Home QuadrinhosArcoCrítica | Batman (2025) – Vol. 1: Daylight

Crítica | Batman (2025) – Vol. 1: Daylight

Casos da semana com o Morcegão.

por Kevin Rick
15 views

A estreia da nova fase de Batman por Matt Fraction e Jorge Jiménez deixou claro que a proposta não era reinventar o personagem a partir do trauma, mas reordenar seus fundamentos com uma pegada mais simpática e otimista. Lendo o volume completo agora depois da primeira edição, essa impressão se consolida e se complexifica: o que parecia apenas um retorno “super-heroico” clássico se revela, na verdade, um projeto bastante consciente sobre controle, institucionalização da violência e o lugar do Batman em um mundo que aprendeu a copiar e otimizar seus métodos. 

O fio condutor do volume não é um vilão específico, mas a reorganização do ecossistema criminal e policial de Gotham. Vandal Savage, mais do que antagonista direto, funciona como símbolo máximo dessa transformação, com um poder antigo e imortal que entende que a melhor forma de derrotar o Batman não é destruí-lo, mas torná-lo obsoleto. Até senti mais falta do personagem ao longo do volume, mas a pegada procedural de Fraction e cia. é instigante.

Nesse sentido, o arco envolvendo Robin (Tim Drake) é central para o volume. A edição em que Tim é jogado algemado em um camburão com criminosos violentos é menos sobre ação e mais sobre o relacionamento de Tim e Bruce, bem como do tema recorrente de brutalidade policial. O episódio tensiona a relação entre Batman, GCPD e opinião pública, reforçando a abordagem do texto. Inclusive, gosto da humanização que a equipe criativa traz aos personagens, deixando-os mais próximos de uma trama centrada nas ruas e não tanto com a grandiloquência que estamos infelizmente ficando acostumados com o Morcegão.

Após isso, temos uma série de pequenos “curtas”, passando pelo Charada, Annika Zeller, Anarquia e Hugo Strange. Nenhum desses blocos são suficientemente excelentes, até porque todos são bem pequenos, mas pintam um mosaico coeso com a construção temática da história sobre as mudanças de Gotham, bem como servem para o foco dramático no relacionamento de Bruce com Tim e Damian.

Depois de tantos anos lendo Batman & Robin, é difícil não sentir um certo cansaço com as reciclagens feitas aqui com ambos os sidekicks (dá até pra se irritar com um certo retrocesso nos desenvolvimentos dos dois personagens, que quase voltam a um status quo, principalmente o Damian), mas o texto de Fraction é bom o suficiente para passar por cima de repetições com bons caminhos futuros. Estou até intrigado com as duas propostas apresentadas para eles, com Tim se “aposentando” e Damian sendo forçado a viver experiências mais humanas. Quem sabe os personagens finalmente passem por uma reformulação, como aconteceu com Dick ao se tornar o Asa Noturna e com Jason ao voltar como o Capuz Vermelho.

Ademais, mesmo que a pegada procedural emperre o quadro geral da história, é refrescante ver algo mais “episódico” nos quadrinhos do Batman, quase como rotinas do dia a dia do Morcegão. Fraction se aproveita disso para desenvolver o protagonista para além do símbolo, gradualmente montando seu Bruce Wayne em uma chave íntima. Continuo achando que o Alfred versão IA não funciona integralmente, mas todas as cenas “domésticas” da narrativa agregam bastante ao trabalho dramático, algo que Fraction sempre teve tato de fazer com heróis.

Infelizmente, a trama principal fica meio soterrada em tudo isso. Nada aqui me chamou tanta atenção ainda, nem mesmo a reviravolta da sexta edição, com uma nova “femme fatale” possivelmente se juntando à galeria do herói. A arte dinâmica de Jorge Jiménez ajuda a esconder certos entraves e falta de sequência das tramas, sem falar que a textura mais limpa e clara do herói segue sendo um refresco de ler depois de tantos anos “sombrios”. 

O volume, como um todo, não aposta em grandes reviravoltas ou choques narrativos imediatos, com exceção do twist final. Seu maior risco é também sua maior virtude: Fraction está construindo um terreno, não um espetáculo pontual. Há leitores que sentirão falta de uma ameaça definitiva, de um arco mais fechado, de um clímax explosivo, e eu não discordo totalmente. Mas o que se estabelece aqui, mesmo entre soluços, é mais duradouro: uma Gotham em transição, um Batman reposicionado e uma jornada com novas ideias.

Batman (2025) – Vol. 1: Daylight – EUA, 2025
Contendo:
Batman (2025) #1 a 6
Roteiro: Matt Fraction
Arte: Jorge Jiménez
Cores: Tomeu Morey
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Jessica Berbey, Rob Levin
Editora: DC Comics
Páginas: 192

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais