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Crítica | Bee Movie – A História de uma Abelha

por Iann Jeliel
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Bee Movie

Na infância, temos um seleto grupo de animações que não gostamos à primeira vista, afinal, não é porque somos crianças, que somos desprovidos de um senso crítico, apesar de gostar de algumas tranqueiras que certamente não sobrevivem a um olhar futuro. Confesso que Bee Movie fazia parte desse grupo, tal como a animação antecessora Por Água Abaixo, da mesma Dreamworks que estava vivendo em sua pior frase em termos criativos. No entanto, minha experiência inicial com o filme era dublada e nada contra o trabalho geralmente excepcional dos dubladores brasileiros em animações, há algumas inclusive que guardo tanto carinho em português que imagino o filme melhor com elas, contudo, este definitivamente não é caso, não só porque, como dito, não guardava carinho do filme quando pequeno, mas também porque revendo na dublagem original de Jerry Seinfeld, consigo compreender o porquê do desgosto e subverte-lo um pouco através da leitura da real proposta da animação.

Bee Movie é um filme pensado exclusivamente sobre voz, conteúdo e forma, típicas do dublador de seu protagonista. Jerry Seinfeld é um humorista conhecido mundialmente pela sua série de mesmo nome, que essencialmente pensa na comédia como simples ato de fazer rir, os recursos ou caminhos para isso, pouco importam e são variados (físico, piadista, besteirol, referencial etc.) desde que o objetivo da risada seja alavancado. Vindo do stand-up e autoparódia, é possível notar traços da comédia simultânea no situacional de Seinfeld, no roteiro da animação escrito pelo mesmo, que até propõem um universo criativo de reimaginar uma sociedade alternativa sobre vias racionais, mas que diferente de filmes da Pixar, ou mesmo do seu parente mais próximo, Formiguinha Z, as alusões levantadas pela funcionalidade da colmeia e vida das abelhas, não passam de uma gama de material cômico a ser trabalhado.

Ainda que figurativamente, a premissa apresente mensagens ecológicas obvias e um apelo crítico as condições de trabalho num cenário capital – mesmo que no fim das contas essa crítica não anule o fato de que precisamos trabalhar para a sociedade funcionar –, o que importa é gerar o riso, onde o estilo sem escrúpulos e eclética  da antiga série de TV é encaixado e adaptado no típico deboche que o estúdio passou a adotar após o sucesso do primeiro Shrek. Desde o nome do protagonista Barry B. Benson (a pronúncia de Barry, lembra Jerry), até referências culturais extra filme (várias menções a cenas de filmes “bee”, digo filme-b, famosos) a cada virada abrupta e cada vez mais absurdas na trama, existem múltiplas camadas de piada, que sempre vão buscar o trocadilho com a palavra “bee” (Abelha, mas que na pronúncia parece o verbo ser/estar, to “bee”) para fechar seu raciocínio da construção do humor narrativo e consequentemente da história.

Por isso que dublado, esse filme não funciona, porque não fica tão evidente o teor genuinamente idiota passado pela entonação de voz dada por Seinfeld, além de ser impossível de traduzir certas piadas no literal, justamente por ter sido pensada no sofisma com a língua inglesa em sotaque americano. Contudo, mesmo quebrando essa barreira, não consigo enxergar Bee Movie como comédia completamente competente, porque embora faça esforço, como em um episódio de 20 minutos de Seinfeld, para manter sua unidade humorística em sinergia e constantemente engraçada, em determinado momento falta material de preenchimento num outro tom, ainda que como dito, o filme mude de rumo diversas vezes para sempre fornecer novas tiradas.

Começa com um protagonista questionando a casa que vive e querendo escapar, flerta com a jornada de “volta para casa”, até ele conhecer Vanessa (Renée Zellweger), onde vira uma comédia romântica entre duas diferentes espécies – vale mencionar que a humana demora um tanto para se acostuma em ver uma abelha falante, algo que tira a verossimilhança quando a humanidade começa a descobrir a racionalidade dos insetos, ou seja, era melhor que pulassem essa parte– que nunca se consolida para dar lugar a uma “comédia de tribunal” com as abelhas julgando humanos contra crimes ecológicos ao “roubar” seu mel e não acabando por aí, pois para passar a reflexão da importância das abelhas no ecossistema planetário, o clímax explora Barry lidando com a consequência de seus atos e tentando as reverter para um equilíbrio.

Em nenhum desses núcleos, qualquer proximidade dramática ou emotiva com os personagens é sugerida, o que joga todas essas ideias interessantes numa banalidade aleatória, que inicialmente funciona pelo cinismo, especialmente considerando o caráter referencial perfeito ao filme Primeira Noite de um Homem, mas fica à mercê dela o restante do longa. Divertido quando é BEEsta, mas esquecível por ser BEEsta o tempo todo, além de longe de ser vulgarmente estimulante quanto outros da Dreamworks, Bee Movie melhora com o olhar adulto, mas não se fortalece com isso porque regride a olhares infantis, que certamente aceitam melhor uma animação integralmente aBEEstada.

Bee Movie – A História de uma Abelha (Bee Movie | EUA, 2007)
Direção: Simon J. Smith, Steve Hickner
Roteiro: Jerry Seinfeld, Spike Feresten, Barry Marder, Andy Robin, Chuck Martin, Tom Papa
Elenco: Jerry Seinfeld, Renée Zellweger, Matthew Broderick, Patrick Warburton, John Goodman, Chris Rock, Kathy Bates, Barry Levinson, Larry King, Ray Liotta, Sting, Oprah Winfrey, Larry Miller, Megan Mullally, Rip Torn, Michael Richards, Mario Joyner, Jim Cummings
Duração: 91 minutos

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