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Crítica | Banshee – 4ª Temporada

por Ritter Fan
618 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Mesmo com uma temporada final encurtada, o último ano de Banshee teve menos história do que o necessário para preenche-los, tendo que apelar para uma certa descaraterização do protagonista e, principalmente, a um elemento exógeno a tudo o que havia sido construído para conseguir “ocupar” a minutagem estabelecida. E o mais decepcionante é que já havia material de sobra para ser trabalhado pelos showrunners Jonathan Tropper e David Schickler sem que eles precisassem inventar moda.

Afinal, temos que lembrar que, quando a 3ª temporada acabou, além do cliffhanger relacionado com o sequestro de Job, havia ainda duas ricas linhas narrativas para serem trabalhadas: a irmandade nazista conectada a Kurt Bunker e, claro, as operações ilegais do vilão principal, Kai Proctor. No entanto, no lugar de investir pesadamente nessas vertentes sem trazer elementos “decorativos” para a temporada, a escolha foi a de criar uma salto temporal de quase dois anos de forma que o status quo da cidade pudesse ser alterado radicalmente, com Proctor como prefeito e Brock Lotus sedimentado como xerife. E esse nem seria o maior problema se a produção não tivesse sentido a necessidade de transformar o homem que assumiu o nome Lucas Hood em um fujão que do nada desistiu de procurar Job, passando a viver como um ermitão em um cabana de caça no meio do mato e inventado a existência de um serial killer satânico que, conforme somos levados a crer durante quase toda a duração da temporada (ou, pelo menos, quem caiu nesse truque barato e óbvio do roteiro), assassinara Rebecca Bowman.

É a morte dela, aliás, que serve de catalisadora para os eventos do ano final, já que a investigação leva Lotus a finalmente achar Hood todo barbado e alcoolizado, retirando o ex-xerife de sua auto-imposta reclusão. A principal razão para essa estrutura ter sido escolhida é permitir o uso de flashbacks que, aos poucos, vão preenchendo os anos que se passaram, algo que é estilisticamente muito bem executado, mas que exige que o espectador compre que Lucas Hood desiste de achar Job depois de sua primeira e fracassada tentativa. E, convenhamos, tudo – absolutamente tudo – o que aprendemos sobre o protagonista nas três temporadas anteriores simplesmente não permite que essa fuga da realidade que ele faz tenha cabimento ou seja algo que decorra naturalmente de sua personalidade. Um home que esperou pacientemente por 15 anos para reencontrar-se com sua amada não largaria seu melhor amigo e parceiro de longa data nas mãos de torturadores e assassinos mesmo que ele lá no fundo achasse de verdade que Job morrera. Esse é o primeiro grande problema da temporada.

O outro é o quanto o serial killer tirado da cartola é um elemento completamente estranho e exógeno a tudo o que foi apresentado até aqui. Sua existência – com direito a chifres implantados na testa, cultos satânicos no porão de casa e tudo mais – tem como única razão de ser a revelação “surpresa” de que Rebecca, na verdade, morrera pelas mãos do violento e obsessivo Clayton “Clay” Burton, braço direito de Proctor que morre de ciúmes do patrão. Tudo bem que é fácil – facílimo, mesmo – aceitar que ele seria capaz de algo assim, mas a questão é que a temporada dá voltas e mais voltas para “inteligentemente” desviar a atenção do espectador para algo tão banal como um assassino em série para, ato contínuo, “chocar” todo mundo com a grande revelação dos últimos minutos do último episódio.

Ah, mas tem mais elementos externos. Mais um agente do FBI entra na história, a agente especial Veronica Dawson (Eliza Dushku) que, apesar de interessante e bem construída como uma mulher perturbada por seu passado violento, existe em um vácuo narrativo, como se Hood precisasse de uma parceira e, claro de mais uma pessoa que sabe de seu segredo. Se espremermos, a presença de Dawson não afeta em nada o desenvolvimento da história e, portanto, poderia ser substituída muito facilmente por artifícios narrativos como telefonemas, pistas anônimas ou até mesmo as habilidades digitais de Job.

Falando em Job, seu retorno ao mundo dos vivos, por assim dizer, tinha todo o potencial para ser uma subtrama fascinante. Algo mais elaborado do que a caçada a Rabbit empreendida por Hood e Ana na 2ª temporada poderia ter sido facilmente construído de maneira a ocupar pelo menos metade da temporada, mas não. A saída mais fácil aconteceu, com uma notícia mágica que leva a um encontro mágico e uma troca de dinheiro por refém mágica que acaba em um morticínio mágico. Dois anos de tortura diária para tudo acabar em questão de segundos e sem que Hood tenha sequer um milionésimo de segundo de importância dentro dessa estrutura.

Não sei se preciso falar sobre Ana/Carrie tendo se transformado em uma vigilante à la Justiceiro durante o salto temporal da série, não é mesmo? Mesmo havendo uma centelha de fator cool nessa mudança na personagem, que decide “terminar o trabalho que o falecido marido começou” (o que é mentira, pois o marido nunca foi o grande Cruzado contra as injustiças na cidade), é difícil acreditar que ela também largou Job de lado para ficar esmurrando nazistas no tempo vago.

E o mais triste é que há diversos traços de muitas coisas boas. A conexão da irmandade de nazistas com Proctor, a luta contra eles por Carrie e Bunker, a própria busca por Job e o pareamento de Hood com a agente do FBI são boas ideias mal executadas, algo de que a temporada está realmente repleta, mais ainda do que as anteriores. Isso faz do ano final da série uma temporada melhor se comparada com as demais? Sim, mas por muito pouco, tão pouco que a quantidade de HALs aqui em cima é a mesma. Banshee acaba mostrando que a série é, na verdade, uma colagem de bons fiapos narrativos que não não chegam a ganhar, sequer uma vez, o desenvolvimento que mereciam.

Banshee – 4ª Temporada (EUA, 1º de abril a 20 de maio de 2016)
Criação: Jonathan Tropper, David Schickler
Direção: OC Madsen, Everardo Gout, Loni Peristere, Jonathan Tropper
Roteiro: Jonathan Tropper, Adam Targum, Liz Sagal, Chad Feehan
Elenco: Antony Starr, Ivana Miličević, Ulrich Thomsen, Frankie Faison, Hoon Lee, Matt Servitto, Ryann Shane, Lili Simmons, Matthew Rauch, Tom Pelphrey, Chris Coy, Eddie Cooper, Chaske Spencer, Dennis Flanagan, David Harbour, Casey LaBow, Eliza Dushku, Chance Kelly, Frederick Weller, Nestor Serrano, Ana Ayora
Duração:  480 min. aprox. (8 episódios)

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1 comentário

Jordison Francisco 29 de dezembro de 2020 - 15:27

Diversas coisas me deixam triste nessa temporada: O fato de ser a mais curta, o fato de ser a última, o fato dela não seguir exatamente o mesmo padrão que a série apresentou maravilhosamente bem ao longo das 3 temporadas anteriores, o fato de saber que muitas coisas nessa temporada poderiam ser mais exploradas.

Realmente o que mais me incomodou foi uma mudança brusca no estilo da série. Tudo aconteceu rápido demais. Parece que os produtores estavam com pressa para finalizar a história. Essa quarta temporada não é ruim, entendam, agora infelizmente comparada as outras fica devendo em alguns aspectos. Talvez o maior erro da série foi adicionar uma trama envolvendo um serial killer (como se já não bastasse uma tonelada de séries policiais e investigativas que já abordam isso a exaustão), enquanto eles poderiam perfeitamente não perder tempo com isso e chutar o balde, nos apresentando mais uma temporada visceral, com várias subtramas e coisas relevantes acontecendo ao mesmo tempo.

Essa historinha de serial-killer fodeu com a temporada. Ainda sim, Banshee é Banshee, ou seja, sinônimo de qualidade em todos os aspectos.

Série corajosa e visceral e que deveria ser muito mais conhecida. Essa série, juntamente com o excepcional Sons of Anarchy mereciam mais reconhecimento do grande público!! Espero que surjam mais séries do gênero com qualidade tão boa quanto!

Adeus Banshee! Saudades eternas!!!

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