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Crítica | Batman: Alma do Dragão

por Ritter Fan
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Batman: Alma do Dragão poderá ser encarado por muita gente como uma enganação da DC Entertainment. Afinal, Batman (David Giuntoli) não só não é o protagonista desse divertidíssimo Elseworlds de atmosfera setentista, como ele é tecnicamente desimportante para a história como um todo. Ele só está mesmo ali porque ele é um chamariz da produtora, que precisava de um medalhão para atrair espectadores para um longa que, na verdade, é encabeçado por Richard Dragon (Mark Dacascos), desenhado exatamente como se fosse Bruce Lee, que reúne seu amigos da época de treinamento em Nanda Parbat para derrotar o Culto da Cobra que deseja abrir um portal para uma dimensão demoníaca.

É triste que seja necessário recorrer a subterfúgios como colocar Batman no título para fazer com que determinada animação tenha público, mas isso é culpa tanto das editoras mainstream que basicamente usam dois ou três personagens o tempo todo – e derivações deles – quanto do público que só realmente quer vê-los nas HQs, no cinema e também na televisão. Garanto que se o longa tivesse sido chamado Richard Dragon: Alma do Dragão, sem Batman sequer dar as caras no trailer, só uma literal meia dúzia de pessoas assistiriam o filme.

Seja como for, a produção de Bruce Timm escrita por Jeremy Adams e dirigida por Sam Liu é uma das mais inusitadas e melhores dos últimos anos em termos de animações da DC. O grande charme do longa é mesmo toda a vibe setentista, que usa desde uma abertura típica de filmes de James Bond, passando por todos os elementos de obras de artes marciais daquela época, o que significa muitas lutas muito bem animadas e coreografadas e chegando a um ritual sobrenatural típico do exploitation da era, além de um design que grita anos 70 a cada fotograma, com figurinos e penteados muito bem escolhidos. Além disso, a forma como os personagens das HQs são trabalhados quebra expectativas, com um Bruce Wayne que não parece se importar muito em revelar que é o Batman, um Richard Dragon que, como já disse, é um Bruce Lee animado e mais Lady Shiva (Kelly Hu) e Tigre de Bronze (Michael Jai White) em caracterizações substancialmente diferentes das que estamos acostumados.

A história em si é bem simples, com o roteiro de Adams intercalando a ação no presente no estilo “reunião de equipe para enfrentar os vilões” com flashbacks para o treinamento do grupo e mais Rip Jagger (Chris Cox) e Jade (Jamie Chung) sob os auspícios de O-Sensei (James Hong) em Nanda Parbat, um paraíso que muitas vezes lembra o templo da franquia Kung Fu Panda. Há muito mais preocupação com a forma do que sobre a substância na animação, algo que normalmente é condenável, mas que, aqui, assume uma características de homenagem a um estilo de época (e também a Dennis O’Neil, citado nos créditos) que resulta em uma animação descompromissada, mas extremamente energética, com direito até a um final descaradamente aberto para uma continuação que, confesso, até gostaria de ver.

O grande vilão Kobra (Josh Keaton) não diz a que veio por ganhar praticamente quase nada de tempo de tela e, portanto, de desenvolvimento, mas ele pelo menos traz a tiracolo sidekicks interessantes como Rei Cobra (Patrick Seitz) e Lady Eve (Grey DeLisle), tirados dos quadrinhos, e Schlangenfaust (Robin Atkin Downes), este criado especialmente para o longa, resultando em boas desculpas para a pancadaria usual que um filme como esse, que tem como objetivo justamente homenagear uma década marcada por exploitation movies e películas de kung fu, simplesmente precisava ter.

Diferente da qualidade da animação anterior da DC, Superman: O Homem do Amanhã, que basicamente segue um estilo que parou no tempo, percebe-se o cuidado que a assinatura de Bruce Timm costuma trazer. Ainda é, claro, uma animação simplificada, mas há uma ou duas camadas extras de trabalho para lidar com fluidez de movimentações, belas e principalmente variadas coreografias, além do citado esmero em incorporar os anos 70 cinematográficos em uma inusitada obra que carrega o nome do Batman.

Portanto, apesar da história básica que só existe para servir de catalisadora para a ação frenética e mesmo considerando que o Batman é apenas a cenoura para atrair os espectadores em um filme que, na verdade, é de Richard Dragon e de seus companheiros de lutas marciais, Alma do Dragão é uma animação decididamente refrescante da DC Entertainment que poderia muito facilmente levar a spin-offs interessantíssimos passados nesse mesmo universo alternativo. Fica a torcida para que a produtora faça mais uso de seus personagens menos conhecidos, mesmo que uma ou outra figurinha fácil tenha que aparecer para servir de isca.

Batman: Alma do Dragão (Batman: Soul of the Dragon – EUA, 12 de janeiro de 2021)
Direção: Sam Liu
Roteiro: Jeremy Adams
Elenco: David Giuntoli, Mark Dacascos, Kelly Hu, Michael Jai White, James Hong, Jamie Chung, Josh Keaton, Chris Cox, Robin Atkin Downes, Grey DeLisle (Grey Griffin), Patrick Seitz, Eric Bauza, Erica Luttrell
Duração: 83 min.

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