Crítica | Batman: Silêncio (2019)

“Talvez algum dia.”

A adaptação cinematográfica de uma das mais conhecidas obras envolvendo o Homem-Morcego, o arco Batman: Silêncio, está presa também a outras amarras que não sejam respeitar o material original. Esse longa em questão é igualmente parte do universo compartilhado de animações da DC Comics, mais problemático até que o roteiro de Jeph Loeb no arco. Ao menos, cederia-se um porquê para os roteiristas proverem mudanças a uma narrativa com seus empecilhos naturais. O projeto, no caso, é inspirado em quadrinhos que não justificam em si o apreço conquistado. Mas as distinções que surgem de uma mídia para a outra e o que elas significam para a estrutura desse longa-metragem terminam se tornando o maior confronto da animação. Pois os responsáveis pela obra conseguiram o improvável, piorando o que já era bastante mediano. Os equívocos cometidos anteriormente no arco são retomados e novos, surpreendentemente, são criados na busca por dar qualquer senso de originalidade ao projeto. Já a arte de Jim Lee some, margeando, contudo, em uma troca que soa injusta demais, uma versão minimamente superior dos usuais traços genéricos que unem só em mediocridade esse universo compartilhado de produções animadas sem coração.

Os equívocos da animação moram na apresentação e exploração de suas questões centrais, o que prova-se um enorme fracasso, pois não há coerência ou veracidade. Batman (Jason O’Mara), no longa-metragem, está repensando o seu relacionamento justo com a Mulher-Gato, Selina Kyle (Jennifer Morrison). Há uma necessidade, consequentemente, do casal possuir uma química mais provocante rolando em cena. O jogo de máscaras também está presente, porque Selina não sabe que o bilionário Bruce Wayne é o Batman, mas se envolve com ambos. Nesse sentido, o roteiro é eficiente em colocar o relacionamento entre os dois como o centro das atenções, e, assim sendo, o questionamento deles funcionarem como um casal torna-se prioridade. Mulher-Gato é quase uma co-protagonista, portanto. Contudo, ao passo que certas ameaças explícitas e implícitas agravam as noites de Gotham, o código moral de Batman, no qual o personagem não mata nenhum dos seus rivais, vira uma problemática para o casal. Porém, esta é uma questão nascida nos instantes derradeiros da obra, soando vazia e inoportuna. O amor proibido não é construído, nem mesmo um teor determinista, mais trágico, que acentuaria as complexidades necessárias a esse amor ser real.

A costura dos acontecimentos e como se encaixam dentro de uma estrutura de desenvolvimento de personagens, juntamente com a progressão narrativa, também gera um desastre. As mudanças que acontecem no enredo basicamente minam a relevância de uma boa parte dos coadjuvantes apresentados – e, dentre elas, a ausência de Jason Todd exemplifica o quão pouco expressiva é a jornada emocional proposta. Em segunda instância, o roteiro é uma bagunça apressada, que não consegue organicamente continuar a proceder o seu mistério principal: quem é Silêncio, esse novo vilão que está orquestrando um plano gigantesco para destruir o Batman. Enquanto a obra original compunha um arco de mais de 250 páginas, a animação se encerra antes dos seus 90 minutos, recheados de descobertas e indagações, apesar de mal preparadas e resolvidas. Em meio a isso, Thomas Elliot (Maury Sterling), um cirurgião renomado e amigo de infância de Wayne, desponta como uma novidade para os espectadores. O diretor Justin Copeland, contudo, não se preocupa em aprofundar o vínculo entre o protagonista e este seu parceiro de longa data, mesmo um central acontecimento da trama implorando por isso, o que tornaria esse evento dramaticamente operante.

Em contrapartida a essas construções, pontuações abruptas vão surgindo gradualmente, como é o caso da primeira intervenção da animação acerca da noção moral do Batman. A sequência em questão, no caso, envolve o Coringa (Jason Spisak), logo o nêmesis consagrado do personagem. O problema, porém, é que mira em A Piada Mortal, no que tange intensidade, mas acerta Batman Eternamente. Basicamente todos os processos narrativos da obra envolvem esse distanciamento de qualquer amarração dramática ou então narrativa. Até mesmo o Charada (Geoffrey Arend), de certa forma engrandecido, tem que confrontar o seu surgimento tardio, apenas no terço conclusivo. O vilão ganha uma extensão de papel que afronta a real criação de um mistério instigante. A única aparição da Batgirl (Peyton List), ademais, poderia ter sido trocada tranquilamente com a do Asa Noturna (Sean Maher), que ao menos possui bons momentos de interação com Batman. Se em alguma instância, portanto, a obra funciona é ao executar determinadas situações envolvendo o relacionamento amoroso principal. Tais cenas prendem-se à carga do espectador, conhecedor do amor proibido por conta de outras mídias, para ganharem vigor, o que fomenta um carisma pontual.

Mesmo assim, a animação ironicamente perde sua voz, em tentar renovar o material original, pelo modo com que Justin Copeland encena grande parte dos encontros. Um dos enquadramentos no rosto de Elliot, por exemplo, quando o cirurgião sai de um quarto hospitalar onde atendia Bruce, consegue ser até desonesto. Antes disso, a obra era mais silenciosa – objetivamente também, por causa da trilha-sonora quase inexistente – e descompromissada – vide os encontros esporádicos com arqui-inimigos do protagonistas. As mentiras não existiam ainda no nível como se revelariam. O que não funcionava, como a primeira sequência no salão, era por ausência de tato. Bem mais que um jogo de aparências, Batman: Silêncio prova ser, entretanto, um jogo de mentiras, dos seus realizadores com os seus espectadores, querendo ser mais espertos, apesar de não serem. Não é como se a participação da Lady Shiva (Sachie Alessio) antecedesse um encontro significativo com a Liga dos Assassinos, pois serve apenas para antecipar um ponto da resolução. E gratuitamente, porque a informação comentada não serve à nenhuma construção concreta, visto que a reviravolta é praticamente um presente de exposição. O longa deixa de ser inofensivo para poder nos ofender.

Batman: Silêncio (Batman: Hush) – EUA, 2019
Direção: Justin Copeland
Roteiro: Ernie Altbacker
Elenco: Jason O’Mara, Jennifer Morrison, Maury Sterling, Sean Maher, Geoffrey Arend, James Garrett, Jerry O’Connell, Rebecca Romijn, Bruce Thomas, Rainn Wilson, Peyton List, Stuart Allan, Vanessa Williams, Peyton List, Jason Spisak, Hynden Walch, Adam Gifford, Sachie Alessio, Chris Cox, Tara Strong
Duração: 82 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.