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Crítica | Barcos ao Mar (1956)

por Iann Jeliel
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O ponto mais notável da produção certamente foi o luxo de ter como locação a embarcação verdadeira da USS Randall para simular o anfíbio USS Belinda da história, além do apoio da marinha ao estúdio para conseguir capturar fotografias de manobras e ataques para as cenas de guerra. Com essa oportunidade de contar com um transporte náutico verdadeiramente utilizado no período da Segunda Guerra Mundial e recursos para cenas de guerra ultrarrealistas à época, Joseph Pevney tinha a faca e o queijo na mão para elaborar um marcante drama de guerra. Infelizmente, os méritos do longa não vão muito além da autenticidade visual de sua locação, sendo em grande parte um moroso drama sobre a rotina glamourizada dos soldados que acompanha.

Não vejo exatamente problemas na escolha de se adotar a trivialidade como linha condutora da narrativa, mas é preciso ter o mínimo de costura dramática ali que justifique essa escolha. Acompanhamos uma penca de personagens que não possuem quaisquer traços de personalidade própria ou background dramático palatável na realidade da guerra. O filme se vende nessa estética realista por conta de seus recursos, mas trabalha seus dramas em banalidades correspondentes à idealização armamentista do americano ou em perdas simbólicas à pátria. É o drama do capitão apaixonado com seu barco, ou do soldado que consegue voltar, mas lamenta a perda em Pearl Harbor.

É sempre essa dramática com base nessa materialização usurpada e maniqueísta dos elementos da guerra. São vários núcleos entrecortados ao longo de 110 minutos que penam para atingir uma unidade estilística. É um mais desinteressante que outro, não só pela rotina vendida de forma orgulhosa, mas principalmente porque não existe a menor preocupação do realismo em desenvolver seus núcleos de forma minimamente humana. São arquétipos tão mal-trabalhados no realismo que nem parecem personagens, apenas bonecos participando de um contexto nunca devidamente explorado, mas “passado” como slides de imagens que de vez em quando trazem um balão de informação que ajuda a didatizar o momento do fato, e apenas isso.

Seria bem melhor se o filme assumisse esse lado quase documental, só que abertamente direcionado para o maniqueísmo americano, do que fingir estar elaborando uma narrativa estrutural cinematograficamente potente. As poucas e econômicas cenas de guerra chegam a ser mais tediosas que a tentativa de drama. Apesar de visualmente bem-feitas por contarem com efeitos práticos bem-organizados, elas não possuem qualquer peso ou impacto dramático, porque você não cria vínculo com basicamente ninguém ali, e ninguém com quem se tenta criar vínculo sofre qualquer consequência marcante. Ritmicamente são extremamente tímidas, sem uma valorização da direção da própria construção visual competente que as acompanha, o que as deixariam ruins até se fossem vistas somente como entretenimento puro e simples, porque soa completamente protocolar.

A vez mais próxima de algo diferente é a sequência do terço final, quando finalmente a escala se converte em algo emocionalmente envolvente, mas dura muito pouco e acaba da forma mais anticlimática e abrupta possível. Ademais, a timidez e a falta de peso dessas cenas são propositais numa perspectiva que direciona a energia das cenas para um mero show-off da marinha americana. Ou seja, em qualquer ponto a proposta só se preocupa com seu caráter de propaganda e acaba virando só isso mesmo, um exercício genérico de patriotismo que desperdiça um enorme potencial visual para um épico de guerra relevante.

Barcos ao Mar (Away All Boats | EUA, 1956)
Direção: Joseph Pevney
Roteiro: Kenneth M. Dodson, Ted Sherdeman (Baseado no romance de Kenneth M. Dodson)
Elenco: Charles McGraw, Julie Adams, Frank Faylen, James Westerfield, Richard Boone, Don Keefer, William Reynolds, Lex Barker, Jock Mahoney, Jeff Chandler, George Nader, Keith Andes, Kendall Clark, George Dunn, John McIntire, Clint Eastwood
Duração: 110 minutos

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