Crítica | Bates Motel – 5X06: Marion

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estrelas 4,5

spoilers! Leiam as críticas dos demais episódios de Bates Motel aqui. E leiam as críticas para as várias versões de Psicose aqui.

Imagine dois produtores de TV que resolvem adaptar um dos filmes mais icônicos da história cinema. Já aí, uma responsabilidade imensa cai sobre o ombro da dupla e, no caso de Bates Motel, eles realmente tiveram que suportar uma enxurrada de críticas em relação às mudanças e adequações feitas para o nosso tempo ao longo da 1ª Temporada da série. Durante todo o tempo, os espectadores esperavam chegar ao clímax do show, que deveria ser o assassinato de Marion Crane, como visto em Psicose. Tudo convergia para este grande evento. Mesmo com os showrunners dizendo em entrevistas na Comic-Con de 2016 que iriam “explodir as nossas expectativas“, nós nunca esperávamos que essa “explosão” viesse com o plot twist absurdamente corajoso que temos em Marion.

Em termos de drama e acontecimentos na série, o que ocorre aqui é perfeitamente aceitável e foi muito bem estabelecido, bem dirigido e, ao contrário do que muita gente raivosa anda dizendo por aí, NÃO TIROU A ESSÊNCIA DO ORIGINAL. O assassinato de Marion é o resultado de um distúrbio mental do protagonista (a não ser que o espectador não tenha entendido que Psicose é sobre Norman) que na série vem sido trabalhado com requinte de detalhes desde a 4ª Temporada.

Um assassinato acontece aqui, nos mesmos moldes do filme inclusive, mas não é Marion que morre. Ao contrário, ela é ajudada por Norman e acaba conseguindo fugir da Mãe, talvez para sempre. Em seu lugar, Sam Loomis é o premiado com a belíssima cena do esfaqueamento no chuveiro, com o mesmo padrão de planos (direção, fotografia e montagem aqui também são impecáveis) e finalização coerente em relação à série, mantendo a atmosfera do filme. A trilha sonora é outra, mas vejam, não estamos falando de uma cópia ou transliteração visual de Psicose, certo? É uma adaptação, e como tal, as escolhas foram bem vindas, pois que adequadas à essa nova realidade.

A coragem da produção em fazer esse tipo de coisa abre caminho para dois sentimentos. O dominante, mesmo para quem aceitou e gostou da mudança, é de decepção, pois a expectativa estava voltada para Marion e a maioria dos espectadores da série têm grande apego em relação a Psicose. Mas se toda decepção em séries de TV tivesse o sentido que teve a deste episódio e fosse igualmente bem produzida, a rigor, não haveria decepção alguma. Novamente, a base do filme está presente. Aqui, porém, os pontos que ativaram o clímax — ou um dos, porque ainda faltam 4 episódios para o fim da série — foram outros. Quase um What If… se pensarmos bem.

Eu havia elogiado a presença de Rihanna em Dreams Die First, e volto a ter a mesma boa impressão de sua Marion neste capítulo. Isso não tem exatamente a ver com a capacidade dramatúrgica da cantora, que é paupérrima, convenhamos. Mas a despeito disso, a Marion de Bates Motel precisava trazer uma persona mais solta, menos rigorosa, mais desleixada em termos de postura e Rihanna representa isso muito bem. Ela traz um novo valor para a personagem, uma delicadeza sexy e ao mesmo tempo desesperada, que se repete aqui e ajuda a criar a separação de caminhos em relação a Norman.

A volta da Mãe, após a escapada no episódio passado; a luta mental de Norman e o “acordo” feito com esta imagem mental que ele criou da genitora é plenamente revelada e se torna incentivadora de suas ações, com outro tipo de consciência (“Mãe, o que EU fiz?“), mudança que pode dar um tom completamente diferente — e igualmente polêmico — à reta final do show. Diante da surpresa aqui revelada, fica um pouco difícil prever o que os episódios finais de Bates Motel nos trará. Uma coisa é certa: a responsabilidade dos produtores agora é ainda maior, uma vez que estão pisando em território novo, mantendo uma base conhecida. É mais difícil adaptar coisas assim, muito mais do que com maiores similaridades em relação ao original. Quem diria que o término da série nos faria roer as unhas mais por um motivo metalinguístico do que dramático, não é mesmo?

Bates Motel (EUA, 27 de março de 2017)
Direção: Phil Abraham
Roteiro: Carlton Cuse, Kerry Ehrin
Elenco: Vera Farmiga, Freddie Highmore, Max Thieriot, Olivia Cooke, Rihanna, Isabelle McNally, Austin Nichols
Duração: 46 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.