oito temporadas, caso façamos as relações exclusivamente pela produção da HBO, nos fizeram “arder de raiva” e “morrer de amor”. No entanto, haveria o risco de nos perdermos na seara das curiosidades e adentrar pela banalização de tantas publicações duvidosas que capitalizam em torno da produção para lançar guias, manuais e outras experiências literárias vinculadas ao cotidiano dos habitantes de Westeros. Belo em seu visual e coerente e coeso em seu conteúdo, o livro é uma produção para quem ama a leitura e a comida, tal como as autoras, os personagens e o criador do fantástico universo de intrigas, dragões, políticas de poder e outros elementos no limiar entre a fantasia e a realidade.

Banquete de Gelo & Fogo (A Feats of Ice & Fire/Estados Unidos, 2015)
Autor: Sariann Lehrer, Chelsea Monroe-Cassel
Editora no Brasil: Benvirá
Tradução: Luís Henrique Fonseca
Páginas: 234

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.