Crítica | Batman: Gotham by Gaslight (2018)

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SPOILERS!

Imaginem uma alternativa Era Vitoriana, onde Gotham vive sob dois grandes medos. Um deles, mais que uma incerteza, um certo alvoroço da opinião pública, é a presença do vigilante conhecido como Batman. O outro é o que de fato tem sido o horror da cidade, um assassino serial chamado Jack, o Estripador, que vem atacando mulheres nas ruas, sempre à noite, colocando a polícia e os cidadãos em estado de alerta. Esta é, basicamente, a visão geral de Batman: Gotham by Gaslight, a animação da DC Entertainment que adapta, em essência, a HQ Um Conto de Batman – Gotham City 1889, publicada nos Estados Unidos em 1989.

No original, a história de Brian Augustyn, com desenhos de Mike Mignola e finalização de P. Craig Russell se passa na Terra-19 (ou Terra-1889, antes dos Novos 52), em Viena, Londres e Gotham. A premissa dos quadrinhos é praticamente a mesma da animação e boa parte da ambientação macabra ainda se faz ver nesta versão de 2018. O que ocorre é que a adaptação do roteiro de James Krieg inventa uma aproximação muito grande e muito rápida entre Burce Wayne e Selina Kyle, a ponto de o filme parcialmente desviar-se do foco no serial killer — ou dos problemas de Wayne, que já são grandes o bastante para mantê-lo ocupado por muito tempo –, para focar em um proto-romance desajeitado e em uma relação de trabalho-esnobismo e cumplicidade entre ele e Selina, fator piorado pelo fato de ela descobrir a identidade heroica do ricaço da cidade pouco tempo depois de encontrá-lo em uma performance noturna.

Quem assina a direção aqui é Sam Liu, o mesmo de Batman: Ano Um (2011) — do qual foi co-diretor –, Batman: A Piada Mortal (2016) e Jovens Titãs: O Contrato de Judas (2017), além de uma série de outras animações da DC, o que o colocou, desde que foi escalado, em um posto alto de expectativa em relação ao que poderia fazer num Universo alternativo. Exclusivamente do ponto de vista da ação, o diretor faz um ótimo trabalho, pelo menos na primeira metade do filme. As perseguições do Estripador, as cenas de luta, o primeiro momento da Mulher-Gato servindo de isca para o assassino e a interessantíssima sequência de luta no zepelim (curiosamente, seguindo-se a uma terrível e duvidosa sequência em Arkham) são destaques visuais da fita e, mesmo que pareça tirar do Batman sua exímia capacidade de luta, consegue coisas muito interessantes com a criação de um cenário de tensão e dúvidas sobre o que de fato está acontecendo. 

É engraçado que quando se tem um bom diretor e uma boa equipe de animação, como é o caso aqui, por mais que o roteiro seja do tipo que “atira para todos os lados e depois finge que está atento ao tema principal“, como também é o caso aqui, muitas coisas ainda podem ser salvas ou destacadas no produto pronto. Notem como as cenas da primeira parte da obra são cheias de contrastes de mundos sociais e até emocionais, indo da riqueza de Bruce à insatisfação da Irmã Leslie com a incompetência da polícia diante dos assassinatos de mulheres; da inauguração de um empreendimento financiado por Wayne ao uso de crianças das ruas como intermediárias no crime por algum cooptador, e coisas do tipo. Tudo isso é ainda bem mediado pelas boas dublagens dos três personagens principais, feitas por Bruce Greenwood (Batman), Scott Patterson — que é quem mais nuances de interpretação nos entrega — (Gordon) e Jennifer Carpenter (Selina).

Infelizmente as aparições de Hugo Strange e principalmente de Harvey Dent parecem inócuas na história, funcionando mais como um rápido e meio entediante fan service. Talvez se o roteiro tivesse se preocupado menos com dificuldades bobas ou romances no meio do caminho, sobraria tempo para algumas cenas que contextualizassem melhor esses dois importantes indivíduos do Universo DC.

Existe um curioso uso de elementos históricos da Era Vitoriana e elementos ficcionais (à la steampunk) que se integram bem à trama, com exceção da parte final. Após a revelação de quem é o Estripador, o roteiro desembesta por uma interminável linha de resistência inútil da parte de Gordon, Síndrome de Mocinha em Perigo da parte de Selina e papel de “hoje é meu dia de apanhar” da parte do Batman. A diversão aqui vai até certo ponto, mas como a névoa e o perigo das ruas de Gotham City à noite, não dá para achar aceitável por muito tempo.

Batman: Gotham by Gaslight (EUA, 23 de janeiro de 2018)
Direção: Sam Liu
Roteiro: James Krieg
Elenco (vozes): Jennifer Carpenter, Bruce Greenwood, Tara Strong, Kari Wuhrer, Scott Patterson, Grey DeLisle, John DiMaggio, Anthony Head, Yuri Lowenthal, Lincoln Melcher, Bruce Timm, William Salyers, Chris Cox, Bob Joles, David Forseth
Duração: 78 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.