Crítica | Batman: Vitória Sombria

estrelas 5,0

São muitos os paralelos que podemos traçar entre a trama de Vitória Sombria e toda a mitologia do cinema de gângster ou, em menor grau, noir.

Continuação direta de O Longo Dia das Bruxas, essa aventura traz um novo assassino serial para Gotham, O Enforcador, que engenhosamente se apropria dos métodos do Homem-Calendário e Feriado, matando nas principais datas comemorativas do ano e fazendo com que seus crimes pareçam ser de autoria do recém surgido Duas-Caras ou de membros das famílias Moroni e Falcone.

Se formos tentar localizar O Longo Dia das Bruxas e Vitória Sombria na linha cronológica do Batman da Era Moderna, veremos que o Morcego ainda estava no começo de sua jornada (meados da primeira década) e já apresentava sinais de cansaço pela sobrecarga de coisas que tinha para investigar e combater.

Dia dias Bruxas (o conto Temores, apenas) acontece no Halloween do Ano 2. O Longo Dia das Bruxas, entre o começo de junho do Ano Três e 31 de outubro do Ano Quatro e Vitória Sombria acontece entre julho do Ano Cinco e 31 de outubro do Ano Seis.

Esse período se mostrou muitíssimo movimento para a vida do Morcego e não é à toa que Jeph Loeb tenha explorado bastante as fraquezas do personagem para tornar orgânica a incursão de Dick Grayson, o primeiro Robin. Esse, aliás, é um dos pontos altos da história, tanto na arte, marcada pelos belos contrastes de tamanho nos desenhos de Tim Sale, com o brutamontes do Batman e o pequeno Dick Garayson/Robin juntos – ou mesmo a diferença de tamanho do Morcegão para com outros vilões, vide as sequências em que ele aparece contra o Pinguim e o Charada –; quanto no roteiro, que dá sustentação simbólica à arte e até brinca com isso em uma fala da promotora Janice Porter, que, ao encontrar o Batman pela primeira vez, diz a Gordon: “ele é menor do que eu pensava”.

Para completar a dinâmica do contraste dimensional, Tim Sale dá ao ambiente de Vitória Sombria a atmosfera visual de obras como Scarface e Os Bons Companheiros, um ambiente gângster que não só é perfeitamente adequado à história como faz releituras que provocam um riso macabro no leitor (o corpo de Janice Porter na cama de Alberto Falcone, por exemplo, nos remete à cabeça do cavalo na cama de um dos personagens de O Poderoso Chefão), elementos que enriquecem a leitura e fazem da caça ao Enforcador um verdadeiro caminho de violência, tanto da parte dos mafiosos quanto da parte dos vilões (ou “aberrações”, como Carmine “Romano” Falcone os chamava), que, desta vez, não têm muito a ver com o que está acontecendo.

A perfeição estética da minissérie é coroada quando comprovamos a acertada escolha de Gregory Wright em manipular os filtros de cor em cada capítulo ou dentro de cada ‘bloco de ação’ considerando os personagens em cena, o feriado/assassinato em questão e o tom que o roteiro e a dimensão da arte apresentavam em determinado momento.

O ritmo da história é tão bem equilibrado e a carga de suspense tão bem explorada que a leitura transcorre de maneira acelerada, quase de um fôlego só. Às vezes avançamos tão rápido que é preciso voltar uma página ou outra para captar melhor o trabalho artístico, atentar para os detalhes dos quadros, rir com a escolha dos ângulos dramáticos de certos momentos (a perturbação de Alberto sempre em quadros diagonais; a troca de planos frontais para plogées em momentos diferentes da aparição de Sofia Gigante, etc.) e isso vai se tornando um misto de prazer e emoção à medida que vemos referências ao passado do jovem Bruce Wayne e seu paralelo com o presente de Dick Grayson (destaque para o capítulo Órfãos) ou mesmo a colocação de flashbacks estilizados para amplitude de um contexto qualquer.

Vitória Sombria é uma das histórias mais ricas da cronologia moderna do Batman, uma genuína trama de investigação de um inimigo cheio de recursos financeiros e um exército de gângsters a seu favor, além, é claro, da notável inteligência psicopata para arquitetar de maneira admirável a sequência e culpabilidade aparente dos crimes.

Obra-prima da dupla Loeb e Sale.

Batman: Vitória Sombria (Batman: Dark Victory) – EUA, 1999 – 2000
Minissérie em 13 partes + Prólogo
No Brasil:
Panini Books, 2012 (encadernado de luxo)
Roteiro: Jeph Loeb
Arte: Tim Sale
Cores: Gregory Wright
394 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.