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Crítica | Beckett

por Kevin Rick
3.809 views (a partir de agosto de 2020)

Beckett começa com o personagem homônimo (John David Washington) enrolado nos lençóis com sua namorada April (Alicia Vikander). O casal são turistas americanos viajando de férias no norte da Grécia, e eles estão super apaixonados. Como Beckett diz à April: “Estou tendo um ataque de amor”. Esse trecho de abertura é projetado para tornar o casal querido antes da evidente tragédia, até mesmo para aqueles que não viram o trailer. É um início bem-intencionado, mas um pouco distante e superficial, o que realmente resume o restante do filme em si.

Após sofrerem um acidente de carro, April morre – será mesmo? -, enquanto Beckett vê algo que não deveria ter visto ao bater com o veículo em uma casa no meio das montanhas gregas: um menino, possivelmente preso, mas que neste ponto da narrativa ainda não sabemos das circunstâncias. A partir do momento que Beckett acorda todo machucado no hospital, tendo poucas perguntas respondidas e comportamentos estranhos de personagens ao seu redor que levantam mais questionamentos, o cineasta Ferdinando Cito Filomarino dita o tom de filmes de conspiração/thriller à la anos 60/70, de Alan J. Pakula, Alfred Hitchcock e Sidney Pollack. O filme, aliás, em toda sua trama de “homem errado no lugar errado” me lembra bastante O Fugitivo e até (levemente) Intriga Internacional, no sentido de ser uma experiência cinematográfica mergulhada em um pesadelo de perseguição em que o protagonista não entende as circunstâncias e é forçado a fugir.

Apesar de ser uma trama simplória e meio rala, a premissa é instigante o bastante para deixar o espectador interessado em quais são os motivos para que várias pessoas queiram Beckett morto, além de desenvolver uma trama lateral mais dramática com a culpa do protagonista por ser o causador do acidente e a (possível) morte da sua amada. Em cima disso, existem alguns bons elementos que constroem com cuidado a atmosfera crescente de desespero e paranoia. A trilha sonora que mistura passagens orquestrais com distorções ambientes, cordas fantasmagóricas e explosões de percussão perturbadora; as localizações gregas pitorescas bastante variadas no trajeto, desde montanhas escarpadas, florestas densas, até um penhasco solitário; e a boa falta de sutileza na caracterização/interpretação de Beckett, sempre machucado, mancando, cambaleando, ainda que tenha bastante fisicalidade, transpõem (no início) um bom retrato do pânico de um homem ordinário em uma situação extraordinária. Aliás, a obra é uma curiosa combinação de ação propulsiva em fuga com a trama e drama europeu naturalista com o ambiente. No entanto, para um filme em constante movimentação e com uma boa base técnica, por que Beckett é pouco dinâmico e quase inexistente de urgência?

Honestamente, Ferdinando Cito Filomarino é um cineasta insatisfatório, às vezes até amador. Notem como o filme está sempre em perseguição, mas não tem ritmo ou perigo. Por que isso acontece? Bem, acredito que o diretor peca bastante na preparação, especialmente em desfechos, dos seus momentos de suspense. Ferdinando situa uma sequência normalmente com um perseguidor/assassino, mas ele não estica os momentos para ganhar ansiedade, sempre procurando resoluções rápidas e fáceis, até ridículas eu diria – e o fato dele querer criar um aspecto sério nessas partes, deixam várias cenas constrangedoras. O ato final do filme em que John David Washington vira uma estrela de ação, praticamente um super-herói, é o período mais lamentável de algumas escolhas visuais de Ferdinando, terminando a obra em uma nota embaraçosa e totalmente inverosimilhante com a pegada anterior.

PEQUENOS SPOILERS

Estou tentando manobrar spoilers para expor meu ponto, mas, por exemplo, tem uma sequência que Beckett encontra um assassino em uma estação de trem, a luta dura alguns segundos, ele pula nos trilhos, mas rapidamente é ajudado, e então a cena corta para ele chegando na Embaixada Americana com facilidade, o local que é o objetivo principal por grande duração do longa. Cara… perceberam como a descrição soa simples? Ferdinando tem muita dificuldade em estender aflição, criar agonia ou finalizar partes da fuga com satisfação. O personagem luta pela morte por alguns segundos que não dão tempo para a audiência digerir o perigo; cai nos trilhos, hipoteticamente um possível escalonamento de urgência da sequência anterior, mas é resolvida com simplicidade, e a resolução de uma fuga de quase uma hora é ele sendo carregado por dois jovens à Embaixada. Falta um “crescendo” na experiência, sempre confortável no anticlimático.

FIM DOS SPOILERS

Não chegam a ser sequências necessariamente ruins, apenas… superficiais, como disse no início do texto. Ferdinando até tem alguns enquadramentos interessantes, como algumas cenas de ação vertiginosas ou situações que a câmera foca nas lesões e sangue do protagonista – adoro como o filme sempre encontra novas formas de feri-lo sem tirar mobilidade -, mas o cineasta raramente consegue deixar o espectador em uma situação de apreensão. Esta mesma distância da agonia da fuga, é carregada ao esboço incompleto do pano de fundo político ou ao drama romântico aguado, que trazem alguma substância ao trajeto, mas são pouco aprofundadas, criando o mesmo sentimento de insatisfação com conclusões, aqui na pouca emoção criada pela culpa e o fútil resultado da conspiração. Beckett é um thriller eficiente, instigando o espectador em alguns momentos, curiosamente estilizado, cheio de ótimas locações e uma boa trilha sonora, mas deixa na audiência um dissabor na inconclusividade ou, pelo menos, a falta de um artesanato apreensivo em suas resoluções abruptas. 

Beckett (Idem) | EUA, 13 de agosto de 2021
Direção: Ferdinando Cito Filomarino
Roteiro: Kevin A. Rice, Ferdinando Cito Filomarino
Elenco: John David Washington, Boyd Holbrook, Vicky Krieps, Alicia Vikander
Duração: 108 min.

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