Home QuadrinhosMinissérie Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas

Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas

por Luiz Santiago
643 views (a partir de agosto de 2020)

Confissão Introdutória

Eu nunca comecei um texto assim. De peito aberto. Emotivo. Fora do campo quase neutro e propenso à razão que a crítica normalmente se obriga a permanecer. Como deve ser.

Mas para falar de O Cavaleiro das Trevas, obra de Frank Miller e Klaus Janson com cores de Lynn Varley, eu me permito reservar um espaço para o “não-acadêmico”, ou para o menos acadêmico, nem que seja só um pequeno espaço. Uma palavra do leitor emocionado que há em mim.

Quando penso nas histórias do Batman, uma lista me vem à mente: O Cavaleiro das Trevas, Ano Um, A Piada Mortal, O Longo Dia das Bruxas, Asilo Arkham, Morte em Família, O Advogado do Diabo, Guerra ao Crime… Essas citações não pretendem dar conta de todas as grandes fases do herói e nem pretendo esgotá-las aqui. Elas apenas mostram momentos que foram importantes, pelo menos para mim, no processo de “fixação definitiva” da alma, força e ícone do Homem-Morcego, como também do seu espaço de luta e de seus inimigos. Se eu precisasse enxugar ao máximo o número de indicações, ficaria com as três primeiras. E se ainda fosse preciso salvar uma única história dentre elas, eu não tenho dúvidas de que salvaria O Cavaleiro das Trevas. Esta é, de longe, a minha obra preferida dentre tudo o que já se publicou sobre o Batman.

A partir desse ponto, é lícito deixar o discurso pessoal e adotar uma postura mais racional sobre essa obra-prima. Então vamos lá.

The Dark Knight Returns

Tempo, espaço, ritmo e múltipla perspectiva narrativa. Quando se fala da importância e soberania de O Cavaleiro das Trevas frente a outras publicações do Batman, é preciso ter em mente esses quatro aspectos que estruturam a obra. Os dois primeiros andam juntos, e formam a espinha dorsal de toda a história: Bruce Wayne é um velho de 55 anos, amargurado e consumido por uma angústia que o isola e o faz reviver tormentos do passado como a morte de seus pais, por exemplo.

Ao resolver voltar a vestir o manto do Morcego, vemos uma mudança completa em seu comportamento. O teor psicologizante (no sentido negativo, forçado e mal explicado mesmo), que era uma tendência relativamente incômoda nos anos 1980/90, com retorno nos anos 2010, não atinge o roteiro de Frank Miller. O Bruce Wayne melancólico do início da obra tem um motivo de ser: ele vive “forçado” a se portar como um “simples cidadão milionário” que vê Gotham City afundar-se em sangue e miséria. Roteiros mais novelísticos fariam disso um grande poço de lamentos, com questionamentos profundos, exploração do existencialismo, introspecção chateante e pouco frutífera para uma HQ desse nível. Frank Miller usa a melancolia de Bruce Wayne como trampolim para a volta do Batman, em cuja máscara o velho Wayne se vê realizado, sedento de justiça, determinado a por fim a tudo o que faz Gotham morrer. Após voltar a ser “ele mesmo” — fica para o leitor a definição de quem é a máscara e quem é a persona real — Wayne/Batman não se lamenta uma única vez. Não choraminga indagações à sua existência. Não recua. Sua única manifestação sentimental é o reconhecimento da velhice.

Ao empreender essa transformação, Miller usa uma narrativa entrecortada, com acontecimentos não datados mas claramente separados por diferentes unidades de tempo, que vão de décadas a segundos. No campo espacial, temos referências não só a Gotham mas à ilha fictícia de Corto Maltese, a Chicago, Washington, Metrópolis, União Soviética, Cuba… Espaços geográficos fictícios e reais se misturam, bem como os acontecimentos que atravessam a história, com citações reais à Guerra Fria, elementos de cultura pop como a banda Led Zeppelin, aparecimento e citação de outros heróis do Universo DC e eventos da própria “cronologia oficial” do Batman (é importante ressaltar que O Cavaleiro das Trevas se passa em um futuro hipotético, um Elseworld). O ritmo com que o roteirista e artista logra agrupar todos esses aspectos é muitíssimo bem concebido, alternando as perspectivas narrativas de Gordon para o andrógino Coringa; de Batman para a imprensa; do Superman para Robin e assim por diante… A presença até então inovadora da televisão em toda a história também traz diversos pontos de vista de jornalistas e especialistas, mas todos eles são alvos de críticas ácidas de Frank Miller à imprensa, principalmente em seu funcionamento vicioso no modo como priorizam a futilidade em detrimento da notícia.

O Cavaleiro das Trevas, assim como a maravilhosa Watchmen, representa claramente o tom social e político da Era Reagan: o apocalipse nuclear, o medo do desconhecido e a perspectiva constante de um ataque fatal. Gotham City vive em um caos social que se assemelha muito a essa conjuntura histórica da época. A cidade é dominada pela Gangue Mutante e passa por uma terrível onda de calor. Além disso, vemos adicionado à história o elemento patriótico mais forte, o Superman, que age como emissário da Casa Branca e já na reta final do quarto volume empreende uma luta “pelo seu país” contra o Batman. O fato de Superman ser o único herói “livre” e a serviço do governo (todos os heróis vigilantes foram proibidos de agir) transforma-o em um boneco do Estado. Mas é importante ressaltar que essa perspectiva que nós temos, em sua maior parte, é construída pelo Batman, que vê o Superman como um covarde que presta um desserviço à causa dos heróis e vigilantes. É claro que fica impossível defender o Superman no que se refere à questão ideológica, mas é bom lembrarmos que parte dos valores que temos dele vem, como já dissemos,  do Batman, o seu absoluto oposto.

A melhor parte, no entanto, está no final da aventura. Depois de vencer o Duas-Caras e matar o Coringa; depois de por ordem nas ruas após o ataque nuclear que traz sérias consequências a Gotham; depois do pacto que faz com a gangue dos Mutantes e Os Filhos do Batman; depois da luta contra o Superman e sua fake death, Batman se prepara para uma batalha contra o próprio Estado, o mesmo Estado que permaneceu omisso à sociedade, às periferias, à violência, e que manipulava a voz popular através da mídia… O Estado com líderes governamentais que transferiam responsabilidades a terceiros, que atuava para as câmeras (principalmente o presidente, uma forte referência a Reagan, que fora ator de Hollywood antes de ser político)… Esse Estado é descrito por Bruce Wayne, na batcaverna, e é apresentado como o próximo e mais difícil alvo de sua luta:

 _ Aqui tem início um Exército para trazer sentido ao mundo infectado por algo pior do que ladrões e assassinos.

A luta do Batman passa agora a ter um outro significado. Ele será um oráculo para a nova geração. Frank Miller extrapola todos os sentidos básicos da concepção do herói que luta contra os monstros do seu mundo e sequer se aproxima da fonte primordial de todos os males, o motor gerador dos monstros. No caso de Gotham, a decadente cidade de crimes, pobreza e vícios, o motor gerador é o Estado. Ao invés de programar seus anos para apagar o fogo soprando a fumaça, Batman treina um Exército para enfrentar o fogo. Não há desfecho mais incrível para uma história desse tipo. E muito mais do que no início da saga, temos a noção clara e simbólica do que significa e o que representa o glorioso Cavaleiro das Trevas.

Em tempo: algumas análises e críticas apontam para um “desvio de atitude” do herói no final da história, o que nos faz perguntar essas pessoas: há mesmo uma tendência fascista na concepção final do Batman, em O Cavaleiro das Trevas? Mas assim, de verdade? Porque vejam bem… se formos considerar sua atitude de querer limpar Gotham de tudo quanto ele considera mal, sujo e criminoso, em um sentido generalizador, talvez até seja possível apontar isso. Uma leitura crua. Mas a questão aqui vai além dessa primeira impressão. Se olharmos os outros elementos que cercam e permitiram esta obra (o herói, os vilões, a cidade, a iniciativa inicial e final), veremos um bom contexto para trabalhar os caminhos ideológicos e atitudes do Morcego, então a resposta não será tão simples e imediata quanto parece…

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns) – EUA, 1986
Roteiro e Arte: Frank Miller
Arte-final: Klaus Janson
Cores: Lynn Varley
Letras: John Costanza
Editora nos EUA: DC Comics
Data original de lançamento: fevereiro a junho de 1986 (quatro edições)
Editora no Brasil: Editora Abril, Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: abril a julho de 1987 (Editora Abril – em quatro edições), abril a maio de 1997 (Editora Abril – em quatro edições), março de 2002 (Editora Abril – em duas ediçõe), dezembro de 2006, março de 2007, setembro de 2011 e agosto de 2014 (Panini Comics – edições encadernadas)
Páginas: 223

Você Também pode curtir

58 comentários

Beatriz Lynch 29 de outubro de 2020 - 13:01

Melhor HQ de todos os tempos, sim? Ou com certeza? Hehehe

Responder
Luiz Santiago 29 de outubro de 2020 - 14:00

Uma das melhores, com certeza.

Responder
Thor Odinson 10 de junho de 2020 - 15:25

A história definitiva do Batman. Frank Miller fez um ótimo trabalho tanto no roteiro quanto na arte. As cores da Lynn varley retratam muito bem o espírito e ambiente da obra. A luta com o líder mutante é muito boa, o Batmóvel tanque,O confronto com o Coringa é sensacional,a luta com Superman(feita antes de virar moda) dispensa comentários, as críticas à mídia e ao governo, enfim é a melhor história do Batman. Minha preferida do personagem e está entre as minhas preferidas de maneira geral. Ótima crítica, Luiz Santiago 🙂

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 10 de junho de 2020 - 17:35

Não tem quem fique indiferente a essa HQ. É impressionante o que Miller fez aqui.

Responder
Thor Odinson 10 de junho de 2020 - 18:50

Sim.

Responder
Anônimo 20 de abril de 2020 - 19:12
Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 20 de abril de 2020 - 22:10

É aquele tipo de clássico que a gente lê e pensa “aaaaaaah, por isso todo mundo gosta!!!”.

Responder
Anônimo 20 de abril de 2020 - 21:10
Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de abril de 2020 - 17:02

Gosto muito de algumas fases do Frank Miller e do Grant Morrison. Mas minha lista com maior constância de preferência de obras publicadas desses autores, ficaria assim: Alan Moore, Gail Simone, Enki Bilal, Chris Claremont, Alejandro Jodorowsky, Peter David, Neil Gaiman, Brian K. Vaughan, Louise Simonson, Brian Michael Bendis, Scott Lobdell, Mark Waid, Jack Kirby, Pierre Christin, Jean-Michel Charlier… Tem mais, mas num primeiro impulso de pensamento ficam esses aí.

Responder
Anônimo 21 de abril de 2020 - 15:48
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de abril de 2020 - 17:15

Sim, Jodorowsky também é diretor. Tem crítica para todos os filmes dele aqui no site, por sinal.

Anônimo 21 de abril de 2020 - 15:54
Luiz Santiago 3 de novembro de 2018 - 13:50

De fato é uma história que marca a gente, que definiu ou abriu um monte de fronteiras para os quadrinhos. E você tem razão, @disqus_ZMtFC1obwd:disqus, a fanbase simplesmente pegou a linha marrenta do Batman aqui e simplesmente assentiu pra todo tipo de apelo maluco que os roteiristas fizeram com ele com o passar dos anos.

Responder
Anônimo 3 de novembro de 2018 - 08:10
Responder
084.Batman Cronologia : Strange Apparition (1978) | Blog do Rogerinho 4 de março de 2017 - 10:47

[…] que Batman, mesmo antes de renascer de maneira muito mais pesada nas mãos de Frank Miller, em O Cavaleiro das Trevas e, depois, em Ano Um, já gozava de uma reputação sombria. A percepção geral era que, antes de […]

Responder
Gabriel 3 de abril de 2016 - 03:13

A Melhor HQ do Batman é O CAVALEIRO DAS TREVAS!
Ambientação, conflitos, determinções. A cada diálogo me sinto na cabeça do morcego.

Responder
Luiz Santiago 3 de abril de 2016 - 03:15

É a minha favorita também!

Responder
Luiz Santiago 3 de abril de 2016 - 03:15

É a minha favorita também!

Responder
Gabriel 3 de abril de 2016 - 03:13

A Melhor HQ do Batman é O CAVALEIRO DAS TREVAS!
Ambientação, conflitos, determinções. A cada diálogo me sinto na cabeça do morcego.

Responder
João Pedro Rocha 15 de janeiro de 2016 - 18:06

Cara, hoje mesmo eu tava lendo a hq aqui na internet, estou começando agora a ler hqs, já li watchmen, v de vingança, a piada mortal e estou começando o cavaleiro das trevas, aí me surgiu uma pergunta bem besta rsrs. Será que é melhor começar a ler hqs pelas medianas ou boas, ou começar pelo que tem de melhor (o que eu estou fazendo no momento)? Se eu começar pelas melhores, eu meio que vou me acostumar, ou posso seguir em frente e ler as melhores já feitas sem medo ? É uma pergunta besta, mas estou curioso, e agora parei de ler a hq, só pra fazer a pergunta.

Responder
Luiz Santiago 15 de janeiro de 2016 - 20:43

Olá, João Pedro Rocha! Bem vindo ao planocritico!

Cara, sua pergunta é super válida. E minha dica é: tente ler um pouquinho de cada era do Batman, sem se preocupar muito com “melhores histórias” e tal. Você se acostuma sim, fique sossegado. Mas se quiser seguir em frente com as melhores, manda ver. Depois você passa para arcos menores, alguns de realidades alternativas, esse tipo de coisa. Minha dica é apenas que você procure ler um pouquinho de cada era, para ter um olhar de como o personagem foi tratado ao longo das décadas.

E pode perguntar o que quiser, viu! Aliás, se quiser seguir alguma cronologia, deixo todas as histórias do Ano 1 da ERA MODERNA pra você: https://www.planocritico.com/entenda-melhor-a-cronologia-do-batman-ano-um/

Responder
Alison Cordeiro 2 de janeiro de 2016 - 19:03

Miller inovou em muitos campos com o Cavaleiro das Trevas, e alçou o panteão dos maiores após a obra (e, claro, com a soma de outras igualmente relevantes). Mas um ponto que julgo importante é a liberdade de escrever e dar o final que quiser, sem preocupar-se com a cronologia. Hoje as editoras lançaram mão do reboot para “zerar” os personagens, e tem feito isso com mais frequência, mas estão amarrados de certa forma com o universo dos demais, estando, portanto, impedidos de mexer de fato no “status quo” dos heróis. Sem Liga da Justiça ou outros heróis para se preocupar, exceto os que quis usar para sua estória, Miller pode usar sua criatividade para mexer no Batman, fazer confrontos “definitivos” com vilões como Duas Caras e Coringa. Mérito para sua genialidade, sem dúvida. Por isso defendo que as editoras precisam pensar num outro modelo de histórias, com arcos fechados de dois ou três anos e total liberdade criativa para o autor. Assim, seria possível dar começo, meio e fim para o personagem, usar os coadjuvantes que quiser e trabalhar as consequências para mexer com o personagem. Imagine o impacto na carreira do Batman se um Robin se joga precipitadamente no meio de uma luta e leva um tiro mortal? Ou como seria o ambiente politico de um mundo onde houvesse um Superman, um homem capaz de massacrar com as mãos qualquer exército? Que precauções seriam necessárias? Ou ainda que mudanças teriamos num mundo onde um homem dotado de supervelocidade pudesse voltar no tempo? E por aí vai… Imagino arcos em que o autor se preocupa apenas com o seu universo, insere quem quiser, e aborda os temas que entender melhores. Após contar sua história, pimba, vem outro e faz o mesmo, sob outra perspectiva. Nesse meio tempo, a editora pode manter seu “universo oficial” se quiser. Mas tenho certeza de que teríamos grande chance de outras obras-primas dos quadrinhos. Eu, pelo menos, já pensei em uma dúzia de roteiros com começo, meio e fim para grandes heróis (DC e Marvel), que tenho certeza agradariam mais do que requentar estórias que amanhã já serão esquecidas. E que poderiam trazer novos Caveleiro das Trevas para nós… Abraços!

Responder
Luiz Santiago 2 de janeiro de 2016 - 22:18

Essa preocupação do Miller, sua investida em um universo marcante e com identidade própria… e principalmente com um final que ele construiu sem ter medo e sem ficar preso a amarras editoriais. Isso é o que deixa essa obra ainda mais fantástica… E esse ponto editorial que você levantou, visto em inúmeras histórias, é a prova de que a gente precisa de muito mais obras assim.

Responder
Anônimo 4 de dezembro de 2015 - 11:29

O Cavaleiro das Trevas é muito bem escrito, mas não sou fã da estória. Gosto muito da parte do Duas Caras e do Coringa, mas aquela enredo dos mutantes e do Superman foi algo que me desagradou muito. Diferente da maioria, eu não gosto de lutas entre o Batman e o Superman, já que isso não passa pela suspensão da descrença.
Gosto muito das estórias urbanas e investigativas do morcego, sendo assim, eu as que mais gosto são:
Ano Um
A Piada Mortal

O Cavaleiro das Trevas é responsável pela lavagem cerebral que fizeram os fãs acreditarem que o Batman pode vencer todo mundo.

Responder
Luiz Santiago 4 de dezembro de 2015 - 12:33

Não vejo O Cavaleiro das Trevas como responsável por uma “lavagem cerebral” como você falou. É fato que muitos leitores acabam lendo a obra e “vendo o que querem”, não contextualizando o que quis ser passado e, de fato, o que o Miller quis passar através do enfrentamento. Eu vejo a obra como seminal e definidora para o Batman desse “novo momento” da história, mesmo que, anos depois, muita gente leia isso errado e saia pregando apelações do morcego pra cima e pra baixo. A meu ver, a culpa não é da obra, é do leitor.

Responder
Anônimo 4 de dezembro de 2015 - 12:47
Responder
Luiz Santiago 4 de dezembro de 2015 - 15:25

Não, não acho. A culpa é do leitor sim. Ao ler uma obra, é necessário que haja contexto e cuidado da parte do leitor, especialmente se estamos falando de um personagem tão icônico como o Batman. O que o Miller fez foi pegar uma linha alternativa e criar uma história de possibilidades onde o enfrentamento é A COISA MENOS IMPORTANTE (embora comercialmente mais instigante) da obra. Se a única coisa à qual o leitor presta atenção é isso, tal loucura prova o quão rasa é a leitura. Discordo que haja desvirtuamento. O que temos aqui é uma possibilidade muitíssimo bem contextualizada. Eu até veria algo desvirtuado se não houvesse um mundo e uma situação que fizesse o Batman ser o que foi nessa história. Mas a justificativa existe.

Sobre a grandeza, é claro que existe e bem forte aqui. Mas ela não é maior do que deve. Ao menos essa é a minha leitura. Até porque eu não sou o tipo de leitor que acha que o Batman é o Grande Foderoso embora ele seja meu herói favorito, empatado com o Demolidor, santa ironia. E eu conheço muita gente que leu esta obra e não se sentem ou foram ou agem como brainwasheds. Ainda sustento o que disse antes: qualquer insanidade de interpretação vem do leitor, não da obra. Não porque não há grandeza ou o Batman não seja colocado como um baita de um guerreiro aqui. Mas é isto que ele é. Ele não está fazendo nada diferente do que já fez. E melhor: ele tem contexto para isso.

Mas enfim,são formas diferentes de olhar para a mesma coisa, claro.

Responder
planocritico 5 de dezembro de 2015 - 11:39

Posso dar meu pitaco nessa interessantíssima conversa, @luizsantiago:disqus?

Concordo com seus pontos sobre o olhar do leitor sobre algo que não é o ponto da história e que é trabalhado dentro de um contexto que torna o embate perfeitamente crível e honesto. Miller trabalhou com um Batman, digamos, 85% amargo, já mais velho, mudado, em um mundo diferente. O mesmo vale para o Superman, mas quase que no espectro oposto. Há toda uma lógica por trás da luta acabar como acaba e um dos aspectos mais importantes é justamente a “ética” (por falta de palavra melhor) com que o Superman luta.

Agora, por outro lado, vejo que o leitor não está sozinho nessa culpa interpretativa. A DC Comics, levada pelo sucesso comercial absoluto dessa GN, meio que forçou seus roteiristas a expandir “os poderes” de Batman, inclusive repetindo o embate Batman versus Superman basicamente sempre que possível, em circunstâncias das mais idiotas e sempre dentro da continuidade, ou seja, não em um universo próprio. Com isso, veio a banalização do conceito de Miller, banalização essa que eu acho que o autor percebeu e usou de maneira satírica em DK2, que todo mundo detesta, mas que eu vejo justamente como um brincadeira de Miller com a transformação que ele mesmo, inadvertidamente, causou na percepção de quem é o Batman.

Abs,
Ritter.

Luiz Santiago 5 de dezembro de 2015 - 11:56

É interessante olhar por esse lado, porque amplia a discussão para um lado que eu devo concordar: a criação inadvertida vinda a partir da obra do Miller. A minha oposição ao Pedro, nos comentários acima, foi da colocação da obra como sendo intenção do Miller e encabeçar esse tipo de coisa e claramente não foi, a obra tem um significado e ele não é, definitivamente, fazer um Batman-Deus. Mas uma coisa é verdade: a DC pegou isso e transformou o Morcego e um herói que às vezes parece o Dr. Manhattan. hahahah Isso é verdade. Mas eu defendo o Miller!

planocritico 5 de dezembro de 2015 - 11:59

Também defendo o Miller! O Cavaleiro das Trevas não tinha mesmo essa dimensão que acabou ganhando nas mãos de fãs cegos e roteiristas aproveitadores. Miller fez o seu Batman e uma história definitiva sobre o herói sim.

Abs,
Ritter.

Luiz Santiago 6 de dezembro de 2015 - 09:57

Pior que tem roteirista que acaba tendo obras supostamente “famosas” e com certo apelo de público justamente por investir nesse linha de Batman-Deus. Nesse ponto, estou totalmente de acordo. E o negócio chegou a um nível e infectou tantos leitores e tantos artistas que fica difícil tirar. Vai tempo…

Carlos Souza 7 de janeiro de 2016 - 09:24

Caras, eu concordo com tudo que foi dito, e ainda acrescento que como foi dito no começo desse bate papo, autores deveriam ter duas linhas para seguir, uma cronológica onde a historia do personagem era seguida a risca, e uma linha livre de grilhões(nem sei como chamar isso). Essa sempre foi uma formula de sucesso, quem não se lembra do “Túnel do tempo” onde a DC permitia que o Batman e muitos outros heróis fossem tirados de seu habitat natural e colocado em situações e épocas diferentes, já vi “Batman Cidadão Wayne”, “Gotham City 1889”, “A guerra de secessão” e tantos outros , acho que no original eram chamados de “Elseworlds, claro que alguns eram melhores que outros obvio.

Luiz Santiago 7 de janeiro de 2016 - 15:00

Exato, @disqus_hCaGcH8Bra:disqus. A possibilidade de fazer coisas diferentes para o grande público tem até a vantagem de que esse material irá alcançar muita gente e pode ajudar a mudar ou acrescentar coisas novas na visão mais engessadinha que alguns possuem dos heróis. Ainda existem esse tipo de publicação, mas a meu ver, com lançamento e distribuição cada vez mais obscura…

Carlos Souza 7 de janeiro de 2016 - 09:11

Cara com todo respeito, se você ler “Elektra Assassina” que também é do Miller, vai entender o verdadeiro significado de invencível, porém como “Cavaleiro das trevas”, não é cronológica e foi escrita sob total liberdade. Eu concordo com o Luiz, a culpa dessa modinha de Batminvencivel, foi criada por leitores que não sabem diferenciar o cronológico do atemporal. E se fosse uma obra para “exaltar” o Homem Elástico ele também teria derrotado o super de alguma forma.

Responder
Luiz Santiago 7 de janeiro de 2016 - 15:04

Exato! São duas coisas em um ponto só: a dificuldade que alguns possuem em contextualizar e entender a proposta de uma obra e o exagero competitivo que parece ter tomado conta de leitores de quadrinhos ou grupos que consomem produtos com super-heróis. Eu particularmente gosto muito de dar essa carta final aqui às briguinhas e perguntas sobre o tema:

https://www.youtube.com/watch?time_continue=19&v=L4_zFYnnn2Y

Carlos Souza 7 de janeiro de 2016 - 16:06

Fantástico, esse é o velho safado que eu mais gostaria de apertar a mão, Stan Lee.

Luiz Santiago 7 de janeiro de 2016 - 16:29

Velho safado. hahahahahahaha
Eu também gostaria muito de cumprimentá-lo! Ele é foda!

Cristiano de Andrade 25 de novembro de 2015 - 10:53

Uma das melhores historias de todos os tempos!

Tenho um carinho especial por ela pois consegui o encadernado de uma forma curiosa: na fest comix de 2011 fiquei em terceiro lugar no torneio do jogo Marvel x Capcom 3 e ganhei um vale compra e troquei pelo encadernado.

Responder
Luiz Santiago 4 de dezembro de 2015 - 12:30

Fez uma excelente troca, hein!

Responder
Matheus 24 de novembro de 2015 - 11:23

Essa história é simplesmente incrivel, a unica coisa que eu não gosto e nem é por culpa da história ou do Frank Miller, é que os autores seguintes transformaram Batman em algo invencivel, o famoso Batman com preparo ganho de qualquer um, acabando com toda humanidade do personagem.
Mas essa história e a Queda de Murdock ambas do Miller estão entre as minhas favoritas.

Responder
Luiz Santiago 24 de novembro de 2015 - 12:26

Essa banalização do personagem, que “vence tudo” é chata mesmo. Não gosto disso também não.

Responder
luis antonio 15 de março de 2016 - 15:53

eu gosto! pra mim uma das coisas que mais gosto é do batman “invencivel”

Responder
Luiz Santiago 16 de março de 2016 - 00:15

Haaha, isso acaba variando de leitor para leitor mesmo, não tem jeito. Mas na boa: você não enjoa dessa apelação não?

Responder
Luiz Santiago 16 de março de 2016 - 00:15

Haaha, isso acaba variando de leitor para leitor mesmo, não tem jeito. Mas na boa: você não enjoa dessa apelação não?

Responder
CrazyDany 10 de julho de 2019 - 23:27

Também acho que é o que torna o personagem mais interessante do que os outros vigilantes humanos com suaseu histórias de superação batidas e clichés que se repetem a exaustão. Acho o chamado roteirismo, quando bem aplicado, um elemento intessantissimo, como o Morrison fazia tão bem.

CrazyDany 10 de julho de 2019 - 23:27

Concordo com você!

Responder
luis antonio 15 de março de 2016 - 15:53

eu gosto! pra mim uma das coisas que mais gosto é do batman “invencivel”

Responder
Anônimo 4 de dezembro de 2015 - 11:31

Mesma concepção que eu tenho, Matheus.

Responder
Oswald 23 de novembro de 2015 - 21:42

Otima crítica, sem dúvida nenhuma Uma das HQs mais importantes da história onde nós somos apresentados para um bruce wayne bem diferente do que aquele que costumávamos ver, acho que a partir desse ponto as histórias do morcegão assim como de outras HQs começaram a ter um dom mais sombrio.
Mas é preciso mais do que tudo destacar a genialidade de frank miller, existe um lado de opressão nessa história, não que seja exatamente fascista mais de um homem tentando lutar contra um estado que não debate o que é ou não ideal para o seu povo.
E essa é figura do batman um homem acabado,velho,louco porem corajoso julgando ser a lei contra um sistema Opressor e impotente com seus cidadãos, um homem resistente que tenta mostrar que o poder sempre estará na mãos daqueles estão impotentes.
Mas o verdadeiro triunfo dessa hq é a posição ideológica e política que miller nos apresenta, Dark knight returns é uma hq além do nosso tempo que pode ser muito bem concebida sobre os olhos de nossa atual sociedade.

Responder
Luiz Santiago 23 de novembro de 2015 - 23:14

Exato, cara. É uma história que realmente coloca ideias fortes e o Wayne em uma posição que espanta o leitor. O curioso é como o Estado é retratado ao longo de toda a história e como o personagem se dispõe a lutar contra ele no final. É daquelas histórias para você ler e descobrir uma nova visão/interpretação a cada vez!

Responder
Rilson Joás 23 de novembro de 2015 - 17:44

Grandioso arco, cheio de momentos icônicos e bem pontuado por você.
Rejeito a leitura de uma tendência “fascista” do Batman e é bom saber que não sou o único a pensar isso.

Responder
Luiz Santiago 23 de novembro de 2015 - 20:37

Também fico feliz saber que não sou o único que não vê fascismo ali. Não se olharmos com atenção e contextualizarmos corretamente a coisa…

Responder
Claudinei Maciel 24 de outubro de 2015 - 22:47

Essa série eu tenho em três versões: a primeira em 4 edições da Abril em 1986, o relançamento dos anos 90 e o encadernado dos anos 2000. E confesso que não consigo emprestar para ninguém levar. Muitos amigos leram aqui em casa… e elas estão devidamente guardadas.
É uma obra prima que ditou o caminho que os quadrinhos deveriam seguir, e foi uma influência para o bem e para o mal em tudo o que foi produzido depois.
Eu lamento muito que nunca foi utilizado o título americano da obra “O Cavaleiro das Trevas Retorna”, mas mercadologicamente era melhor esse título à época.
Mas é um trabalho fantástico e seminal de um artista incrível.
Frank Miller se tornou um dos nomes do panteão dos melhores, a famosa trindade Miller-Moore-Gaiman que assombrou os anos 80 com suas obras fantásticas.
Sou grato ao velho Frank por nos ter dado essa obra, à DC pela coragem e insight de publicar e aos artistas que vieram depois e notaram que os fãs de quadrinhos crescem também… Obra prima 5 estrelas, sem dúvida.

Responder
Luiz Santiago 27 de outubro de 2015 - 22:18

Vejo que você é tão apaixonado como eu e acho que a maior parte dos leitores que conferiram essa maravilha. Eu tenho duas versões e também não consigo emprestar para ninguém. É daqueles xodós para se guardar como relíquia mesmo.
E cara, a contribuição dessa obra para a história dos quadrinhos contemporâneos é mesmo colossal. Obrigatória e seminal, de fato!

Responder
CESAR CARNEIRO 4 de março de 2014 - 17:11

Simplesmente apaixonante, não consigo nem emprestar o meu, guardado a sete
chaves……sempre é um prazer ler, reler, a sétima arte dos quadrinhos….E esta bota na cara do “perfeitinho”, a melhor “bota” dos quadrinhos….excelente crítica…

Responder
Luiz Santiago 22 de novembro de 2015 - 21:25

É daquelas para se ler de tempos em tempos mesmo! Especialmente para ver a “bota na cara do perfeitinho”, como você bem colocou. hhaahah

Responder
Erik Blaz Dos Santos 23 de janeiro de 2014 - 11:47

Adorei a tua crítica, xará!

Responder
planocritico 23 de janeiro de 2014 - 18:42

Valeu, Erik!
Luiz

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais