Crítica | Batman, Superman e Monstro do Pântano (1975 – 1995)

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O presente compilado reúne três encontros do Cavaleiro das Trevas com o Monstro do Pântano, cada um escrito por um roteirista diferente. A primeira dessas aventuras foi escrita por Bob Haney, em 1975. A segunda aventura foi escrita por Martin Pasko, em 1981. E a terceira, por Doug Moench, em 1995. Como as três aconteceram em Eras diferentes das publicações do Pantanoso e do próprio Batman, vale relembrar que as habilidades e o tratamento dado aos personagens mudam em cada uma dessas edições.
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A Hora da Fera

The Hour of the Beast

A Hora da Fera marca o segundo encontro do Monstro do Pântano com o Batman, tendo o primeiro deles acontecido em A Conspiração Leviatã. Seguindo exatamente o padrão das histórias do Monstro naquele momento dos anos 1970, que estava centrado na fuga do personagem das mais diversas armadilhas derivadas de preconceito, dos muitos ideais de segregação de “morte ao bicho feio e estranho” ou de conspirações políticas e corporativistas, Bob Haney escreve aqui um roteiro que funciona muito bem como espetáculo de interação entre Pantanoso e Morcego, mas falha consideravelmente no uso do personagem do pântano, praticamente ignorando os seus poderes e utilizando-o só como força bruta.

Se o tom do roteiro fosse outro, até seria possível aceitar esse tratamento mais clichê do Monstro do Pântano, com todo mundo fugindo dele, falando de sua feiura e querendo matá-lo ou exibi-lo como criatura de um Show de Horrores, como vemos logo no início, no empreendimento de B.B. Riggs — que passa pela mais absurda e não-contextualizada mudança que se possa pensar para um personagem. A rigor, não estamos em lugares muito diferentes do que vimos em A Vila dos Condenados ou mesmo Réquiem, linhas de publicação então correntes do Monstro do Pântano. A diferença é que nessas aventuras o único interesse é a força física do estranho herói, os enredos fazem de tudo para que o inimigo em cena exija isso. No caso dessa Hora da Fera, temos um composto químico de aceleração da flora — notem: a verdadeira seara do Monstro do Pântano, mesmo nessa época! — e tudo o que o Pantanoso faz é ir atrás de uma “raiz-mãe”, a fim de matá-la. Pois é…

Boa noite! Os signos segundo alguns personagens da Disney.

Mas a decepção desse tratamento não-compatível com o personagem quando se fala de manifestação de poderes (em um cenário onde todos os ingrediente pediam por isso) é compensada primeiro pelo ótimo trabalho de Jim Aparo na arte, com destaque para os quadros em que ele mostra o crescimento desenfreado dos galhos por toda a Gotham City, e depois pela própria interação entre o Pantanoso com o Morcegão, que é realmente muito boa, tendo Bob Haney capturado com precisão o tom de diálogos e o comportamento diante de situações graves e desesperadoras pelo olhar dos dois personagens. Esta é a principal coisa que faz com que a ventura nos entretenha e fique acima da média, mesmo que a conclusão, com Batman ao lado de um estranhamente modificado B.B. Riggs, não seja lá essas coisas.

Brave and the Bold Vol.1 #122: The Hour of the Beast (EUA, outubro de 1975)
No Brasil:
A Vez e a Hora do Monstro do Pântano (Ebal, 1978) / A Hora da Fera (Panini, 2015)
Roteiro: Bob Haney
Arte: Jim Aparo
Cores: Carl Gafford
Letras: Jim Aparo
Capa: Jim Aparo, Tatjana Wood
Editoria: Murray Boltinoff
24 páginas

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As Sessenta Mortes de Solomon Grundy

The Sixty Deaths of Solomon Grundy

Steve Englehart realmente achou que uma trama de ação básica, mais o enfrentamento mais ou menos simplório do Superman contra o Pantanoso e Solomon Grundy fossem o bastante para criar uma boa história com esses personagens, nas páginas da DC Comics Presents Vol.1. Bem… claramente não foi. O autor ainda consegue fazer boas referências e mais ou menos tratar o Monstro do Pântano de uma forma aceitável (dos três personagens em cena nessa revista, o Musguento é o mais difícil de se acertar o tom), mas a maneira como ele imaginou o drama para as tais 60 mortes de SG não convence nem o mais condescendente dos leitores. E talvez, pior que isso, seja o fato de que a tentativa de Alec em fazer a pesquisa, juntando-se a Solomon, está bastante solta na história, tanto em sua introdução quanto em seu encerramento, quando o vilão e mais dezenas de outros corpos dele começam a sair dos esgotos. Isso e o fato de falarmos aqui do Solomon da nossa Terra e não o mais conhecido, da Terra-2, acaba não ajudando em nada.

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O desalento do Pantanoso no final é compreensível, dado o contexto da própria HQ, mas a finalização de Englehart para o seu “dilema” é patética. E pior é que estamos falando de uma aventura de 1979, então era de se esperar um tratamento mais aprimorado para “tentativas de mudar uma situação” por parte do personagem. A arte de Murphy Anderson tem bons momentos no encontro entre os “monstros” e também no “laboratório”, onde um forte elemento de terror é abraçado pelos desenhos, mas como não existe exploração disso dentro da narrativa, é algo que acaba se perdendo. Com uma mal-explicada resolução através de um “antídoto para matar o Solomon que não está vivo“, a HQ termina aos borbotões, em uma pseudo-épica revelação de muitos corpos do vilão sem que isso tenha um real peso ou mesmo significado para a história. A leitura é válida para conhecemos o insólito encontro de personagens e, claro, há um momento ou outro da trama que se salva, mas não o bastante para torná-la boa.

DC Comics Presents Vol.1 #8 (EUA, abril de 1979)
No Brasil:
 Os Clássicos da Década n°3 (Ebal, 1980)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: Murphy Anderson
Cores: Jerry Serpe
Letras: Ben Oda
Capa: José Luis García-López
Editoria: Julius Schwartz
20 páginas

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A Conexão Delta

The Delta Connection

Nessa história, escrita por Martin Pasko, Batman investiga o assassinato de um criminoso procurado. Há um estranho “toque profissional” no crime que intriga o Morcego. Em casa, ele é abordado por Selina Kyle, que pede para que proteja sua irmã Felicia de uma provável morte na prisão. É na perseguição desse pedido aliado a uma pista, que Batman vai para Louisiana, lar do Monstro do Pântano. Neste terceiro encontro entre eles existe um forte apelo emocional e familiar envolvido, o que torna a edição inicialmente interessante pela proposta, mas perdida, no final — a grande maldição que cerca alguns personagens da DC Comics (ou dos quadrinhos de herói em geral), quando inseridos em contextos muito bons, mas que muitos roteiristas não conseguem dar conta de criar uma boa história, seja por excesso de bobagens adicionadas ao texto, seja pela falta de algo na ligação entre personagens e problema central, como tivemos no encontro anterior dos dois heróis, na edição #122 da Brave and the Bold Vol.1.

Quando o encontro com o Monstro do Pântano acontece, já estamos em uma sequência ágil e visualmente muito interessante de acontecimentos. A arte de Jim Aparo mais uma vez se destaca e oferece fantásticas perspectivas de luta, o que aliada ao clima da história (a noite, a chuva, o pântano, a fuga dos prisioneiros, o apagão) gera no leitor um certo medo, algo elogiável, pois esta era a intenção central das histórias com o Pantanoso antes de A Saga, pelas mãos de Alan Moore.

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O problema é que Martin Pasko pega o mesmo estranho atalho que Bob Haney em A Hora da Fera e muda o tom da história a partir da colocação e uso das habilidades dos dois heróis em cena. Como disse antes, a atmosfera e a premissa da aventura são muito legais. Ocorre que a perseguição, a violência contra a mulher foragida, a perseguição ao bandido e a própria presença do Batman ali no pântano são misturadas a uma “visão mística posteriormente revestida de consciência” que o Musguento tem, algo que mancha imensamente o enredo. O pior é que a relação com Linda, a esposa do antigo Alec Holland, cientista criador da fórmula bio-restauradora que foi perseguido e boicotado pelo Conclave, parece despropositada aqui. Os poucos quadros que reprisam a vida passada do personagem até que são aceitáveis, nisso não há problema algum. Mas o ritmo e a própria essência da trama se diluem com essa “visão espiritual”, mesmo que o próprio roteiro tente desconversar, através de uma transferência dessa “visão” para o equivalente à “consciência” do Pantanoso. Simplesmente não colou.

Brave and the Bold Vol.1 #176: The Delta Connection (EUA, julho de 1981)
Roteiro: Martin Pasko
Arte: Jim Aparo
Cores: Adrienne Roy
Letras: Jim Aparo
Capa: Jim Aparo, Tatjana Wood, Gaspar Saladino
Editoria: Paul Levitz
24 páginas

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Crocodilo: Expresso Para a Escuridão  e  Monstros do Pântano

Killer Croc: Fast Train to the Wet Dark  /  Swamp Things

Escrita por Doug Moench, essa história tem uma série de elementos interessantes não plenamente aproveitados pelo autor para dar um “destino final” (se bem que a gente sabe que não existe nada disso na DC) ao Crocodilo. Na primeira revista, edição #521 da Batman Vol.1, temos duas ações em andamento. Primeiro, com o vilão de destaque escapando do Arkham Asylum. Depois, uma sequência cômica na Mansão Wayne, com Bruce e Tim tentando sobreviver sem Alfred, temporariamente afastado da vida de “pessoa que realmente importa naquela casa“, após uma briga com vocês-sabem-quem. Alfred aparece com uma edição do Gotham Gazette nas mãos, perguntando se “a vaga já tinha sido preenchida“, uma vaga que Bruce não anunciou… Imaginem só. Nesse clima, o texto de Moench nos prende com facilidade. A edição é engraçada e tem um bom suspense em andamento, pois sabemos que o que fez o Crocodilo “ouvir o chamado para o lugar escuro e molhado” veio por um esporo nascido do nada na cozinha do Asilo. Um claro cameo do Monstro do Pântano. Mas aí há um problema.

Por mais que seja possível, para alguns leitores, relevar esse primeiro momento (para mim, a plantinha cuspindo o esporo foi absurdo demais…), o SENTIDO de toda a coisa se torna um real absurdo para o leitor. Com muito boa vontade a gente pode tentar justificar que, de fato, Waylon Jones estava perdendo muito de sua humanidade e se tornando cada vez mais selvagem, primal. Mas ele não é um personagem com manipulação do verde, ou “nascido”, ou modificado, ou revivido pelo pântano, então o link feito pelo autor se torna bastante forçado. Não é necessariamente absurdo, considerando que é um personagem chamado “Crocodilo” quem recebe o chamado, mas mesmo assim. Falta coerência e contexto.

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Isso, pensando de maneira mais fria, tinha mais a ver com o Vermelho do que com o Verde, embora a correlação entre essas forças da vida seja simbiótica. Mas a estranheza se enraíza. E desse ponto em diante, toda a saga passa a ser uma pedra no sapato. Eu até gostei da discussão proposta pelo autor no finalzinho da segunda edição deste mini-arco, com o Batman questionando a visão da justiça e o Monstro do Pântano falando em favor do Crocodilo, agora chamado pelo Verde para habitar o Pântano. Sinceramente, não vejo muito sentido em termos de essência do Universo do Pantanoso, mas a trama aqui, pelo menos, é instigante, e a arte de Kelley Jones, com finalização de John Beatty é realmente muito boa, especialmente para o Monstro, então o saldo acaba ficando acima da média.

Batman Vol.1 #521 e 522 (EUA, agosto e setembro de 1995)
No Brasil:
Editora Abril, 1997
Roteiro: Doug Moench
Arte: Kelley Jones
Arte-final: John Beatty
Cores: Gregory Wright
Letras: Todd Klein
Capas: Kelley Jones, John Beatty
Editoria: Jordan B. Gorfinkel, Dennis O’Neil
48 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.