Crítica | Batman: Perseguição

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SPOILERS!

Se considerarmos que esta aventura — um conto de duas edições, parte da série Lendas do Cavaleiro das Trevas, publicado em 1998 — se passa no meio do Ano 2 na linha do tempo do Batman (Era Moderna), temos de imediato uma grande estranheza no texto de Lee Marrs: o fato de que a anarquista vingativa que é perseguida pelo herói não faz a mínima ideia de quem ele seja. Não é nada provável que alguém que vivesse em Gotham depois de Ano Um ignorasse a existência do Morcego vigilante, ainda mais se falamos de uma pessoa que, assim como o “ilustre desconhecido” aqui, prefere trabalhar nas sombras.

A trama se passa no início do verão de 1990 e o modelo de narração adotado é uma mistura de crônica jornalística e diário, com pequenas intervenções de diálogos. Somos convidados a pensar inicialmente sobre a familiaridade do Batman com os becos da cidade, os cantos escuros, os segredos, pistas, sons e movimentos que poucas pessoas conseguem perceber. O leitor imagina que daí o roteiro vai passar para uma ação robusta onde a “perseguição” do título deve iniciar, mas este não é o caminho tomado por Marrs. O autor estende em demasia os quadros narrativos, praticamente fazendo poesia sobre a escuridão e sobre as habilidades do Batman, o que não parece algo muito inteligente em uma aventura que não apresenta nada diferente daquilo que o leitor está cansado de ver.

Pelo menos esse preâmbulo poético serve para criar um espelho em relação à motociclista do capacete vermelho que vem atacando diversos locais de Gotham, sempre à noite e sempre no Distrito de Jim Gordon. É questionável que nem o policial nem Batman tenham cogitado uma espécie de vingança por parte da criminosa, já que esta é a pista mais óbvia a ser seguida. Essa falta, porém, não constitui um real problema. Por outro lado, o autor opta pelo caminho mais difícil, intricando o texto, ampliando a busca de pistas ocultas e marcas deixadas pela criminosa… coisas que até funcionam um pouco, porque dão suporte à promessa do conto (Perseguição), mas fazem com que o desenvolvimento de personagens e da própria justificativa para que tudo isso existisse fossem muitíssimo comprometidas.

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Gordon sob pressão.

O leitor consegue entender a necessidade de manter a vilã oculta a maior parte do tempo. Isso faz parte do mistério, é uma opção válida e segue do começo ao fim representada com muita qualidade pela arte cheia de detalhes e com diagramação sugerindo constante mudança de lugares e urgência da linha de ação realizada por Eddy Newell, de longe, a melhor coisa desse arco. O que não dá para entender é que o texto deixe de dar mais substância à vilã e à suas atitudes (ou seja, a jornada de vingança por ter perdido o marido após uma ação policial de Gordon, algo compreensível no campo emocional, mas patético como gancho narrativo) para fazer valer um passeio de moto por Gotham e encurralar um pouco o Morcego, que inicialmente fica sem saber que caminho tomar, já que tem alguém com o mesmo modus operandi que ele matando gente e explodindo prédios pela cidade toda.

O final é um outro ponto sem nó. Mais uma vez, começa com um bom princípio, só que aos poucos se perde, justamente pelo motivo que apontei acima: falta espaço para a construção de uma justificativa mais ampla ou motivações ou elementos particulares que sustentem de verdade a trilha de sangue. Genericamente falando, a história entrega aquilo que promete, porque a perseguição de fato acontece — e sim, existem momentos emocionantes nas duas edições, quase totalmente conseguidos através da arte — e o os clichês que se esperam desse tipo de história também estão aqui. Mas a aproximação dos atos centrais com o título não basta. Perseguição fica acima da média por ter uma ótima arte, pela ideia geral e pelos bons momentos pontuais do roteiro, mas trata-se de uma história esquecível e pouco imaginativa do Morcegão.

Batman: Perseguição (Batman: Legends of the Dark Knight Vol.1 #107 – 108 – Stalking) — EUA, 1998
Roteiro: Lee Marrs
Arte: Eddy Newell
Cores: Digital Chameleon
Letras: Willie Schubert, Brad Anderson
Capas: Eddy Newell
50 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.