Crítica | Batman: O Peixe Que Ri (Detective Comics #475 e 476 – 1977)

Conhecido no Brasil por diversos títulos diferentes (confiram a ficha técnica aqui embaixo), o arco de dois números O Peixe Que Ri, do final de 1977, é uma das histórias mais estranhas, talvez surreais e, provavelmente por isso mesmo, famosas envolvendo o Coringa e que ganharia até uma adaptação em Batman: A Série Animada (Episódio 1X46). Não sei sob que tipo de influência alucinógena Steve Englehart estava para ter essa ideia, mas seja como for, ele marcou para sempre o cânone do Homem-Morcego com os infames peixes-coringa ou, talvez, melhor batizando, os verdadeiros peixes-palhaço (se cuida, Nemo!).

Na história, o Coringa tem um dos planos mais surtados de sua carreira de arqui-vilão: ele envenena todos os peixes pescados nos EUA com sua neurotoxina que faz com que os bichos passem a ter seu rosto enlouquecido (com direito a arcada dentária e lábios vermelhos!!!) e, ato contínuo, tenta registrar a “imagem” como direito autoral para poder cobrar royalties de cada peixe comido. Sim, é isso mesmo que você leu. Mesmo que isso juridicamente não faça o menor sentido e os peixes em si sejam uma viagem lisérgica daquelas de fritar o cérebro, é impossível não abrir um sorriso com essa completa doideira que saiu da cabeça de Englehart e que Marshall Rogers dá vida de forma esplêndida, sem tentar nenhum tipo de pegada mais realista.

Tendo sua pretensão frustrada pelo que ele chama de burocratas do Escritório de Direitos Autorais, o Coringa passa a matar um a um na esperança de conseguir o tal registro e Batman, juntamente com a polícia de Gotham, precisa correr atrás dos planos maquiavélicos do Palhaço do Crime. A narrativa de “gato e rato” é muito divertida e bem conduzida por Englehart, que mantém o vilão, apesar do plano maluco, dentro do espírito da reformulação que recebeu a partir de 1973 com A Vingança do Coringa: ele é um assassino violento e psicopata incapaz de sentir alguma coisa por quem quer seja, com exceção do Batman.

Mas há dois grande problemas no arco. O primeiro deles é que simplesmente não há material suficiente para contar uma história que exija duas edições. Ela deveria ser um curto e memorável one-shot, sem enrolações. O segundo problema é decorrência do primeiro ou, talvez, a origem do primeiro: há questões paralelas demais acontecendo, sem conexão com a narrativa principal. Sim, tenho plena consciência que esse é um arco dentro de uma publicação mensal, mas isso não é desculpa nem licença para que Englehart quebre constantemente a história dos peixes para lidar com situações que já vinham ocorrendo na vida do Batman, mais precisamente a morte de Hugo Strange e o surgimento de seu “fantasma” e a descoberta, por Silver St. Cloud, de sua identidade secreta, algo que ele desconfia, mas não tem certeza que aconteceu.

Com esses assuntos periféricos, a história se perde e Rogers, com sua arte mais sombria e detalhista, é obrigado a desviar as páginas para lidar com esses assuntos, tumultuando a progressão de quadros. Claro que sua arte, no geral, é sensacional graças ao cuidado dele com a ambientação e a forma como ele lida com a chuva (há um tempestade por boa parte da narrativa), além dos corpos humanos, notadamente Batman, Coringa e Silver, mas seus quadros acabam tumultuados aqui e com transições que nem sempre funcionam dada a disparidade de questões sendo discutidas no roteiro de Englehart.

No entanto, mesmo com seus problemas, O Peixe Que Ri é um arco inesquecível na notória carreira do Coringa e de fato merece o destaque que recebeu ao longo dos anos. Afinal, a mistura do sinistro vilão com peixes sorridentes com dentes afiados, batom vermelho e “rosto” branco, direitos autorais e o Batman aturdido e correndo atrás do prejuízo sem nem ligar para os peixes si é ouro narrativo!

Batman: O Peixe Que Ri (Batman: The Laughing Fish, EUA – 1977)
Contida em: Detective Comics #475 e 476
Roteiro: Steve Englehart
Arte: Marshall Rogers
Arte-final: Terry Austin
Cores: Marshall Rogers
Letras: Ben Oda
Editoria: Julius Schwartz
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: novembro e dezembro de 1977 (banca)
Editoras no Brasil: Editora Ebal (Os Peixes Sorridentes), Editora Abril (O Tétrico Sorriso da Morte), Panini Comics (O Peixe Risonho), Editora Eaglemoss (O Peixe Que Ri)
Datas de publicação no Brasil: maio de 1978 (Ebal – Batman 4ª Série # 14), março de 1986 (Abril – Superamigos #11), dezembro de 2015 (Batman – Lendas do Cavaleiro das Trevas: Marshall Rogers #1) e maio de 2017 (DC Comics – Coleção de Graphic Novels #39)
Páginas: 38

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.