Home Colunas Crítica | Batman (1966) – 1X01 e 02: Charada é uma Charada / Destruído com um Soco

Crítica | Batman (1966) – 1X01 e 02: Charada é uma Charada / Destruído com um Soco

por Ritter Fan
410 views (a partir de agosto de 2020)

Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Bat-Número de temporadas: 3
Bat-Número de episódios: 120 + um longa metragem
Bat-Período de exibição: 12 de janeiro de 1966 a 14 de março de 1968
Há bat-continuação ou bat-reboot?: Não diretamente. Mas há dois longas animados (Batman: O Retorno da Dupla Dinâmica, de 2016 e Batman vs. Duas-Caras, de 2017), além de uma HQ (Batman ’66) publicada entre julho de 2013 e fevereiro de 2016, além de alguns crossovers derivados que oferecem o que pode ser interpretados como “novos episódios” da mesma Dupla Dinâmica da série de TV.

*****

Independente da idade, é muito pouco provável que alguém ligado em séries e filmes não tenha se deparado, de uma maneira ou de outra – mesmo sem saber – com algum elemento de uma das mais famosas adaptações do Batman para o audiovisual, criada por William Dozier (que faz as vezes de narrador, mas sem levar crédito), produtor que nunca havia lido nada do personagem antes e, ao ser encarregado da série, leu algum material e bateu o martelo imediatamente sobre a pegada satírica, que brincava com os absurdos do universo do personagem. A série, comumente chamada de “Batman 66” ou “Batman de 66” ou “Batman e Robin”, é uma deliciosamente bizarra e engraçada comédia camp que transpõe a Dupla Dinâmica para a televisão de forma tão magistral e tão marcante que seus personagens levaram anos para despirem-se da imagem que ficou deles no imaginário popular.

Seja o Cavaleiro das Trevas “fora de forma” de Adam West, seja o Menino Prodígio “velho” de Burt Ward (ele tinha 21 anos, mas com rostinho de 30…), as onomatopeias dos quadrinhos nas lutas, o telefone vermelho, o busto de Shakespeare que abre a estante que leva aos postes deslizantes para a Batcaverna (com placas indicando de quem é cada poste – Dick à esquerda e Bruce à direita – e com um aviso ao fundo informando literalmente “Acesso à Batcaverna pelos bat-postes”), a inesquecível música-tema, o bat-cinto de utilidades que tinha de tudo até bat-repelente de tubarões, a escalada pelas paredes com Robin na frente e Batman atrás (hummm…), os vilões histriônicos que riem e saltitam o tempo todo, o belíssimo Batmóvel (o mais bonito de todos os Batmóveis já feitos para mim) com giroflex, bordas e símbolo do morcego em vermelho e botões devidamente etiquetados, cada detalhe dessa série marcou a História da Televisão em geral e das adaptações de quadrinhos em particular. Há quem não goste, mas quem não gosta precisa ser internado no Asilo Arkham, sejamos francos.

A dupla de episódios iniciais (as duas primeiras temporadas mantiveram essa estrutura de dois episódios por semana com títulos rimados em inglês contando uma história só que iam ao ar em dias consecutivos), que adaptam a história Remarkable Ruse of the Riddler publicada em Batman #171, de maio de 1965, já estabelece a fórmula que seria seguida ao longo dos 118 restantes, além do filme lançado entre as primeira e segunda temporadas: bandido fantasiado faz bandidagem, o Comissário Gordon (Neil Hamilton) chama o Batman pelo telefone, a Dupla Dinâmica age, mas se ferra, deixando um cliffhanger que, então, é resolvido na parte seguinte de maneira triunfal e “inesperada”. É o Charada, vivido por Frank Gorshin, que tem a honra de ser o primeiro vilão da série, em um plano surreal que começa com uma hilária cilada que o permite entrar com uma ação indenizatória contra Batman e Robin como parte de uma estratégia mais ampla, mas que não tem lógica nem dentro da própria dupla de episódios.

Usando a câmera “virada levemente de lado” – ou, tecnicamente falando, em ângulo holandês – que mantém aquela sensação de estranhamento e salienta a torpeza dos vilões, outra marca registrada da série, o prolífico diretor de TV Robert Butler (que, no ano anterior, dirigira Star Trek: The Cage, o famoso piloto original – mas que não foi ao ar – da série original da franquia) estabelece o template visual para absolutamente tudo que viria depois, algo que a direção de arte espalhafatosa e a fotografia de cores fortes e berrantes multiplica exponencialmente. Os efeitos visuais são normalmente inteligentes jogos de câmera que resultam em momentos hilários como a famosa escalada de parede de prédios ou o batarangue com corda prendendo em todo lugar, com o roteiro de Lorenzo Semple Jr. (o mestre do camp responsável pelo King Kong de 1976 e o Flash Gordon de 1980) não se furtando em colocar os heróis nas situações mais embaraçosas possíveis, como Batman dançando logo na primeira parte da dupla inicial de episódios, ainda uma das mais icônicas sequências de toda a série e parodiada dezenas de dezenas de vezes.

Adam West, que para sempre ficaria marcado por esse papel, o que o impediu de ter uma verdadeira carreira cinematográfica pós-Batman, é, sem medo de errar, um grande achado. Não digo que ele é um grande ator, longe disso, mas seu jeito de cafetão novayorkino de nariz em pé é impagável, assim como sua voz empostada e sua completa imersão no absurdo personagem, seja com ou sem o uniforme, com direito a deduções sérias, diálogos cheio de lógica de maternal e, claro, lições de toda sorte, como não deixar Robin entrar na boate por ser menor, não dirigir o Batmóvel sob efeito de narcóticos ou mesmo jogar uma grade por um prédio, que ele faz questão de pendurar na parede com um bat-gancho ou até mesmo, como é o caso aqui, de arrependimentos. West nasceu para esse papel e é realmente impossível vê-lo como outro personagem, em um exemplo extremo de type cast. Ward também diverte e convence, mas Robin tem, aqui, um papel bastante limitado e o ator não tem a mesma presença de tela que West. Gorshin, no papel de Charada, é suficientemente bom para divertir, mas, em comparação com outros atores que viveriam vilões como Coringa e Pinguim, ele é comparativamente inferior.

Charada é uma Charada e Destruído com um Soco marcaram época e estabeleceram tudo que tornou a série o ícone de uma era. Se lembrarmos bem, Batman – como Batman mesmo – nunca mais voltou de verdade para séries de TV live-action, ficando apenas nas animações e em menções e participações mínimas em outras séries do universo DC, diferente de outros diversos heróis da editora, inclusive o Superman. Quem sabe não seja o justificado receio que até hoje se tenha que o Batman que William Dozier criou em 1966 seja imbatível na telinha?

Batman – 1X01 e 02: Charada é uma Charada / Destruído com um Soco (Batman – 1X02, 1X02: Hi Diddle Riddle / Smack in the Middle, EUA – 12 e 13 de janeiro de 1966)
Desenvolvimento:
William Dozier (baseado em criação de Bob Kane e Bill Finger)
Direção: Robert Butler
Roteiro: Lorenzo Semple Jr.
Elenco: Adam West, Bruce Ward, Alan Napier, Neil Hamilton, Stafford Repp, Madge Blake, William Dozier, Frank Gorshin
Duração: 25 min. (cada episódio)

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais