Crítica | Battlestar Galactica – A Minissérie

Em uma época hoje distante em que o ex-canal Sci-Fi, hoje SyFy, produzia obras do mais alto gabarito, Ronald D. Moore, que ganhara reputação por ajudar a reviver a franquia Star Trek na televisão com A Nova Geração, resolveu arregaçar as mangas e reimaginar completamente a série setentista Battlestar Galactica (aqui conhecida como Galactica: Astronave de Combate), que não passou da 1ª temporada, afastando completamente a atmosfera camp e a estrutura de “caso da semana” e injetando doses generosas de filosofia e religião, resultando em uma das melhores séries de ficção científica já feitas. Mas, antes de chegar ao status de série, que duraria quatro temporadas com 74 episódios no total e dois longas-metragens, Moore e a produtora testaram as águas da receptividade com uma minissérie transmitida em duas partes nos dias 08 e 09 de dezembro de 2003.

Nela, somos apresentados cuidadosamente à premissa básica da narrativa original de Glen A. Larson: 12 planetas (cada um lar de uma colônia de humanos) são atacados e destruídos pelos maléficos robôs Cylons, originalmente criado pelos humanos, e os sobreviventes, reunidos em naves variadas e comandados e protegidos pela última astronave de combate, Galactica, fogem pelo espaço profundo em busca da mítica 13ª Colônia, a Terra. Essa história, fascinante por si só, é construída sem pressa ao longo das três horas da minissérie, em que a mitologia da obra original é profundamente alterada, mas com a manutenção da essência. Não demora e aprendemos que os humanos das colônias já haviam enfrentado os Cylons há 40 anos, resultando em um armistício e o desaparecimento completo dos robôs. Quando a história começa, um posto avançado diplomático construído para permitir discussões entre os antigos inimigos e que é visitado por um oficial humano por razões unicamente burocráticas já que os vilões jamais deram as caras por ali, finalmente recebe visitas. Primeiro vemos versões mais modernas dos antigos Cylons e, em seguida, uma loira escultural de aparência completamente humana chega para marcar o fim da paz. A tensão construída nessa singela sequência que preludia a ação é espetacular do começo ao fim.

Mas a qualidade da minissérie continua firme e forte quando, em seguida, descobrimos que a nave que dá nome à série e que o espectador que conhecia a versão original queria tanto ver é, na verdade, uma relíquia da guerra contra os Cylons que está prestes a ser definitivamente desativada e convertida em um museu. Capitaneada até o último segundo por outra relíquia da guerra e veterano condecorado Comandante William Adama (Edward James Olmos), a nave é revestida imediatamente de uma atmosfera de reverência e de “vida vivida”, lição aprendida com o tipo de pegada de “universo velho” que Guerra nas Estrelas mais fortemente inaugurou em 1977 (aliás, é impossível ver essa versão da Galactica e não lembrar da Millenium Falcon), com sua tripulação orgulhosa e ao mesmo tempo melancólica esperando o fim de uma era.

E a era em que ele viveram realmente chega ao fim, mas não da maneira tranquila que eles esperavam. O ataque cibernético dos Cylons altamente tecnológicos e de aparência humana vem e, de maneira fulminante, todas as 12 Colônias são dizimadas juntamente com todas a frota militar. Galactica sobrevive única e exclusivamente porque, por ordens do Comandante Adama – muito mais por ser um turrão tradicionalista do que por qualquer outra coisa – ela nunca foi adaptada para ser conectada em rede com o sistema de defesa dos planetas. Estando offline completamente, a nave automaticamente se mostra imune aos vírus e à manipulação cibernética dos Cylons, tornando-se, portanto, a única linha de defesa das diversas naves humanas que conseguem, por várias razões diferentes, sobreviver à aniquilação.

Essa ampliação da premissa original é – não medirei palavras – simplesmente genial. Nela, vemos embutido diversos comentários sociais importantes, como o conflito de gerações, do que é percebido como velho versus o que é percebido como novo, da adoção desmedida da tecnologia em oposição à tradição e assim por diante. E Adama, militar até a última raiz do cabelo, é o homem da guerra, a pessoa que tem como único pensamento revidar a violência dos Cylons da única maneira que sabe fazer. Em oposição a ele, há a Secretária de Educação transformada em Presidente Laura Roslin (Mary McDonnell), recentemente diagnosticada com câncer. Ela é a voz da razão, da sobrevivência dos humanos, da fuga no lugar do ataque que entra em conflito direto com Adama, imediatamente trabalhando outro tema extremamente relevante: a relação dos governos com sua força militar. Com isso, o roteiro de Moore aproxima a narrativa humana de um possível golpe militar e não de maneira maniqueísta, mas sim como uma proposta viável diante do cenário cataclísmico.

Do lado vilanesco, temos o brilhante cientista Gaius Baltar (James Callis em uma performance fascinante), responsável, dentre outros sucessos, pelo sistema de defesa planetário que é invadido e manipulado pela Número Seis, a Cylon esplendorosamente loira vivida por Tricia Helfer que tem um caso com Baltar para conseguir acesso aos sistemas emprestando um significado muito mais amplo ao termo hackear. A relação entre os dois, que permanece constante na minissérie mesmo diante do apocalipse já que Baltar “vê” a Número Seis ao seu lado todo o tempo, introduz as noções mais verdadeiramente filosóficas que seriam desenvolvidas ao longo da série. Baltar, visto por todos como herói e a última esperança da frota, é um homem egoísta, covarde, manipulado e manipulador, mas que não é o tipo de vilão que esperamos. Ele hesita, tem constantes dúvidas, tenta fazer o certo somente para decidir pelo errado e parece perfeitamente entender o que está em jogo, mas não consegue desvencilhar-se de sua natureza para alcançar a grandeza. Ele, claro, representa a ciência, mas a ciência relativizada e vilanizada que casa muito bem com outro tipo de vilania, a dos Cylons, que são filhos dos humanos e que, exatamente por isso, consideram-se filhos de um deus único que não imediatamente toma a forma do Deus judaico-cristão, mas que caminha nessa direção em oposição aos deuses plurais reverenciados pelos humanos das colônias. E, nessa esteira, a discussão se desenvolve para a verdadeira natureza dos Cylons: máquinas frias e sem alma ou máquinas biológicas pensantes e vivas como os humanos são vivos? Se esse é um assunto que a ficção científica se debruça há décadas e décadas, diria que Battlestar Galactica é uma das obras de ficção que mais desenvolve a questão, constantemente desafiando o espectador.

Em meio a tudo isso, há outros diversos personagens que são muito bem trabalhados nessa três horas, especialmente a relação de amizade e respeito entre os pilotos dos caças Viper Apollo (Jamie Bamber) e Starbuck (Katee Sackhoff, em um ótimo gender bender do personagem original), respectivamente o filho de Adama que tem uma relação complicadíssima com o pai, e a melhor, mais ousada e mais desobediente piloto da frota. Da mesma forma, muito destaque é devidamente dado ao amargo e alcoólatra Coronel Saul Tigh (Michael Hogan), segundo em comando de Adama e que nutre inimizade com Starbuck e ao mecânico-chefe Galen Tyrol (Aaron Douglas) e à piloto de Raptor Sharon “Boomer” Valerii (Grace Park em outro gender bender bem-vindo) que têm relacionamento amoroso.

Os efeitos em computação gráfica não envelheceram um dia sequer e funcionam muito bem nos poucos Cylons robóticos que são usados e nas batalhas espaciais que, para manter a atmosfera, são completamente silenciosas. No entanto, o que realmente merece destaque é a qualidade do design de produção nos cenários e figurinos e na enorme quantidade e qualidade dos efeitos práticos. A Galactica é literalmente um personagem importante na minissérie e os ambientes criados – a ponte de comando, a sala e os alojamentos dos pilotos e oficiais, o hangar, as cabines de Adama e de Tigh – respiram e convencem imediatamente com todos os seus detalhes que transparecem locais em que gente de verdade transita apesar de toda a tecnologia avançada que é trabalhada sem que seja necessário que o roteiro foque nelas com tecniquês bobo. É um sci-fi que simplesmente não precisa perder tempo com explicações sobre o funcionamento das coisas, apresentando tudo de maneira simplificada e sóbria, o que amplifica a impressão de verossimilhança e realismo.

A trilha sonora composta por Richard Gibbs é um tesouro que faz a ponte sonora entre a música clássica da série original composta por Stu Phillips e o que viria a ser aproveitado e desenvolvido por Bear McCreary (que trabalhou com Gibbs) na série de 2004, ajudando a criar a atmosfera melancólica e apocalíptica que a situação impossível dos sobreviventes exige, mas sem perder de vista as fanfarras heroicas necessárias. Essa atmosfera é amplificada sobremaneira pela fotografia soturna e sóbria de Joel Ransom que elegeu trabalhar cores mudas, acinzentadas que são confrontadas brilhantemente pelos figurinos de cores fortes da Número Seis, notadamente seu icônico vestido vermelho.

Ronald D. Moore literalmente reconstrói Battlestar Galactica quase que integralmente do zero, aproveitando-se, apenas, da premissa macro de Glen A. Larson. E, usando essa tábula semi-rasa como trampolim, ele foi capaz de criar uma minissérie que fascina o espectador não só pelos aspectos de pura ficção científica que povoam a narrativa, como também – e provavelmente em especial – pela complexa teia filosófico-religiosa-científica que o showrunner estabelece.

Battlestar Galactica – A Minissérie (Battlestar Galactica – The Miniseries – EUA, 08 e 09 de dezembro de 2003)
Criação e showrunner: Ronald D. Moore (baseado em obra de Glen A. Larson)
Direção: Michael Rymer
Roteiro: Ronald D. Moore
Elenco: Edward James Olmos, Mary McDonnell, Katee Sackhoff, Jamie Bamber, James Callis, Tricia Helfer, Callum Keith Rennie, Grace Park, Michael Hogan, Matthew Bennett, Paul Campbell, Aaron Douglas, Lorena Gale, Kandyse McClure, Connor Widdows, Alessandro Juliani, Nicki Clyne, Tahmoh Penikett, Alonso Oyarzun, Ty Olsson, Lymari Nadal
Duração: 180 min. (duas partes no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.