Home QuadrinhosMinissérie Crítica | Batman Preto e Branco (1996)

Crítica | Batman Preto e Branco (1996)

por Guilherme Coral
257 views (a partir de agosto de 2020)

O que é realmente frustrante é imaginar como essa série poderia ter sido se alguns dos mestres do passado ainda estivessem vivos.
-Mark Chiarello

estrelas 5,0

Inspirado pela revista Creepy – Contos Clássicos de Terror, que reúne diferentes histórias, de diversos autores, dentro de uma mesma temática, Mark Chiarello, após uma conversa com diversos artistas do ramo, teve a ideia de realizar um projeto similar focado no Homem-morcego. Já como editor das revistas do herói, Chiarello cria o projeto Batman Preto e Branco, trazendo para suas quatro edições, nomes de destaque dentro do cenário dos quadrinhos, tanto ocidentais, como Neil Gaiman, quanto orientais, mais especificamente Katsuhiro Otomo, responsável pelo incrível Akira. Com uma maior liberdade criativa essas pessoas poderiam abordar diferentes aspectos do vigilante mascarado, de sua mitologia, garantindo histórias que em muitos fatores se diferenciam do que costumamos ler quando se trata de Batman.

É justamente essa liberdade que torna a revista tão atrativa, não só reunindo roteiros incrivelmente criativos, como traçados nada convencionais. A limitação do preto e branco, no fim, se torna um elemento expansivo, forçando cada desenhista a explorar as infinitas possibilidades dentro da proposta. Impossível não se deixar impressionar com vinte histórias colecionadas com artes tão distintas uma das outras, que vão de linhas similares ao cubismo de Matt Wagner, passando pelo traçado de Batman: The Animated Series de Bruce Timm, até uma espécie de surrealismo presente nas páginas ilustradas por Simon Bisley. Perante todas essas diferenças, contudo, encontramos um ponto em comum que se mantém quase que na totalidade das edições: a ausência do dégradé. O título da obra não poderia descrever melhor, ao passo que as páginas fazem uso apenas do preto e do branco, dispensando os tons de cinza que poderíamos esperar, criando uma ainda maior riqueza em cada página.

Como vai a família?

Como vai a família?

Toda a criatividade da arte ainda consegue perfeitamente se encaixar com cada trama presente nessa coletânea, dialogando com os personagens em quadro e contribuindo fluidamente para a criação de cada tom, seja uma abordagem mais adulta, como em Criando Monstros, de Jan Strnad ou uma retratação dos anos 50, o auge do American Way of Life em uma história que trabalha, justamente, em cima de seu declínio. Aqui não posso deixar de destacar esse fragmento de Preto e Branco, nomeado Pequenos Crimes, que foca em um cidadão comum realizando crimes baseados em situações cotidianas, como desrespeito na sala do cinema ou péssimo atendimento ao cliente. O roteiro de Howard Chaykin abre uma via direta com o leitor, expondo muitas de nossas vontades secretas, nossos acessos de fúria interna.

O verdadeiro “astro” da revista, contudo, é Neil Gaiman, que apoiado pelos traços surrealistas, já citados, de Bisley, cria uma narrativa completamente inesperada. Nela, Batman e o Coringa trabalham como personagens de quadrinhos, como atores que simplesmente gravam suas cenas e, em seguida, voltam a suas vidas normais. São páginas completamente indescritíveis, que conseguem trazer risadas do leitor, mesmo diante de uma arte perturbadora. O traçado, enfim, adota seu significado duplo, denotando que há algo de errado naquelas páginas, como um sonho ou pesadelo, distorcendo a realidade que já conhecemos.

Este, porém, é apenas mais um exemplo das amplas possibilidades que Batman Preto e Branco nos traz. Com uma diversa miríade de autores, o que temos são páginas indispensáveis para qualquer leitor dos quadrinhos – histórias curtas, dinâmicas que não precisam ser lidas em ordem ou juntas uma da outra. É como um livro de cabeceira, nos permitindo abri-lo a qualquer hora do dia para nos depararmos com algo definitivamente não convencional. Leitores novos ou antigos do homem-morcego irão se impressionar com estas páginas, cuja arte e roteiro, definitivamente, permanecerão em nossas mentes.

Batman Preto e Branco (Batman Black and White) – EUA, 1996
Minissérie em 4 edições
Lançamento no Brasil:
Panini Books (encadernado de luxo)
Roteiro:
Ted McKeever, Bruce Timm, Joe Kubert, Howard Chaykin, Archie Goodwin, Walter “Walt” Simonson, Jan Strnad, Kent Williams, Chuck Dixon, Neil Gaiman, Klaus Janson, Andrew “Andy” Helfer,  Matt Wagner, Bill Sienkiewicz, Denny O’ Neil, Brian Bolland, Archie Goodwin, Denny O’ Neil, Katsuhiro Otomo 
Arte:
Ted McKeever, Bruce Timm, Joe Kubert, Howard Chaykin, José Muñoz, Walter “Walt” Simonson, Richard Corben, Kent Williams, Jorge Zaffino, Simon Bisley, Klaus Janson, Gaetano “Tanino” Liberatore, Matt Wagner, Bill Sienkiewicz, Teddy Kristiansen, Brian Bolland, Kevin Nowlan, Gary Gianni, Brian Stelfreeze, Katsuhiro Otomo 
Páginas:
246

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5 comentários

Gabriel 13 de dezembro de 2018 - 08:30

Ótima mesmo. Se não me engano teve uma outra série publicada em 2013 (meio aos novos 52) que até hoje a panini não publicou. Fica a expectativa de sair por aqui.

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Carlos Souza 17 de novembro de 2015 - 11:59

Talvez eu esteja enganado, mas um verdadeiro artista só consegue demonstrar seu talento quando ele trabalha em preto e branco, sem o auxilio de cores para demonstrar o que a sua arte deseja nos passar, desde que li “Batman Preto & Branco” não consigo tirar esse pensamento da cabeça. Percam horas nessa HQ, Brian Bolland é uma lenda viva, Richard Corben já deixou essa realidade e deve estar vivendo com os deuses. Senti muita falta do Mignola. Muito obrigado Guilherme e a todos!!!!

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Paulo Vieira 31 de dezembro de 2014 - 22:15

Ler essa crítica me fez querer reler novamente, ótima história. Só pra constar creio que a crítica é somente sobre a primeira minissérie, sendo que esse encadernado da panini pelo número de páginas citados ai cima deve conter as duas minisséries, e na minha opnião a segunda não tem histórias tão brilhantes como a primeira. Nesse caso a primeira minissérie e somente ela foi lançada aqui no brasil também pela editora Abril. Portanto, (aonde eu queira chegar) bem mais barato kkkkk.

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Rilson Joás 30 de agosto de 2014 - 14:26

Tenho que ler!
Necessidade level extreme!

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Guilherme Coral 30 de agosto de 2014 - 20:42

Vale cada centavo, Rilson! E leia com calma 😉

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