Crítica | Battle Angel Alita – Volumes 1 a 3

O mangá cyberpunk Battle Angel AlitaGanmu, no original – é a obra-prima de Yukito Kishiro e um verdadeiro clássico. Com sua série original de nove volumes publicada originalmente entre 1990 e 1995, angariando enorme sucesso e gerando duas continuações (uma de 19 e a última de seis volumes), além de um prelúdio de apenas um volume, chega a ser uma surpresa que a obra jamais ganhou uma adaptação em anime (ou em qualquer outro estilo) além de uma OVA de meros dois episódios, em 1993.

Seja como for, porém, Battle Angel Alita é uma leitura obrigatória e prazerosa, com uma arte de fazer o queixo cair mesmo quando Kishiro peca aqui e ali ao desnortear o leitor, o que, desconfio, foi uma escolha consciente. No primeiro volume, batizado por aqui de Anjo Enferrujado, o autor rapidamente estabelece a premissa: o especialista em cibernética e guerreiro caçador nas horas vagas Daisuke Ido acha a cabeça de uma ciborgue de aparência muito jovem em uma gigantesca pilha de ferro-velho e decide reconstruí-la, batizando-a de Alita (Gally, na versão original japonesa). Mas a ciborgue não tem memória de seu passado, apesar de demonstrar logo muito cedo na narrativa grandes habilidades de luta. Decidindo seguir a carreira de seu “pai”, Alita, então, torna-se ela própria uma guerreira caçadora, o que nada mais é do que alguém que elimina pessoas e ciborgues procurados pela Justiça.

Outro elemento importante imediatamente estabelecido no primeiro volume é que, nesse mundo pós-apocalíptico, há uma divisão em duas castas, a que vive na superfície da Terra, na verdade um gigantesco “lixão” ou ferro-velho quase sem lei na base do “cada um por si e Deus por todos” e a que vive em Zalem, uma gigantesca cidade flutuante inalcançável (legalmente) por qualquer meio.  Zalem, apesar de ser presença constante na arte e ser mencionada diversas vezes ao longo dos três primeiros volumes, especialmente no segundo, não é o foco nesse início, já que a trama demora a ganhar complexidade, algo que só vem quando Alita, mais tarde, realmente começa a tentar descobrir mais sobre seu passado misterioso.

Ainda no primeiro volume, o grande foco é no embate entre Alita e Makaku, um ciborgue-lesma psicopata que parece invencível. Usando-o como mola mestra, Kishiro desenvolve a personalidade de Alita que trafega do equivalente cibernético de uma adolescente insegura a uma guerreira em treinamento capaz de feitos incríveis, para espanto de Ido. O arco de Makaku, porém, somente é encerrado no começo do segundo volume – Acertando as Contas – que é focado no primeiro amor de Alita, o garoto humano Yugo que guarda um terrível segredo e um desejo, na verdade obsessão, de conhecer Zalem. O aspecto trágico do mangá fica mais saliente justamente nesse segundo volume, já que Kishiro é inclemente com sua protagonista e em seu relacionamento hesitante com o jovem.

Alita preparando-se para o embate épico contra o psicótico Makaku, versão 2.0.

No terceiro volume, À Procura da Guerreira Caçadora, há uma elipse temporal e Alita, agora, é uma jogadora de Motorball, a versão ultra-mega-violenta e com ciborgues do jogo clássico que vemos em Rollerball: Os Gladiadores do Futuro, muito provavelmente uma das inspirações de Kishiro. Alita fugiu de Ido quando o arco anterior encerrou-se e ele, agora, a procura (daí o título), demonstrando uma faceta dominadora e meio amalucada do doutor que não tínhamos visto antes e que insere um leve subtexto perturbador na narrativa, já que, para todos os efeitos, Ido é pai de Alita.

Aliás, falando em subtexto perturbador, Yukito Kishiro trabalha seus desenhos de maneira a não abertamente sexualizar Alita, mas usando de todos os artifícios possíveis para torná-la uma femme fatale daquelas que se fazem de inocentes. Chega a incomodar a impressão de perversão que a arte estabelece, algo que não é proeminente, mas que sublinha determinadas ações de Alita e que torna mais, digamos, desafiadora, já que a sensualidade exala propositalmente de cada quadro dedicado à ciborgue.

A arte é, sem dúvida alguma, pelo menos nesses três primeiros volumes em que o roteiro mantem-se simples e sem desvios, a grande atração. Não só o desenvolvimento visual de Alita é muito bem trabalhado, como toda a ambientação ao redor, com um mundo cyberpunk sujo, decrépito e  decadente, mas ao mesmo tempo fascinante em cada detalhe. E, como se isso não bastasse, Kishiro é de uma criatividade incrível para desenhar ciborgues dos mais variados tipos, desde enormes monstros de metal, até personagens quase que completamente humanos com sutis alterações cibernéticas. Os três grandes “chefões de fase”, um em cada um dos três volumes iniciais – Makaku, Zapan e Jasugun (este último o único ambivalente em suas intenções) – são extraordinários em detalhes e em caracterização, contrastando fortemente com o jeito petite de Alita, mesmo que seus corpos cibernéticos variem bastante.

Ler Battle Angel Alita é como deixar passar uma corrente elétrica pelo corpo, pois cada página sangra energia e ação sem que o drama saia de foco. Anjo Enferrujado, Acertando as Contas e À Procura da Guerreira Caçadora marcam um magnífico terço inicial da primeira coleção da grande criação de Yukito Kishiro.

Battle Angel Alita – Vols. 1 a 3: Anjo Enferrujado // Acertando as Contas // À Procura da Guerreira Caçadora (Battle Angel Alita / Gunnm Hyper Future Vision – 1991)
Roteiro e arte: Yukito Kishiro
Editora original: Shueisha
Data original de publicação (em volumes): 19 de setembro de 1991, 19 de fevereiro de 1992 e 17 de julho de 1992
Editora no Brasil: JBC
Data de publicação no Brasil: 10 de novembro de 2017, 1º de dezembro de 2017 e 30 de janeiro de 2018
Páginas: 220 // 210 // 209

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.