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Crítica | “Batuque” – Ney Matogrosso

Ney canta o Brasil pré-bossa nova.

por Iago Iastrov
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Ao longo dos anos 1990, Ney Matogrosso embarcou numa leva de projetos interpretativos de altíssima qualidade. Em Estava Escrito (1994), revisitou o repertório de Ângela Maria. Em Um Brasileiro (1996), se dedicou exclusivamente a Chico Buarque, e em O Cair da Tarde (1997), uniu Villa-Lobos e Tom Jobim. Na produção de Batuque (2001), pela Universal Music, o cantor manteve essa lógica conceitual, agora voltando-se para as canções anteriores aos anos 1960, mirando especialmente no universo de Carmen Miranda. A produção de João Mario Linhares e Zé Nogueira, com direção musical de Ricardo Silveira, contou com assessoria de quatro pesquisadores (Jairo Severiano, Zuza Homem de Mello, Paulinho Albuquerque e Fausto Nilo) na curadoria das 13 faixas. O grupo instrumental carioca Nó em Pingo D’Água, fundado em 1979 e responsável por inaugurar o movimento do choro novo, participa de sete músicas. O projeto gerou espetáculo que estreou no ATL Hall no Rio de Janeiro, com cenografia inspirada nos filmes da Atlântida (palmeiras de lantejoulas e estética de teatro de revista) e figurino de Ocimar Versolato, depois registrado em DVD.

O repertório selecionado desenha um período em que Carmen Miranda consolidou o samba como expressão nacional e revelou grandes compositores. E o Mundo Não Se Acabou, samba-choro que Assis Valente compôs e Carmen gravou em março de 1938, satiriza os temores apocalípticos sobre o cometa Halley que circulavam na época. A letra transforma histeria coletiva em crônica afiada: a protagonista, acreditando no fim iminente, beija quem não devia, dança samba de maiô, perdoa desafetos e gasta dinheiro com quem não merecia, só para descobrir, no dia seguinte, que o mundo continuou. O humor transforma ansiedade em matéria cômica, nessa faixa. De Papo pro Ar, cateretê de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano lançado por Gastão Formenti em 1931, exalta a vida simples através de versos sobre preguiça e mansidão (e a introdução e encerramento da faixa foram extraídos do primeiro registro fonográfico da música em 78 RPM, em 1931). Maria Boa aprofunda a parceria entre o compositor baiano e a intérprete. Adeus Batucada, de Synval Silva (gravada por Carmen com a Orquestra Odeon em 1935), e O Que É Que a Baiana Tem?, de Dorival Caymmi (que se consolidou nessa gravação de 1939, depois incluída no filme Banana da Terra), completam o núcleo mirandiano. Tico-Tico no Fubá, famosíssimo choro que Zequinha de Abreu compôs em 1917, ganhou projeção internacional quando Carmen o gravou em 1945, em inglês (não a versão de Aloysio de Oliveira, que ouvimos aqui em Batuque), e o apresentou no filme Copacabana (1947). Barco Negro, fado de Amália Rodrigues que já havia aparecido no disco de estreia solo de Ney em 1975, cria ponte entre diferentes momentos da carreira do cantor.

Outras faixas ampliam o panorama proposto. Maria Boa, samba de Assis Valente lançado em 1935 pelo Bando da Lua e transformado em sucesso carnavalesco, trabalha diálogos cifrados sobre conquistas amorosas. Bambu de Bambu, com melodia de origem folclórica e letra da versão adaptada por Almirante e Valdo Abreu em 1932, explora jogos de palavras e trava-línguas sonoros típicos das emboladas. Adeus Batucada e Coração, ambas de Synval Silva — motorista de Carmen Miranda, que compunha sob influência direta dela —, representam a vertente samba-canção que ganhava força nos anos 1930: Coração, gravado em outubro de 1934 e lançado em janeiro de 1935, e Adeus Batucada, gravado em setembro de 1935, tornou-se a segunda gravação mais executada de Carmen segundo o ECAD e foi cantada por ela na despedida de seu programa na Rádio Mayrink Veiga antes do embarque para os Estados Unidos em maio de 1939. Bamboleô, de André Filho, mostra a potência rítmica do samba carioca através de gravação realizada em 1931. Teu Retrato, de Nelson Gonçalves e Benjamim Batista, gravado originalmente em 1946 em dueto por Nelson Gonçalves e Isaura Garcia, acrescenta camadas melódicas ao conjunto. Vatapá, escrita por Dorival Caymmi em 1942, musicou a receita do prato típico baiano e integra o recorte proposto. Urubu Malandro, tema folclórico da Zona Norte do Rio de Janeiro com primeira gravação em 1913, pelo clarinetista Lourival de Carvalho (o Louro), ganhou projeção através das variações de Pixinguinha e letra posterior de Braguinha, mostrando como o samba dialogava com outras tradições musicais urbanas brasileiras.

Ney procura equilíbrio entre fidelidade às gravações históricas e sua própria personalidade vocal. Essas canções tiveram relevância porque juntaram sofisticação melódica com acessibilidade narrativa, dualidade que permitiu ao samba dos anos 1930 e 1940 passear entre diferentes classes sociais e virar linguagem nacional. As letras satíricas de Assis Valente e as diversas melodias do choro se comunicam sem que o intérprete sacrifique o timbre tão bonito que o caracterizou. A direção de Ricardo Silveira deixa fluir a espontaneidade, não se curva ao academicismo e não cai na descaracterização das canções. A participação do Nó em Pingo D’Água é outro ponto de destaque, porque traz uma novidade instrumental sem tornar o disco um “museu sonoro“. Carmen Miranda foi, ao mesmo tempo, divulgadora de compositores essenciais da nossa música e criadora de uma estética que transformou o samba carioca num símbolo brasileiro durante décadas, período em que o rádio se fortalecia como meio de comunicação de massas e a indústria fonográfica brasileira se profissionalizava.

Revivendo canções que moldaram a identidade sonora brasileira, Batuque (que, apesar de ser muito bom, eu não acho que tenha combinado verdadeiramente com essa fase “songbook” de Ney Matogrosso) oferece ao público contemporâneo um repertório que construiu as bases sobre as quais a MPB se ergueu. A decisão de concentrar-se no período pré-bossa nova mostra um grande entendimento da história dessas produções, e a participação dos pesquisadores garante que a seleção represente a diversidade estilística daquele momento (samba-choro, marchinha, batuque, fado e variações desses). Comparado às pérolas que Ney lançou nos anos 1990, porém, este disco entrega competência técnica e seriedade musical sem alcançar a mesma grandiosidade artística. Um Brasileiro e O Cair da Tarde expandiram horizontes interpretativos de maneiras que Batuque não consegue replicar. O álbum é uma boa revisitação histórica dentro de um catálogo que possui obras maiores, comprovando que nem todo projeto sério e bem executado atinge o patamar de obra-prima numa carreira.

Batuque
Artista: Ney Matogrosso
País: Brasil
Lançamento: 2001
Gravadora: Universal Music
Estilo: MPB, samba, choro, batuque
Duração: 45 min.

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