Crítica | Batman: Amaldiçoado (Batman: Damned)

A publicação inaugural do selo DC Black Label, que pretende trazer histórias adultas dos super-heróis da editora (parte da estratégia equivocada que levou ao cancelamento do selo Vertigo), chegou às lojas dos EUA com enorme estardalhaço, mas pela razão errada. No lugar de festejar o novo selo, o novo formato de publicação (grande e vistoso, menos retangular que as HQs normais e com bem mais páginas) ou a nova colaboração de Brian Azarello com Lee Bermejo, toda a atenção foi para o bat-pênis em um breve quadro da primeira edição. É evidente a DC Comics e os autores sabiam que esse seria o “bochicho” e todo o teatro que levou à esperada segunda tiragem com uma sombra marota por sobre os genitais do Morcegão funcionou como aquela estratégia de marketing até comercialmente boa, mas completamente desnecessária e que me deixou desde logo com má vontade com a prometida minissérie em três edições bimestrais que acabou levando 10 meses para acabar.

Mas minha curiosidade foi maior, especialmente pela dupla criadora, já responsável pelas graphic novels Coringa e Luthor: Homem de Aço. E ainda bem, pois o bat-pênis é coisa pequena perto da grandeza do resultado final que faz de Batman: Amaldiçoado (não tenho certeza se a Panini traduzirá a obra assim quando publicá-la por aqui, mas é um chute bem razoável) leitura essencial do Batman e delineia o que poderia ser chamado de “bermejoverso” para o personagem na linha do que Frank Miller fez, se somarmos, aí, Batman: Noël, que o artista também escreveu.

(1) Batman vs Etrigan e (2) Zatanna surge.

Se a história em si pode causar estranheza e uma divisão entre leitores que gostarão da pegada de Azzarello e outros que não a apreciarão, creio que a arte é algo próximo de uma unanimidade. Bermejo já havia se provado como um grande desenhista, arte-finalista e colorista nas graphic novels mencionadas, mas elas, posso afirmar com tranquilidade, são apenas aperitivos para o que ele consegue fazer aqui, mais do que justificando todo e qualquer atraso na publicação. Volta seu Batman mais rústico, grandalhão e pesado, com uniforme repleto de detalhes, costuras aparentes e texturas variadas que é ao mesmo tempo mais realista e mais surreal do que todos os outros já feitos, em uma combinação vencedora. Mas o Homem-Morcego é apenas um elemento na narrativa, que conta ainda com basicamente toda a Liga da Justiça Sombria, com Constantine como o narrador não-confiável (como ele mesmo afirma ser) e aparições dos outros personagens místicos da editora na visão única de Bermejo: Desafiador, Etrigan, Zatanna, Espectro e o Monstro do Pântano. Suas recriações são de tirar o chapéu, por vezes aproximando-se das versões oficiais dos personagens, como no caso de Constantine, por outras, como no caso de Etrigan e Espectro, emprestando-lhes versões mais, digamos, humanas. Se há um defeito é a sexualização breve, mas mesmo assim desnecessária das personagens femininas, algo que Bermejo poderia ter facilmente evitado.

Todos esses personagens, claro, nada seriam não fosse a maneira como a artista faz sua Gotham City decrépita, corrupta e doentia explodir nas páginas da história, com uma riqueza de detalhes fascinantes nos prédios, na vegetação e em cada figurino e novo background utilizado, transformando-a em um verdadeiro personagem pulsante. As cores também merecem um comentário específico, pois Bermejo pinta sua páginas com o cuidado excepcional, emprestando tons sombrios, mas não necessariamente escuros e sempre ricos em nuances e texturas para tudo, de paredes e janelas de prédios até a fivela do cinto do Batman. É, como diria minha avó, um desbunde. Arriscaria dizer, até, que não há artista mainstream hoje que consiga fazer algo nesse nível e se eu tiver que pagar premium para uma arte dessa qualidade (e os títulos DC Black Label têm um “precinho salgado” mesmo com arte do naipe de um Romitinha sem inspiração como em Superman: Ano Um), pago com prazer só para folhear a publicação sem nem a necessidade de ler o texto.

E essa maravilha gráfica funciona particularmente bem para a proposta da história de Azzarello que arremessa o protagonista em uma narrativa psicológica e sobrenatural de busca pela verdade e de expiação de culpa depois que o Coringa aparece morto misteriosamente. A narração de Constantine, com uma escolha de fonte por Jared K. Fletcher que parece manuscrita e “flutuando” por cima das imagens, é esteticamente muito bonita, mas um pouco intrusiva e prolixa demais, por vezes confundindo mais do que elucidando. A “voz” de Constantine, porém, está perfeita, com o roteirista passando para as páginas toda a jocosidade, frieza e cinismo do conjurador de demônios fumante e sua presença em momentos-chave é marcante. Os demais personagens místicos que citei são apenas belíssimos penduricalhos narrativos que não acrescentam nada verdadeiramente crucial à história, ainda que, claro, eles a coloram maravilhosamente bem, valendo especial destaque para Etrigan e para o Monstro do Pântano.

O Monstro do Pântano em toda sua glória musguenta!

No entanto, a história só funcionará de verdade se o leitor não estiver esperando algo tradicional, com começo, meio e fim bem definidos. Batman tem que lidar com seus demônios internos mais uma vez e mais uma vez temos flashbacks para o mais marcante e trágico momento de sua vida, mas o aspecto místico da narrativa a retira do lugar-comum, algo que nem sempre combina com o Morcegão, mas que, aqui, graças à arte de Bermejo, parece perfeitamente normal. Mas é necessário saber lidar com as elipses estranhas, como a transição entre o final da segunda edição e o começo da terceira e toda a narrativa excessivamente críptica de Constantine. Além disso – e sei que estou tentando me esquivar de spoilers e assim continuarei – é importante, mas não essencial, que o leitor tenha lido tanto A Piada Mortal quanto Coringa em preparação a Amaldiçoado dadas as costuras que Azzarello e Bermejo fazem e que emprestam outras interessantíssimas camadas à graphic novel capazes de gerar todo tipo de especulação.

Mesmo com todo o preparo possível, ainda assim a HQ será uma daquelas que deixará o leitor pensando tanto em seu final quanto no que efetivamente aconteceu ao longo das edições e tentando separar realidade de ficção sem que haja uma resposta definitiva, apenas diversas possibilidades igualmente intrigantes. Por isso é importante mergulhar em Amaldiçoado já sabendo que essa não é uma HQ para ser lida assim, sem mais nem menos, sem prestar atenção, como se fosse apenas mais uma dentre tantas. Há muita riqueza aqui, tanto visual quanto narrativa, e isso é, sem dúvida alguma, uma notícia alvissareira para leitores que querem mais do que apenas o básico.

Batman: Amaldiçoado (Batman: Damned, EUA – 2018/19)
Contendo: Batman: Amaldiçoado #1 a 3
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Lee Bermejo
Letras: Jared K. Fletcher
Capa: Lee Bermejo
Editoria: Mark Doyle
Editora original: DC Comics (selo DC Black Label)
Data original de publicação: 19 de setembro e 12 de dezembro de 2018 e 26 de junho de 2019
Páginas: 156

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.