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Crítica | Banzé na Rússia

por Ritter Fan
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Lembre-se do famoso provérbio russo: ‘Quanto mais fome, mais gostosa é a refeição’. Por outro lado, os franceses têm um provérbio: merde!
– Bender, Ostap

Apesar de razoavelmente desconhecido no lado de cá da ex-Cortina de Ferro, o romance satírico As Doze Cadeiras, escrito em 1928 por Ilya Ilf e Yevgeny Petrov, ambos ucranianos de Odessa, normalmente identificados como a entidade una “Ilf e Petrov”, já ganhou quase duas dezenas de adaptações audiovisuais, sem contar com outras mídias como o teatro e o rádio, com uma das cadeiras do título sendo até mesmo um monumento na cidade em que nasceram. Pode-se dizer, portanto, que Mel Brooks, ao produzir e lançar sua própria adaptação em 1970, ainda como apenas seu segundo longa na cadeira de diretor, acabou fazendo com que a obra ganhasse um público mais amplo e diverso, sem deixar de imprimir seu estilo bem peculiar de humor ao longa, claro.

Depois de sacolejar o mundo com seu Primavera para Hitler, o cineasta tomou gosto pela direção e viu no romance mencionado uma bela oportunidade de avançar em sua arte, desta vez desancando a Revolução Russa a partir de joias escondidas em um jogo de 12 cadeiras cuja existência é revelada por uma sogra moribunda a seu genro Ippolit Matveyevich Vorobyaninov (Ron Moody), além de confessada ao padre Fyodor (Dom DeLuise), o que desencadeia uma caçada pela União Soviética, com direito a todo o labirinto da burocracia e ineficiência do estado inchado e corrupto como obstáculo. O escracho e a incorreção política, como de hábito, imperam, ainda que Brooks não demonstre, aqui, as lâminas afiadas e ousadas de sua obra anterior ou a pegada mais ampla e inegavelmente mais engraçada da seguinte, outro banzé, aliás, só que no oeste.

É interessante ver como Banzé na Rússia progride como a proverbial montanha-russa, repleta de altos e baixos que acabam resultando em um filme um tanto quanto episódico e que não mergulha de verdade em todo o potencial satírico que poderia ter considerando o material fonte. O primeiro e talvez mais saliente problema do longa é que, mesmo tendo o cuidado de construir a lógica para a revelação do segredo para Ippolit e Fyodor, o ponto focal verdadeiro fica por conta de Ostap Bender, um terceiro personagem desconectado com o preâmbulo da senhora moribunda, vivido por um Frank Langella então com 32 anos e em apenas seu segundo longa-metragem. Apesar do então ainda inexperiente Langella não fazer feio com seu humor fino e cínico, bem diferente da pegada mais corporal de Moody e, principalmente, de DeLuise (além de Brooks, claro, que faz uma ponta), a questão é que seu Ostap cai de paraquedas na história, sem ganhar um mínimo de contexto que seja para além de ser o golpista criado cuidadosamente de forma que gostemos dele e mesmo considerando que o diálogo em que ele arranca de Ippolit o segredo das joias é sensacional.

Por outro lado, o que funciona bem é o que podemos chamar da “queda” de Ippolit. Afinal, ele nasceu na aristocracia, tendo seus títulos e propriedades arrancados durante a Revolução e vê nas joias da sogra a chance de se reerguer. Moody constrói seu personagem, inicialmente, como o típico nobre cheio de fleuma que jamais poderia se ver trabalhando junto com alguém tão “simplório” quanto Ostap, mas que simplesmente não tem alternativa. Sua jornada é de longe a mais interessante, com o ator transformando a fleuma de Ippolit em obsessão e, em seguida, em loucura, um caminho que representa bem a decadência da aristocracia.

Dom DeLuise, por seu turno, ganha um personagem sem nuanças e que só existe para fazer piadas corporais, cheia de caras, bocas e gritos histéricos que mais preenchem o espaço narrativo com bobagens pouco engraçadas do que realmente avança a história de maneira significativa, mesmo considerando que ele é o concorrente direto de Ippolit pelas joias. Não creio, porém, que o problema esteja com o ator, pelo menos não majoritariamente. O personagem como escrito por Brooks é que não decola, não tem uma curva de desenvolvimento que chame atenção. Até mesmo o Tikhon, antigo empregado de Ippolit vivido por Brooks, que aparece no filme por algo como 10 minutos tem mais presença significativa do que o padre que larga a batina pelo vil metal (e pedras preciosas, claro).

Por outro lado, as gags visuais são boas, especialmente a labiríntica repartição pública que cataloga o destino dos bens tomados da nobreza e suas infinitas subdivisões internas que é o perfeito – ainda que inadvertido – retrato do que sempre aconteceu aqui mesmo no Brasil, com seus ministérios compostos de secretárias, por sua vez compostas de subsecretarias, por sua vez compostas de pastas e assim por diante até uma granularização tão absurda que acaba sendo hilária, mesmo que, na verdade, seja triste. Na verdade, sendo justo, não é só o Brasil que sofre esse tipo de tortura em seus serviços públicos, mas é sempre melhor ficarmos circunscritos às críticas de nossa realidade imediata.

Banzé na Rússia é inegavelmente um filme de Mel Brooks, mas ele, também inegavelmente, é uma obra menor desse começo da carreira dele como diretor. Percebe-se muito do que ele viria a explorar de maneira mais franca e mais eficiente em vindouras obras, mas o longa não alcança a qualidade que ele viria conseguir em dose dupla quatro anos depois com Banzé no Oeste e O Jovem Frankenstein.

Banzé na Rússia (The Twelve Chairs – EUA, 1970)
Direção: Mel Brooks
Roteiro: Mel Brooks (baseado em romance de Ilya Ilf e Yevgeny Petrov)
Elenco: Ron Moody, Frank Langella, Dom DeLuise, Andreas Voutsinas, Diana Coupland, David Lander, Vlada Petric, Elaine Garreau, Robert Bernal, Will Stampe, Mel Brooks
Duração: 93 min.

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