Crítica | Bastardos Inglórios (Trilha Sonora Original)

Bastardos Inglórios é o filme de Quentin Tarantino que ocupa o topo no quesito manipulação de dados históricos, anacronismos e inversões, tratamento de personagens e suas representações por meio da linguagem cinematográfica. Sétima grande incursão na indústria cinematográfica, a produção é uma grandiloquente narrativa sobre dois planos para assassinar líderes da Alemanha Nazista: um organizado pela jovem proprietária de um cinema e o outro por um grupo de soldados judeus, liderados por um tenente interpretado por Brad Pitt.

Por meio da ironia típica, das referências que demonstram uma metalinguagem audaciosa, sem recorrer ao mero exercício da referenciação preguiçosa. Tarantino traz, por meio de imagens sofisticadas, a interpretação de uma época tida como um dos momentos mais bárbaros da história das civilizações, bem como do século XX, isto é, os conflitos da Segunda Guerra Mundial. As imagens cumprem o seu papel eficiente de sempre, tal como a trilha, levemente mais ousada que as incursões anteriores, mas ainda com faixas que exaltam os diálogos considerados mais interessantes e a mixagem de estilos que permite a exploração de gêneros diversos do cinema e da música.

Dessa forma, mais uma vez, Tarantino adota uma postura que ultrapassa o cumprimento de requisitos básicos para um filme em escala industrial. Leia-se: a encomenda de uma trilha que represente qualquer coisa. O cineasta continuamente flerta com maneiras diferentes de pensar e conceber o cinema. Como já explicitado, Tarantino concebe as suas histórias já de olho nas músicas que conduzirão as imagens de seus filmes. Para o desenvolvimento de Bastardos Inglórios, os gêneros dominantes são: breves texturas percussivas e partituras de filmes diversos, emulados e ressignificados, pop-rock, pós-punk, arte rock, hard rock, dentre outros.

A trilha é composta das seguintes faixas: The Green Leaves of Summer, canção de Dimitri Tiomkin, Paul Francis Webster, interpretada por Nick Perito & Sua Orquestra; The Verdict (“La condanna”), Il Mercenario, L’incontro con La Figlia, The Surrender (“La resa”), Mystic and Severe, Rabbia e Tarantella e Un Amico, de Ennio Morricone;White Lightning, tema do filme homônimo, por Charles Bernstein, também responsável porHound Chase (Intro) e Bath Attack, presentes em Bastardos Inglórios; Slaughter, por Billy Preston; Algeri: 1 Novembre 1954 (Battle of Algiers),de Ennio Morricone e Gillo Pontecorvo, orquestra conduzida por Bruno Nicolai; One Silver Dollar (Un Dollaro Bucato), de Gianni Ferrio, interpretada por The Film Studio Orchestra; The Saloon, de Riziero Ortolani, parte integrante do filme Um Colt Para os Filhos dos Demônios, de 1968.

Além dessas, há Claire’s First Appearance e The Fight, por Jacques Loussier; Davon Geht Die Welt Nicht Unter, de Bruno Bal e Michael Jary, interpretada por Zarah Leander, parte integrante do filme Die Große Liebe, de 1942; The Man With the Big Sombrero, de Phil Boutelje e Foster Carling, interpretada por Samantha Shelton and Michael Andrew, inspirada originalmente da música de June Havoc; Ich Wollt Iche Waer Ein Huhn, de Hans-Fritz Beckmann e Peter Kreuder, interpretada por Lilian Harvey e Willy Fritsch; Main Theme, do filme Os Mercenários (1968), conduzido por Jacques Loussier; Cat People (Putting Out The Fire), de David Bowie, produzida por Giorgio Moroder; The Devil’s Rumble, de Davie Allan and Mike Curb, interpretada por Allan and The Arrows para o filme Anjos do Inferno, de 1967; What’d I Say, canção de Ray Charles, conduzida por Rare Earth; Zulus, de Elmer Bernstein, conduzida sob o arranjo da Royal Philharmonic Orchestra; Tiger Tank, por Lalo Schifrin; e Eastern Condors, de Chung Ting Yat.

Em The Green Leaves of Summer, temos uma melodia realizada originalmente para O Álamo, faixa inspirada em La Folia, de Vivaldi, composição calorosa ao som de violinos. Morricone, mais uma vez, é presença com seu piano profundo e construção musical contemplativa. As partituras de Charles Bernstein, em ação desde 1969, contribuem para a atmosfera sonora de Bastardos Inglórios, contribuição oriunda de quem já “musicou” Cujo, A Hora do Pesadelo, A Entidade, A Noite das Brincadeiras Mortais, etc. David Bowie e seu som contagiante, produzido por Giorgio Moroder, trazem para o filme a musicalidade psicodélica do hard rock e os toques do art rock, subgênero próximo da textura sinfônica e com letras mais próximas da contemplação que necessariamente da dança.

Ao longo de Slaughter, encontramos teclados em flertes genuínos com o funk, rock, soul, gospel e R&B. Ademais, diálogos e excertos diegéticos de outros filmes costuram as camadas visuais da narrativa, numa trilha sonora concebida para acompanhar de maneira bem trabalhada as referências visuais de Tarantino aos filmes que compõem a cinefilia de Quentin Tarantino, recurso que também ganha projeção nas imagens e sonoridades de Django Livre, sua incursão posterior.

Compositor: Various Artists
Gravadora: Maverick Records/Warner Bros
Ano: 2009
Estilo: Trilha Sonora

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.