Crítica | Batman: Carta Fora do Baralho (Batman: Vol. 1 #450 e 451 – 1990)

Depois de o Batman, Coringa e companhia renascerem das cinzas camp graças ao trabalho de Denny O’Neil nos roteiros dos quadrinhos nos anos 70 e que foi continuado por diversos outros autores, a década de 80 chegou e trouxe, com ela, a maior reformulação de toda a batfamília. Em 1986, Frank Miller lança O Cavaleiro das Trevas, talvez a graphic novel mais importante do Batman e que lida com seu futuro (ou um futuro) e amplifica a pegada sombria e violenta do personagem. No ano seguinte, o mesmo autor traz Ano Um, a história de origem definitiva do Homem-Morcego. Em 1988, uma dupla desgraça se abate sobre o Cruzado Encapuçado, a primeira cortesia de Alan Moore, com A Piada Mortal, em que o Coringa aleija brutalmente Barbara Gordon, fotografa sua dor e faz o Comissário Gordon ver tudo e a segunda, de Jim Starlin, o assassinato extremamente violento de Jason Todd, o terceiro Robin, também pelo Coringa, em Morte em Família.

É esse tenebroso pano de fundo que é largamente utilizado no breve arco Carta Fora do Baralho, substancialmente uma história do Coringa, mas com uma abordagem muito interessante e diferente, bem na esteira do viés mais psicológico que as histórias do Batman passaram a ter na década anterior. Trata-se do retorno efetivo do vilão depois de sua aparente morte ao final de Morte em Família, quando ele não só foi baleado no peito, como também caiu com um helicóptero que, ato contínuo, explodiu. Mas, no lugar de o Palhaço do Crime simplesmente voltar como se nada tivesse acontecido, o leitor o encontra isolado em um apartamento desarrumado, incapaz de voltar ao que ele era antes, como em uma forma de transtorno de estresse pós-traumático. Ele não mais consegue ver a graça nas coisas e, apesar de fisicamente suas sequelas não serem muito grandes, ele parece… são. Sim. A sanidade, para o Coringa, é a insanidade e ele se contorce ao não conseguir reverter ao seu eu anterior ao trauma, em um roteiro muito inteligente de Marv Wolfman que usa até mesmo elementos de sua origem por Moore, quando ele pega, nostálgico, seu capacete vermelho de Capuz Vermelho.

As primeiras páginas de cada edição do arco: (1) o primeiro assassinato de Base como Coringa e (2) a visão tripla dos traumas dos principais personagens.

Diferente da abordagem padrão, atos têm consequências e, mais diferente ainda, no lugar de focar nas consequências para os heróis, algo que, aliás, já havia sido objeto de vários arcos nesse interregno até bem longo sem o Coringa, todo o texto fica em cima do vilão. E o problema é amplificado quando alguém passa a se disfarçar de Coringa e a cometer roubos fazendo uso de piadas infames que o Coringa verdadeiro teme que deporão contra sua reputação. Acertadamente, porém, Wolfman não esconde a identidade do “novo” Coringa, criando, para isso, um personagem inédito, o magnata Curtis Base que, por razões pouco convincentes, fica obcecado com o Coringa e decide encarná-lo depois de estudá-lo detalhadamente. Essa transformação e suas motivações fica perdidas no curto arco e o leitor é meio que obrigada a simplesmente aceitá-las sem pensar muito para não estragar a diversão. Seja como for, o estudo sobre o limite da sanidade, representado pelo conflito entre o Coringa e Base, é o ponto alto narrativo.

Mas Wolfman não se esquece dos traumas de Batman e de Gordon. A paralisia de Barbarga e a morte de Jason continuam muito presentes, ganhando até mesmo rememorações gráficas que a arte de Jim Aparo traz à vida com traços levemente diferentes e que as cores mais claras e uniformes de Adrienne Roy destacam. Aliás, Aparo, com seu estilo mais clássico e sóbrio é perfeito para o texto do roteirista, não deixando, em momento algum, que a história descambe para um lado mais leve. Apesar de efêmero, Base é bem utilizado, em um crescendo de insanidade que até poderia ter ganhado mais edições para amplificar seu desenvolvimento. Pelo menos o trauma do Coringa verdadeiro não é magicamente resolvido ao final do arco, algo que seria ainda explorado, ainda que com menor intensidade, em edições posteriores.

Carta Fora do Baralho marca o retorno do Coringa para a vida de Batman depois da morte de Jason Todd, mas sem que o assunto seja lidado como mais uma das mortes não morridas do personagem. Vemos um cuidado que dignifica as atrocidades que vimos na segunda metade dos anos 80 e que enfoca um lado do personagem que ainda não era conhecido. Há problemas de conveniência narrativa talvez ditados pelo pouco espaço dedicado à sua volta, mas Wolfman e Aparo entregam algo que tematicamente está em perfeita consonância com a então nova maneira de se escrever histórias do Homem-Morcego.

Batman: Carta Fora do Baralho (Batman: Wildcard! e Judgements!, EUA – 1990)
Contida em: Batman #450 e 451
Roteiro: Marv Wolfman
Arte: Jim Aparo
Arte-final: Mike DeCarlo
Cores: Adrienne Roy
Letras: John Costanza
Editoria: Denny O’Neil, Dan Raspler
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: julho de 1990
Editoras no Brasil: Editora Abril
Datas de publicação no Brasil: junho de 1991 (Batman: 3ª Série #17)
Páginas: 44

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.